Entre lanternas e livros

Há tempo não escrevo

Michelle Paulista,



Há algum tempo não escrevo... esse verso imita um outro, de Drummond.  A escrita tem se afastado, mas eis que ela volta e dá seus ares porque visitei meu chão salgado, o chão de Gilberto, o chão de sal. Voltei às letras e às salinas. Sempre volto, assim como o poeta das marés. Fui visitar lugares que há tempos não ia. Fui ver as gamboas, cuja grafia correta precisei adotar como nova, visto que sempre adotei a corruptela “camboa”, sonoridade familiar desde os tempos de Duque de Caxias. “Gamboa” é mais garbosa, combina com “trapiche”, que me lembra “Capitães de areia”, que me lembra infância, meninos, praia, mar e, de repente, me assalta uma maresia tão salgada, tão causticante quanto fazedora de remoçar. E cada vez que vou ao chão e às águas salgadas é um reencontro. Encontro lugares que não vi; vejo lugares pela primeira vez que já conheço. Parece contraditório. Mas é que cada visita é um caminho diferente. Cada retorno é uma chegada única. Cada contemplação à maré é uma experiência inédita e, ao mesmo tempo, deveras familiar. Quando olho para as marés, impossível não vislumbrar os poemas de Gilberto  Avelino, ali vivos, fazendo-se, recitando-se, emergindo entre sargaços e mangues, cheiro forte de peixe e crustáceos. A poesia ondeia, performa-se, faz-se vida.

Reencontro-me a um passado distante e próximo. Longe na cronologia, aproximado ao campo dos afetos. Sim, este é um escrito cheio de contradições, paradoxal. Talvez seja aí que resida alguma coerência: as evocações da infância, encontros e desencontros como meus “eus” de outrora, um pouco antes e agora e daqui a poucos segundos.  Quando vou a Macau, ainda me deslumbro com os mesmos espaços desenhados na geografia dos meus sentimentos. São lugares conhecidos e estranhos, pois como dizia Heráclito, cada vez que mergulhamos em um rio, nunca mais aquele rio será  o mesmo e tampouco o seremos também.

Cada mergulho no mar de Camapum é uma amostra de vida singular. Desta feita, senti um abraço com um quê de divino e as ondas me abraçavam tão fortemente que pareciam uma prosopopeia. A realidade da sensação descrita fundiu os azuis de mar e céu, ora turquesa, ora celeste, sem distinção entre água e firmamento. Esmaecia em uma paleta de cores terapêutica, numa gradação de tons. Clareza de nitidez e brancas areias. Mar traslúcido a denunciar os peixinhos que se exibiam perto da arrebentação. Motes marítimos me assaltavam: água, peixes, salinidade, maré, maresia, sargaços, gamboas e paz, que também é coisa de mar. Esse é o campo semântico que permeia minha existência, numa quase fusão.

Então, alguém me chama. Escorro a água do cabelo e me desvencilho do abraço. Já vou, respondo. E caminho incontinenti  para a faixa de areia.

Há muito tempo, sim, não te escrevo.

Ficaram velhas todas as notícias.

Eu mesmo envelheci: olha em relevo

estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:

são golpes, são espinhos, são lembranças

da vida a teu menino, que a sol-posto

perde a sabedoria das crianças.

(Carlos Drummond de Andrade)


A+ A-