Entre lanternas e livros

Fracasso, de Francisco Alves a Núbia Lafayette

Michelle Paulista,


Talvez muitos de nós não saibamos, mas o RN tem lugar de destaque no cenário da música popular do Brasil. Desde os macauenses Hianto de Almeida e Gilson (um dos precursores da Bossa nova e o autor de “Casinha branca”, respectivamente), passando por Veríssimo de Melo (autor de Caju nasceu pra cachaça”, gravada por Cauby Peixoto) e Núbia Lafayette.

E foi na voz dessa assuense que a canção “Fracasso” ficou mais conhecida; ao menos para mim, menina de maré, da terra das Salinas.

“Fracasso” é de autoria do grande Mário Lago, compositor, ator, poeta, radialista. Com a devida vênia do paupérrimo trocadilho, a canção foi um sucesso em todas as suas versões, começando por Francisco Alves, em 1946, um dos mais populares cantores da primeira metade do século XX.

Somente em 1974, Núbia ofertaria sua versão e com uma curiosa particularidade: Alves e Lago cantaram o primeiro verso, usando a preposição SEM (Relembro, sem saudade, o nosso amor), enquanto a talentosa crooner do Vale do Assu entoava, intencionalmente ou não, o mesmo verso, utilizando a preposição COM (Relembro, com saudade, o nosso amor).

Embora ainda não nascida no ano da versão de Núbia, a canção me acompanharia por muitos anos da infância, a exemplo de tantas outras. Muito do que conheço de música devo a Chico de Paula e sua “Ideal”, campeoníssima em audiência da cidade, como ele costumava dizer.

Foi nos fones da famosa difusora que aprendi inúmeras canções, clássicos da música romântica de apelo popular, alcunhada de bregas. Noite Ilustrada, Nélson Gonçalves, Lindomar Castilho, Adilson Ramos, Agnaldo Timóteo, Altemar Dutra, Paulo Sérgio, Jessé, Márcio Greyck, dentre tantos outros.

A propósito, dia desses, me lembrava de “Nós prometemos não chorar”, de Barros Alencar, um quase-monólogo, em que um homem se despede de uma mulher que chora copiosamente. Quando criança, eu tinha “abuso” dessa canção e muita compaixão, também, por aquela mulher sem voz e tão aflita. Senti vontade de rir e chorar, misto de saudade e nostalgia da época em que ouvia essa música tocando por “aí”, nas sociais dos homens de outrora. Lembro também da francesa “Je t'aime”, canção sensualíssima, sucesso das rádios da minha infância, no velho “Motoradio”, presente de 9 anos, quando ainda morava na esquina da rua Princesa Isabel.

Mas voltando a “Fracasso”, prefiro, sem titubeios, a versão de Núbia Lafayette, ora pela potência feminina de sua interpretação, ora pelas lembranças afetivas evocadas.

Penso que muitas canções nos são queridas não exatamente pela letra, propriamente, mas pelas sensações sinestésicas que nos entregam; pela vibrante experiência de rememoração que seus acordes nos suscitam e pelo rebuliço emocional que acrescenta a nossos afetos.

Talvez isso explique por que sei, de cor, canções “bregas” de Maurício Reis, Roberto Muller, Bartô Galeno, Evaldo Braga, Elino Julião, dentre outros.

“Fracasso”, na versão de Núbia, me transporta para uma infância a caminho da escola Ressurreição, início de tarde, driblando o calor flamejante de salinidade. Era um tempo precioso, em que percorria os corredores do Mercado modelo, atacando os sacos de feijão expostos nos boxes, à espera de clientes, enquanto seus donos negligenciavam a vigília, rendendo-se à modorra da hora da sesta. Eu enchia os bolsos da calça azul da farda com punhados de feijão: preto, carioca, branco, fava. E, na volta, mercado fechado, passava pelo “meio da salina”, ouvindo a Ideal de Chico de Paula e suas páginas musicais.

Núbia imprimiu à canção uma cor de tons terrosos, gosto de fim de dia, no esmaecer do céu caindo nas pilhas de sal. No cheiro de búzios, vendidos em pratos envolvidos em limpos panos feito laços. Não sei se ainda andam meninos a vender a iguaria, pelo cair da noite. Mas era assim. Eu consigo, com facilidade, reproduzir esse cenário nas minhas reminiscências de menina quase adolescente. O canto de Núbia era chorado. Mas não digo pejorativamente. Antes, uma expressão de choro fundindo-se ao canto, tal qual gotas de neblina grossa e repentina em dias quentes.

E, para completar as lembranças cor de terra com salitre nas paredes, penso na famosa oferta: “essa música vai para um alguém, quem oferece é Socorro Cobra, mas não vai dizer o nome para não causar confusão."

Eis a letra da referida canção:

Relembro, sem saudade o nosso amor
O nosso último beijo e último abraço
Porque só me ficou da história triste desse amor
A história dolorosa de um fracasso.

Fracasso, por te querer,
Assim como quis,
Fracasso, por não saber,
Fazer-te feliz,
Fracasso por te amar
Como a nenhuma outra amei,
Chorar o que eu já chorei,
Fracasso, eu sei!

Fracasso, por compreender
Que devo esquecer
Fracasso, porque já sei
Que não esquecerei
Fracasso, fracasso, fracasso,
Fracasso, afinal
Por te querer tanto bem,
E me fazer tanto mal!


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