Entre lanternas e livros

Dos teus ateus olhos

Michelle Paulista,




Ele habitou meus sonhos juvenis, uns reais e outros imaginários.  Rapidamente,  eu o fiz recordar a lembrança em registro que jamais esqueci. Ele era o Apolo dos meus almejos, bonito, subversivo, escandaloso naqueles idos de outrora, em terras salgadas.

A menina magrela e de gostos deslocados admirava-o, como a uma piscina,  artefato de abastados.

Umas vezes, eu ia à piscina. Na AABB, lazer distinto e especial. A ele fui uma vez, num reinado de momo, por sorte, registrado em retrato,  real e imaginado.

O artista. As telas lindas. O cigarro, o cabelo crescido e grisalho.

Agora e antes e agora, sua poesia agora.  Uma poética encharcada de arranjos saborosos,  enxuta, contudo. Poesia escandalosamente simples e profunda. Devorei-a, incontinenti. Diante da tela onde repousava sua poética,  as mãos ligeiras printavam, em gestos automáticos,  os versos que falavam comigo de cara. 

Todos lindos, mas alguns tão proeminentes que se fizeram imperativos, saltando do dispositivo e invadindo as mucosas do rosto, tal qual o novo vírus. 

(Nesse ínterim a aveludada voz da cantora diz: "Mas não aperta, João,

Que eu escapo entre os seus dedos") – um som distante, invasor.

                       ... 

Não foi proposital: todavia versos e canção encontraram-se. A música dela, a poesia dele. Dois Joões?

                      ...

antes de amanhecer o dia

os barcos em romaria

vão em busca da gamboa

quando o dia amanhece

o vento na vela entoa

uma romaria de preces

                    ...

na face do rio piranhas

lento, um barquinho ganha

as águas brandas da gamboa

um barquinho quando desce

rio abaixo, até parece

uma lágrima que escoa

              ...

Marítimo,  telúrico.  Infestado de raízes, como sargaços.  Raízes molhadas,  salgadas, cloreto e sódio,  misturados ao dulçor das cocadas de Maria de Juju. Gosto de roscas de S. Tino, paladar rondeando com os sons da velha "Ideal" de Chico de Paula.  Profusão de sinestesias, som, poesia,  música da voz veluda da cantora,  sal, maresia,  flash momesco, amaro, doce, salgado.  E, remontando-me a um certo Carlos, me pergunto, “sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que me deres”: O que não fazem esses olhos céticos e crentes?


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