Entre lanternas e livros

De volta... ou sobre uma metáfora infeliz

Michelle Paulista,



Li, num misto de repulsa e sentimento de injustiça, as declarações de um certo ministro acerca dos servidores públicos, fazendo uso de uma metáfora infeliz, aludindo ao fenômeno do parasitismo. Com sinceridade, procurei, na hora, listar os inúmeros privilégios que acumulo como servidora pública: levar ventilador para a sala de aula pra não morrer de calor; ganhar como graduada em um dos vínculos mesmo tendo outros títulos; contribuir para a compra da água, do café e do açúcar; engolir aumento de salário de juízes e procuradores enquanto escuto a choradeira dos governos, anualmente, quando da correção do piso salarial etc. São tantos privilégios! Socorro... eu e meus demais colegas levaremos à falência esta já tão combalida pátria aRmada!
Nesse sentido, chega a ser patético o  despeito  de algumas pessoas para com os servidores públicos, pelo simples fato de não conseguirem aprovação em concursos ou por outros motivos menos nobres. Já entro direto, falhando, ao não explicar que tal constatação veio da observação das redes sociais, nas últimas horas.
Conheço muitos que defendem o estado mínimo neoliberal (cujo conceito adquiriu no Whatsapp e YouTube,  lógico) sem sequer saber, de fato, o que significa.  É fato e clichê que, em todos os segmentos do mundo da vida, há bons e maus profissionais. Entretanto,  é o servidor público quem, via de regra, carrega os serviços essenciais à população nesse país. Claro que com isso não intento desmerecer as demais categorias profissionais da iniciativa privada, mas esse é um papo pra outro copo d'água/café. 
Tenho grande satisfação e orgulho em ser servidora pública,  empregada do povo (como exemplarmente me ensina o amigo Sandro Pimentel), vinculada ao Estado do Rio Grande do Norte e à Prefeitura Municipal de Natal. Aprovada em 4 concursos, a lei só me permitiu assumir dois desses. Sou graduada e pós-graduada  pela UFRN, tendo como professores servidores públicos,  muitos deles referência pra mim nos quesitos moralidade,  competência,  dedicação e tantos mais.  Quem me conhece de perto sabe do zelo que tenho pela minha profissão e a forma como lido com meus alunos e professores, dos quais tenho privilégio de ser formadora.  Esses, os que realmente me conhecem, sabem também que guardo comigo tais informações sobre aprovações em concursos e conquistas acadêmicas e não ando a exibi-las como adornos. Contudo, quando vejo um ministro "reeira" (viva a Sociolinguística!) que faz parte do governo de um imprestável da estirpe do Sr. Jair (complete aqui com alguma alcunha bem pejorativa), chamando-me de parasita, logo passo a exibir os trunfos que conquistei a duras penas,  não obstante minha condição de mulher negra, mãe solo,  nascida em família nada abastada. Nessa horas, ostento mesmo, esfrego nas fuças dos escrotos parte (bem pequena, ressalte-se) das minhas conquistas profissionais e acadêmicas. 
Caso soe como pedantismo ou soberba,  culpem uma possível TPM.  Não estou nesse período do ciclo, mas talvez alivie o coração daqueles que só dispõem de argumentos dessa altura para xingar uma mulher progressista. Em tempos de tanto obscurantismo e retrocesso,  ouvir que estou na TPM, a cada brado de indignação que dou, já virou elogio. Afinal, a TPM é feminina,  assim como o é o gênero da palavra VIDA,  essa coisa-tudo que pulsa em nós. 
Sim, agora escrevo em revide às inúmeras postagens que li após a fala do ministro, num episódio coletivo de baba escorrida em pontas de dedos, num quase "orgasmo-catártico", vingancinha mesquinha sobre coleguinha que-passa-em-concurso-enquanto-eu-não.
Sim também para quem agora imagina que escrevo sob considerável indignação.
Colegas professores e todas os demais servidores públicos, vamos, atendamos ao convite de Drummond,  de mãos dadas, corações enlaçados e sonhemos. Sonhemos muito e insistentemente, pois sonhar é acordar-se para dentro, como nos ensinou Mário Quintana. Quanto aos demais, vão pra o Chile, pois eu, tão logo possa, para Havana irei.

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