Entre lanternas e livros

De jogos e burocracias

Michelle Paulista,



De jogos e burocracias

Não sou saudosista a maior parte do tempo: prefiro extrair o que foi bom outrora e o que é bom no tempo presente. Mas rapidamente fico nostálgica quando me recordo de como as nossas relações eram menos burocráticas, há um certo tempo.

Na entediante e incerta rotina de distanciamento social, tenho gravado trechos de poemas que resistem bravamente, em minha memória.  Um deles foi gravado em branco e preto para combinar com o tom do dia. Era Fernando Pessoa falando de o quão ridículas são e o quão têm de ser, as cartas de amor. Ridículas são,  na verdade, as criaturas que nunca escreveram cartas de amor, segundo o grande poeta lusitano.

Onde a burocracia, então?

Digo que habita nos melindres da comunicação contemporânea.  Não me constam nos registros de outrora - época de paixões e paqueras - quaisquer permissões para escrevermos para alguém, por exemplo.  Bastava que tivéssemos o endereço de alguém ou nem isso, caso a carta fosse para a mesma cercania. Quantos bloquinhos de papéis de carta, quantos beijinhos nas folhas, com batom de cheirinho de morango e tutti-frutti...

Obsoletas as cartas e, por conseguinte, o livre trânsito das comunicações espontâneas, hoje é preciso autorização para telefonar para alguém. Crime hediondo.

Não é de bom tom telefonar pra alguém sem um antes e precavido: posso te ligar? Do contrário,  teremos a chamada rejeitada,  seguida de uma mensagem: oi, me ligou? Ligar para alguém se torna algo invasivo. Diria ofensivo,  até. 

Não importa se é algo urgente, se queremos ouvir a voz do outro em vez de gastar os dedos em tecladas. Não importa se queremos, simplesmente,  conversar por voz, pela velha e vibrante ligação telefônica.  Dia desses, atônita,  eu ouvia uma pessoa dizendo,  num misto de orgulho e louvor: eu vejo a chamada,  rejeito ou finjo que não vi e depois pergunto o que a pessoa quer. Devo acrescentar que tal fala foi seguida de uma sonora risada, cuja graça procuro até agora.

É certo que às vezes não podemos atender. E longe, bem longe de mim a pretensão de regular o que cada um faz com seus telefones e ligações.  Entretanto,  ainda não compreendi esse mecanismo contemporâneo que engessa as relações,  estipulando barreiras e burocracias.

Não sou boa em jogos, esportivos ou não.  Tampouco os jogos de relacionamentos. Tenho visto, aqui e acolá,  uma explosão de dicas de como se comportar nas relações: não ligue se não te ligarem; aguarde mandarem mensagem; não demonstre interesse; não faça o convite primeiro... e um sem fim de orientações e táticas de conquista e relacionamento.  Devo dizer que,  neste tabuleiro, estou atrás sempre. A linha de chegada não chega pra mim. Antes, prefiro as fronteiras abertas, os telefonemas gostosos, as mensagens enviadas no momento em que o coração as gera. Menos protocolo, mais interação. Em tempos de crise, mais ainda.

Vou continuar ligando, quando me der vontade de ouvir a voz de alguém,  até que rejeitem ou ignorem minha chamada.  Sim, continuarei convidando pra um café ou um filme, mesmo que tal coisa me traga o rótulo de "oferecida". Mandarei a mensagem primeiro, se esse for o sentimento.  Não sei de jogos; desconheço táticas.  O que sei mesmo, bem ou mal, é viver. Vida torta, doce,  gauche, até certo ponto ingênua,  desarmada, sem estratégias.

Nunca avançamos tanto rumo ao retrocesso. Vida retrógrada,  relações idem. E viva as iniciativas sem permissão. Vivamos!




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