Entre lanternas e livros

A preguiça poética de Juvenal Antunes

Michelle Paulista,

Juvenal Antunes nasceu em Ceará-Mirim, no século XIX, tendo como irmã a escritora memorialista Madalena Antunes Pereira. Entretanto, foi no Acre que viveu a maior parte de sua vida adulta, ocupando o cargo de promotor público. Juvenal é dono de uma biografia curiosa, pois passava seus dias vestido de chambre, a declamar poemas em homenagem a sua amada Laura, com quem teria vivido um romance clandestino. Existe uma estátua em homenagem ao poeta na calçada do antigo hotel onde residia e vivia de farras pagas “no fiado”.

Em 2006, a Globo exibiu a série “Amazônia: de Galvez a Chico Mendes”, na qual o personagem de Antunes foi interpretado com muita competência pelo ator Diogo Vilela, em cenas inesquecíveis.

Dedicado ao próprio Juvenal, o “Elogio da preguiça” é o mais famoso de seus poemas, em que exalta o ócio, desconstrói verdades estabelecidas e confronta o senso comum.  Vejamos alguns trechos:

Bendita sejas tu, preguiça amada,

Que não consentes que eu me ocupe em nada!

(...)

Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:

- Não te importes com o dia de amanhã.

Para mim, já é grande sacrifício

Ter de engolir o bolo alimentício.

Ó sábios, dai à luz um novo invento:

- A nutrição ser feita pelo vento!

(...)

Não seria melhor viver à sorte,

Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?

(...)

Ó Laura, Tu te queixas que eu, farsista,

Ontem faltei, à hora da entrevista,

Que me não faças mais essa injustiça!...

Se ontem não fui te ver – foi por preguiça.

Desfrutemos, pois, da irreverente poesia do boêmio inolvidável, como o chamou Esmeraldo Siqueira...


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