Entre lanternas e livros

A mulher do meu amigo

Michelle Paulista,


O universo feminino é mesmo um infinito particular, aludindo à linda canção de Marisa Monte. Desde cedo, somos acostumadas à competição, a vermos outras mulheres como adversárias ou concorrentes. Sou mãe de menino e acho interessantíssimo como eles aparentam menos afetação; como são práticos nas relações. Diversas vezes, presenciei um colega do meu filho vindo aqui em casa chamá-lo para jogar bola e ser recepcionado com um “vou nada”, seguido de uma virada de costas, sem “tchau” nem nada. Mais tarde, todos juntos na pelada do condomínio.  Poderia citar dezenas de exemplos. Poderia, de igual modo, fazer considerações sobre tais comportamentos e como são diferentes entre as meninas. Mas este não é o propósito deste texto.

Escolhi falar de três mulheres que conheci em situações curiosas: por meio de seus companheiros, de quem primeiro me tornei amiga.

Primeiro,  eu as admiro pelo que elas são: inteligentes,  cosmopolitas,  trabalhadoras,  bonitas, progressistas, almas nobres,  apreciadoras das artes e da natureza. São alegres, boas de conversar, ótimas companhias (com e sem os companheiros). Eu adoro estar com elas, conversar no zap. Zero desconforto se eu precisar, de igual modo, conversar e tomar um café com meus amigos,  seus respectivos, em suas ausências ou presenças. Além dos amigos queridos, ganhei três mulheres incríveis,  de cujas amizades e presença em minha vida jamais abro mão.

Depois, e não menos importante,  admiro-as pela grandeza de me aceitarem como amiga também,  na contramão de um mundo que estimula a competição entre as mulheres,  fazendo-as sempre como inimigas ou concorrentes, quando não ameaças. 

Em Macau dos anos 90, todo mundo se conhecia. Eu, menina, via Dalvaci na Caixa Econômica, depois casada com o amigo Alfredo.  Algumas vezes encontrei-a no banco,  cumprimento formal e pronto. Já a admirava pela sua militância, pela inteligência sensível, pela postura vitoriosa ante a vida. Até que um dia ocorreu-me ir de carona com ela para nossa Salinésia.  Passamos quase um dia juntas: fomos ao comércio,  passamos aqui e ali... Na estrada,  fomos conversando, ouvindo música e descobrindo afinidades. Dias depois, estávamos na praia, brincando no mar, fazendo fotos e poses e mais fotos e mais poses, além de mil planos de passeios e shows que nunca dão certo. Com Alfredo, trato da AMLA, de publicações na Kukukaya. Com Dalvaci, é o banho de mar gostoso e as levezas com que ela olha a vida. Admirável é ela.

Eu já não lembro direito como conheci Jeanne Araújo.  Sei que a referência primeira era a companheira do amigo Cefas. Um dia, li um poema seu (que já não lembro qual é) e fiquei impressionada: era diferente do que costumo ver nessas paragens. Eu vejo muita coisa produzida e sou um pouco ranzinza quanto a alguns poemas. Mas Jeanne consegue se destacar porque alcança um nível de expressividade interessante. Não rima simplesmente amor com dor. Também não sei direito como nos aproximamos, mas o fato é que quando nos encontramos pessoalmente pela primeira vez,  já éramos velhas amigas. É uma querida do meu coração,  com quem me sinto à vontade para dividir e confidenciar os dramas femininos mais íntimos, às vezes tarde da noite, nas nossas redes sociais. É uma voz que me soa íntima, que me convida a falar sem frescuras, dos dramas cotidianos nosso, meus e dela. Poeta das boas é ela.

Irandi Pinto é  daquelas pessoas que contradizem a máxima: impossível agradar a todo mundo. Conheci-a nos bastidores do Potiguar notícias.  É o bilhete premiado de Pinto Jr. Uma das mulheres mais doces e acolhedoras que conheço e, não obstante essas qualidades, muito forte também.  Alguns dos meus melhores passeios em Parnamirim foram com esse casal querido.  Chamo-a carinhosamente de "dona do dono", porque é isso mesmo ela é.  Com Pinto, gosto de tomar aquele café na padaria próxima; com Irandi gosto de sentir o melhor abraço e ouvir dela a risada que parece nos abraçar,  ainda que por telefone. É proprietária de uma voz quase infantil, no que tange à alegria. Adorável é ela.



Que sorte a minha! Que sorte a dos meus amigos. Eles têm mulheres gigantes ao lado. Eu ganhei três amigas caras. A sorte não é pra todo mundo, talvez seja só pra mim, já dizia outra canção. 



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