Entre lanternas e livros

Sobre ser

Michelle Paulista,


Meus mundos fundem-se

no vale fértil de minhas imaginações. 



Sonho e vivo;

vivo o sonho,

no sonho, vivo.


Vida-sonho, imagem-vida: 

profusão de ser-me.


No dia do escritor, a chama poética de uma grande

Michelle Paulista,



Neste dia do escritor, gostaria de homenagear inúmeros nomes, especialmente aqueles que tanto me falam, como Drummond, Bartolomeu Campos Queirós, Manuel Bandeira e tantos outros. Poderia, ainda, fazer um recorte, dando um “zoom” no Panorama potiguar, em que figuram nomes como Gilberto Avelino, Jorge Fernandes, Zila Mamede e outros gigantes.  Fico nesse quadrado da província do Rio Grande, mas opto pelos nomes contemporâneos.

São inúmeros e, caso ouse citar nomes, certamente esquecerei muitos bons e muitas boas poetas. Assim, de maneira metonímica, escolho um nome a partir do qual homenageio todos os amigos e amigas poetas, que resistem bravamente nesses tempos duros com sua poesia e seu encantamento.

Jeanne Araújo.

Recebo, constantemente, escritos de toda ordem: crônicas, poemas, ensaios, romances. Uns para ler, outros para opinar, mais uns para revisar. A maior parte de excelente qualidade; outros nem tanto. Mas quem pode valorar um texto literário, senão quem o lê e nele adentra?

Desse modo, entro no texto de Jeanne. A primeira vez que li, fiquei surpreendentemente impressionada com sua poética. Forte, potente, visceral. Um arranjo de metáforas e figuras cuidadosamente descritas. A cada verso, uma surpreendente sensação evocada, habilidade de brincar com as palavras. Poesia erótica, que pinga suor; perfume exalado, sensações derramadas:

“Enquanto espero, mantenho

as pernas abertas, cálice profano

onde bebes leite e mel

enrosco-me no teu peito quente

e dito palavras obscenas ao teu ouvido

peço-te tua adaga em fúria

e te dou minha pérola em ostra viva

pescas um poema em minhas profundezas.”

Uma mulher em transe, prestes a ser sorvida, ofertando a joia forjada em dores, mar bravio. O poema vem de dentro, sulco a jorrar poesia.

Jeanne não usa de “amor/dor”, “alegria/dia”; talvez nunca tenha trilhado esse expediente. Antes, joga fora as rimas, o previsível, o que se espera. Vem de rompante, suave e incisiva. Quente, marcante, passional.

“Não me incomodo

que você se insinue

nas paredes do quarto

por entre os lençóis

divido meu prato

minha cama, o livro

carinho, castigo

escuro, faróis.

Só não divido a centelha em mim: poema é faísca.”

Os versos acima, vejo-os como a própria metalinguagem da poesia de Jeanne: fogo, chama. Poesia ígnea, embrasada.  Sua poesia aquece e ilumina.

Em seu nome, Jeanne, cumprimento e felicito todos e todas os/as poetas dessas terras potiguares. Vivam os escritores!

OBS: Os dois poemas citados estão no novíssimo “Cicuta e Cilício”.



Poema noturno

Michelle Paulista,



Hoje eu dormi triste

Retina fatigada, tal qual meu poeta

Fatigado corpo

Fatigada alma

Amanhã, quiçá me desperte

Algum pássaro em voo

O verde da plantinha brotando na parede

Ousada, resistente, a balançar

Galhos são como ideias

Versejam, compõem, balançam:

Dão-se ao vento

Amanhã, espero bons olhares

Gestos afagantes, toques sutis

Um sopro de alegria

De quem muito pouco tem a dizer.

(Michelle Paulista)



Dica literária: Por Parte de Pai, de Bartolomeu Campos Queirós

Michelle Paulista,

A obra de Bartolomeu Campos Queirós expressa um movimento de celebração da cultura do interior de Minas Gerais. Por parte de pai tem como cenário a casa dos avós do personagem, Joaquim e Maria Queirós, dois contadores de histórias. Ele costumava transpor para as paredes da casa todo tipo de acontecimento. D. Maria Queirós, por sua vez, comprazia-se em contar histórias de assombração, à noite, para entreter e amedrontar os netos. Dentre elas, destaca-se a de Maria Turum, antiga empregada da família, uma mulher que fora escravizada e vivera na casa dos Queirós, ajudando D. Maria a criar os filhos do casal. É descrita como uma alma desgraçada que, sequer no fim da vida, pôde gozar de algum alento, pois morrera cheia de “bicho no corpo de tanto ficar na cama, fraca, inválida, velha” (p. 12).

Depois de morta, sua alma passava as noites de sextas-feiras assustando os bichos no quintal, andando pela casa, provocando barulhos de toda ordem, conversando, inclusive, com D. Maria, “implorando missa” (p. 13).  Curiosamente, era descrita por D. Maria Queirós como uma alma coberta de “luz branca, cercada de anjos pretinhos” (p. 13). Maria Turum só apreciava coisas brancas: arroz, lençol, farinha, açúcar, pipocas e suspiros. A história dessa ex-escravizada nos leva a refletir sobre a vida das mulheres negras no início do século XX e seus ofícios de serviçais em casas de família.

Por parte de pai traz, ainda, um emocionante relato de como se deu o letramento literário do nosso saudoso Bartô. Vale muito a pena a leitura.


Um sopro de poesia

Michelle Paulista,

 Os que aqui me acompanham sabem que, geralmente, escrevo em prosa. Contudo, hoje me ocorreu um lampejo de poesia e resolvi registrá-lo no poema que segue. 


A meu “Rogers - Martim – Cole”



Tens duas presenças:

Aquela, de quando estás em mim

Perto, nós em nó

Novelo, pujança.



Uma outra, igualmente trazes

Essa, de agora

Aperto, laço desfeito

Desenredo, pungência.



(Michelle Paulista)



Fracasso, de Francisco Alves a Núbia Lafayette

Michelle Paulista,


Talvez muitos de nós não saibamos, mas o RN tem lugar de destaque no cenário da música popular do Brasil. Desde os macauenses Hianto de Almeida e Gilson (um dos precursores da Bossa nova e o autor de “Casinha branca”, respectivamente), passando por Veríssimo de Melo (autor de Caju nasceu pra cachaça”, gravada por Cauby Peixoto) e Núbia Lafayette.

E foi na voz dessa assuense que a canção “Fracasso” ficou mais conhecida; ao menos para mim, menina de maré, da terra das Salinas.

“Fracasso” é de autoria do grande Mário Lago, compositor, ator, poeta, radialista. Com a devida vênia do paupérrimo trocadilho, a canção foi um sucesso em todas as suas versões, começando por Francisco Alves, em 1946, um dos mais populares cantores da primeira metade do século XX.

Somente em 1974, Núbia ofertaria sua versão e com uma curiosa particularidade: Alves e Lago cantaram o primeiro verso, usando a preposição SEM (Relembro, sem saudade, o nosso amor), enquanto a talentosa crooner do Vale do Assu entoava, intencionalmente ou não, o mesmo verso, utilizando a preposição COM (Relembro, com saudade, o nosso amor).

Embora ainda não nascida no ano da versão de Núbia, a canção me acompanharia por muitos anos da infância, a exemplo de tantas outras. Muito do que conheço de música devo a Chico de Paula e sua “Ideal”, campeoníssima em audiência da cidade, como ele costumava dizer.

Foi nos fones da famosa difusora que aprendi inúmeras canções, clássicos da música romântica de apelo popular, alcunhada de bregas. Noite Ilustrada, Nélson Gonçalves, Lindomar Castilho, Adilson Ramos, Agnaldo Timóteo, Altemar Dutra, Paulo Sérgio, Jessé, Márcio Greyck, dentre tantos outros.

A propósito, dia desses, me lembrava de “Nós prometemos não chorar”, de Barros Alencar, um quase-monólogo, em que um homem se despede de uma mulher que chora copiosamente. Quando criança, eu tinha “abuso” dessa canção e muita compaixão, também, por aquela mulher sem voz e tão aflita. Senti vontade de rir e chorar, misto de saudade e nostalgia da época em que ouvia essa música tocando por “aí”, nas sociais dos homens de outrora. Lembro também da francesa “Je t'aime”, canção sensualíssima, sucesso das rádios da minha infância, no velho “Motoradio”, presente de 9 anos, quando ainda morava na esquina da rua Princesa Isabel.

Mas voltando a “Fracasso”, prefiro, sem titubeios, a versão de Núbia Lafayette, ora pela potência feminina de sua interpretação, ora pelas lembranças afetivas evocadas.

Penso que muitas canções nos são queridas não exatamente pela letra, propriamente, mas pelas sensações sinestésicas que nos entregam; pela vibrante experiência de rememoração que seus acordes nos suscitam e pelo rebuliço emocional que acrescenta a nossos afetos.

Talvez isso explique por que sei, de cor, canções “bregas” de Maurício Reis, Roberto Muller, Bartô Galeno, Evaldo Braga, Elino Julião, dentre outros.

“Fracasso”, na versão de Núbia, me transporta para uma infância a caminho da escola Ressurreição, início de tarde, driblando o calor flamejante de salinidade. Era um tempo precioso, em que percorria os corredores do Mercado modelo, atacando os sacos de feijão expostos nos boxes, à espera de clientes, enquanto seus donos negligenciavam a vigília, rendendo-se à modorra da hora da sesta. Eu enchia os bolsos da calça azul da farda com punhados de feijão: preto, carioca, branco, fava. E, na volta, mercado fechado, passava pelo “meio da salina”, ouvindo a Ideal de Chico de Paula e suas páginas musicais.

Núbia imprimiu à canção uma cor de tons terrosos, gosto de fim de dia, no esmaecer do céu caindo nas pilhas de sal. No cheiro de búzios, vendidos em pratos envolvidos em limpos panos feito laços. Não sei se ainda andam meninos a vender a iguaria, pelo cair da noite. Mas era assim. Eu consigo, com facilidade, reproduzir esse cenário nas minhas reminiscências de menina quase adolescente. O canto de Núbia era chorado. Mas não digo pejorativamente. Antes, uma expressão de choro fundindo-se ao canto, tal qual gotas de neblina grossa e repentina em dias quentes.

E, para completar as lembranças cor de terra com salitre nas paredes, penso na famosa oferta: “essa música vai para um alguém, quem oferece é Socorro Cobra, mas não vai dizer o nome para não causar confusão."

Eis a letra da referida canção:

Relembro, sem saudade o nosso amor
O nosso último beijo e último abraço
Porque só me ficou da história triste desse amor
A história dolorosa de um fracasso.

Fracasso, por te querer,
Assim como quis,
Fracasso, por não saber,
Fazer-te feliz,
Fracasso por te amar
Como a nenhuma outra amei,
Chorar o que eu já chorei,
Fracasso, eu sei!

Fracasso, por compreender
Que devo esquecer
Fracasso, porque já sei
Que não esquecerei
Fracasso, fracasso, fracasso,
Fracasso, afinal
Por te querer tanto bem,
E me fazer tanto mal!



A preguiça poética de Juvenal Antunes

Michelle Paulista,

Juvenal Antunes nasceu em Ceará-Mirim, no século XIX, tendo como irmã a escritora memorialista Madalena Antunes Pereira. Entretanto, foi no Acre que viveu a maior parte de sua vida adulta, ocupando o cargo de promotor público. Juvenal é dono de uma biografia curiosa, pois passava seus dias vestido de chambre, a declamar poemas em homenagem a sua amada Laura, com quem teria vivido um romance clandestino. Existe uma estátua em homenagem ao poeta na calçada do antigo hotel onde residia e vivia de farras pagas “no fiado”.

Em 2006, a Globo exibiu a série “Amazônia: de Galvez a Chico Mendes”, na qual o personagem de Antunes foi interpretado com muita competência pelo ator Diogo Vilela, em cenas inesquecíveis.

Dedicado ao próprio Juvenal, o “Elogio da preguiça” é o mais famoso de seus poemas, em que exalta o ócio, desconstrói verdades estabelecidas e confronta o senso comum.  Vejamos alguns trechos:

Bendita sejas tu, preguiça amada,

Que não consentes que eu me ocupe em nada!

(...)

Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:

- Não te importes com o dia de amanhã.

Para mim, já é grande sacrifício

Ter de engolir o bolo alimentício.

Ó sábios, dai à luz um novo invento:

- A nutrição ser feita pelo vento!

(...)

Não seria melhor viver à sorte,

Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?

(...)

Ó Laura, Tu te queixas que eu, farsista,

Ontem faltei, à hora da entrevista,

Que me não faças mais essa injustiça!...

Se ontem não fui te ver – foi por preguiça.

Desfrutemos, pois, da irreverente poesia do boêmio inolvidável, como o chamou Esmeraldo Siqueira...



Há tempo não escrevo

Michelle Paulista,



Há algum tempo não escrevo... esse verso imita um outro, de Drummond.  A escrita tem se afastado, mas eis que ela volta e dá seus ares porque visitei meu chão salgado, o chão de Gilberto, o chão de sal. Voltei às letras e às salinas. Sempre volto, assim como o poeta das marés. Fui visitar lugares que há tempos não ia. Fui ver as gamboas, cuja grafia correta precisei adotar como nova, visto que sempre adotei a corruptela “camboa”, sonoridade familiar desde os tempos de Duque de Caxias. “Gamboa” é mais garbosa, combina com “trapiche”, que me lembra “Capitães de areia”, que me lembra infância, meninos, praia, mar e, de repente, me assalta uma maresia tão salgada, tão causticante quanto fazedora de remoçar. E cada vez que vou ao chão e às águas salgadas é um reencontro. Encontro lugares que não vi; vejo lugares pela primeira vez que já conheço. Parece contraditório. Mas é que cada visita é um caminho diferente. Cada retorno é uma chegada única. Cada contemplação à maré é uma experiência inédita e, ao mesmo tempo, deveras familiar. Quando olho para as marés, impossível não vislumbrar os poemas de Gilberto  Avelino, ali vivos, fazendo-se, recitando-se, emergindo entre sargaços e mangues, cheiro forte de peixe e crustáceos. A poesia ondeia, performa-se, faz-se vida.

Reencontro-me a um passado distante e próximo. Longe na cronologia, aproximado ao campo dos afetos. Sim, este é um escrito cheio de contradições, paradoxal. Talvez seja aí que resida alguma coerência: as evocações da infância, encontros e desencontros como meus “eus” de outrora, um pouco antes e agora e daqui a poucos segundos.  Quando vou a Macau, ainda me deslumbro com os mesmos espaços desenhados na geografia dos meus sentimentos. São lugares conhecidos e estranhos, pois como dizia Heráclito, cada vez que mergulhamos em um rio, nunca mais aquele rio será  o mesmo e tampouco o seremos também.

Cada mergulho no mar de Camapum é uma amostra de vida singular. Desta feita, senti um abraço com um quê de divino e as ondas me abraçavam tão fortemente que pareciam uma prosopopeia. A realidade da sensação descrita fundiu os azuis de mar e céu, ora turquesa, ora celeste, sem distinção entre água e firmamento. Esmaecia em uma paleta de cores terapêutica, numa gradação de tons. Clareza de nitidez e brancas areias. Mar traslúcido a denunciar os peixinhos que se exibiam perto da arrebentação. Motes marítimos me assaltavam: água, peixes, salinidade, maré, maresia, sargaços, gamboas e paz, que também é coisa de mar. Esse é o campo semântico que permeia minha existência, numa quase fusão.

Então, alguém me chama. Escorro a água do cabelo e me desvencilho do abraço. Já vou, respondo. E caminho incontinenti  para a faixa de areia.

Há muito tempo, sim, não te escrevo.

Ficaram velhas todas as notícias.

Eu mesmo envelheci: olha em relevo

estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:

são golpes, são espinhos, são lembranças

da vida a teu menino, que a sol-posto

perde a sabedoria das crianças.

(Carlos Drummond de Andrade)



De jogos e burocracias

Michelle Paulista,



De jogos e burocracias

Não sou saudosista a maior parte do tempo: prefiro extrair o que foi bom outrora e o que é bom no tempo presente. Mas rapidamente fico nostálgica quando me recordo de como as nossas relações eram menos burocráticas, há um certo tempo.

Na entediante e incerta rotina de distanciamento social, tenho gravado trechos de poemas que resistem bravamente, em minha memória.  Um deles foi gravado em branco e preto para combinar com o tom do dia. Era Fernando Pessoa falando de o quão ridículas são e o quão têm de ser, as cartas de amor. Ridículas são,  na verdade, as criaturas que nunca escreveram cartas de amor, segundo o grande poeta lusitano.

Onde a burocracia, então?

Digo que habita nos melindres da comunicação contemporânea.  Não me constam nos registros de outrora - época de paixões e paqueras - quaisquer permissões para escrevermos para alguém, por exemplo.  Bastava que tivéssemos o endereço de alguém ou nem isso, caso a carta fosse para a mesma cercania. Quantos bloquinhos de papéis de carta, quantos beijinhos nas folhas, com batom de cheirinho de morango e tutti-frutti...

Obsoletas as cartas e, por conseguinte, o livre trânsito das comunicações espontâneas, hoje é preciso autorização para telefonar para alguém. Crime hediondo.

Não é de bom tom telefonar pra alguém sem um antes e precavido: posso te ligar? Do contrário,  teremos a chamada rejeitada,  seguida de uma mensagem: oi, me ligou? Ligar para alguém se torna algo invasivo. Diria ofensivo,  até. 

Não importa se é algo urgente, se queremos ouvir a voz do outro em vez de gastar os dedos em tecladas. Não importa se queremos, simplesmente,  conversar por voz, pela velha e vibrante ligação telefônica.  Dia desses, atônita,  eu ouvia uma pessoa dizendo,  num misto de orgulho e louvor: eu vejo a chamada,  rejeito ou finjo que não vi e depois pergunto o que a pessoa quer. Devo acrescentar que tal fala foi seguida de uma sonora risada, cuja graça procuro até agora.

É certo que às vezes não podemos atender. E longe, bem longe de mim a pretensão de regular o que cada um faz com seus telefones e ligações.  Entretanto,  ainda não compreendi esse mecanismo contemporâneo que engessa as relações,  estipulando barreiras e burocracias.

Não sou boa em jogos, esportivos ou não.  Tampouco os jogos de relacionamentos. Tenho visto, aqui e acolá,  uma explosão de dicas de como se comportar nas relações: não ligue se não te ligarem; aguarde mandarem mensagem; não demonstre interesse; não faça o convite primeiro... e um sem fim de orientações e táticas de conquista e relacionamento.  Devo dizer que,  neste tabuleiro, estou atrás sempre. A linha de chegada não chega pra mim. Antes, prefiro as fronteiras abertas, os telefonemas gostosos, as mensagens enviadas no momento em que o coração as gera. Menos protocolo, mais interação. Em tempos de crise, mais ainda.

Vou continuar ligando, quando me der vontade de ouvir a voz de alguém,  até que rejeitem ou ignorem minha chamada.  Sim, continuarei convidando pra um café ou um filme, mesmo que tal coisa me traga o rótulo de "oferecida". Mandarei a mensagem primeiro, se esse for o sentimento.  Não sei de jogos; desconheço táticas.  O que sei mesmo, bem ou mal, é viver. Vida torta, doce,  gauche, até certo ponto ingênua,  desarmada, sem estratégias.

Nunca avançamos tanto rumo ao retrocesso. Vida retrógrada,  relações idem. E viva as iniciativas sem permissão. Vivamos!





Dos teus ateus olhos

Michelle Paulista,




Ele habitou meus sonhos juvenis, uns reais e outros imaginários.  Rapidamente,  eu o fiz recordar a lembrança em registro que jamais esqueci. Ele era o Apolo dos meus almejos, bonito, subversivo, escandaloso naqueles idos de outrora, em terras salgadas.

A menina magrela e de gostos deslocados admirava-o, como a uma piscina,  artefato de abastados.

Umas vezes, eu ia à piscina. Na AABB, lazer distinto e especial. A ele fui uma vez, num reinado de momo, por sorte, registrado em retrato,  real e imaginado.

O artista. As telas lindas. O cigarro, o cabelo crescido e grisalho.

Agora e antes e agora, sua poesia agora.  Uma poética encharcada de arranjos saborosos,  enxuta, contudo. Poesia escandalosamente simples e profunda. Devorei-a, incontinenti. Diante da tela onde repousava sua poética,  as mãos ligeiras printavam, em gestos automáticos,  os versos que falavam comigo de cara. 

Todos lindos, mas alguns tão proeminentes que se fizeram imperativos, saltando do dispositivo e invadindo as mucosas do rosto, tal qual o novo vírus. 

(Nesse ínterim a aveludada voz da cantora diz: "Mas não aperta, João,

Que eu escapo entre os seus dedos") – um som distante, invasor.

                       ... 

Não foi proposital: todavia versos e canção encontraram-se. A música dela, a poesia dele. Dois Joões?

                      ...

antes de amanhecer o dia

os barcos em romaria

vão em busca da gamboa

quando o dia amanhece

o vento na vela entoa

uma romaria de preces

                    ...

na face do rio piranhas

lento, um barquinho ganha

as águas brandas da gamboa

um barquinho quando desce

rio abaixo, até parece

uma lágrima que escoa

              ...

Marítimo,  telúrico.  Infestado de raízes, como sargaços.  Raízes molhadas,  salgadas, cloreto e sódio,  misturados ao dulçor das cocadas de Maria de Juju. Gosto de roscas de S. Tino, paladar rondeando com os sons da velha "Ideal" de Chico de Paula.  Profusão de sinestesias, som, poesia,  música da voz veluda da cantora,  sal, maresia,  flash momesco, amaro, doce, salgado.  E, remontando-me a um certo Carlos, me pergunto, “sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que me deres”: O que não fazem esses olhos céticos e crentes?



A mulher do meu amigo

Michelle Paulista,


O universo feminino é mesmo um infinito particular, aludindo à linda canção de Marisa Monte. Desde cedo, somos acostumadas à competição, a vermos outras mulheres como adversárias ou concorrentes. Sou mãe de menino e acho interessantíssimo como eles aparentam menos afetação; como são práticos nas relações. Diversas vezes, presenciei um colega do meu filho vindo aqui em casa chamá-lo para jogar bola e ser recepcionado com um “vou nada”, seguido de uma virada de costas, sem “tchau” nem nada. Mais tarde, todos juntos na pelada do condomínio.  Poderia citar dezenas de exemplos. Poderia, de igual modo, fazer considerações sobre tais comportamentos e como são diferentes entre as meninas. Mas este não é o propósito deste texto.

Escolhi falar de três mulheres que conheci em situações curiosas: por meio de seus companheiros, de quem primeiro me tornei amiga.

Primeiro,  eu as admiro pelo que elas são: inteligentes,  cosmopolitas,  trabalhadoras,  bonitas, progressistas, almas nobres,  apreciadoras das artes e da natureza. São alegres, boas de conversar, ótimas companhias (com e sem os companheiros). Eu adoro estar com elas, conversar no zap. Zero desconforto se eu precisar, de igual modo, conversar e tomar um café com meus amigos,  seus respectivos, em suas ausências ou presenças. Além dos amigos queridos, ganhei três mulheres incríveis,  de cujas amizades e presença em minha vida jamais abro mão.

Depois, e não menos importante,  admiro-as pela grandeza de me aceitarem como amiga também,  na contramão de um mundo que estimula a competição entre as mulheres,  fazendo-as sempre como inimigas ou concorrentes, quando não ameaças. 

Em Macau dos anos 90, todo mundo se conhecia. Eu, menina, via Dalvaci na Caixa Econômica, depois casada com o amigo Alfredo.  Algumas vezes encontrei-a no banco,  cumprimento formal e pronto. Já a admirava pela sua militância, pela inteligência sensível, pela postura vitoriosa ante a vida. Até que um dia ocorreu-me ir de carona com ela para nossa Salinésia.  Passamos quase um dia juntas: fomos ao comércio,  passamos aqui e ali... Na estrada,  fomos conversando, ouvindo música e descobrindo afinidades. Dias depois, estávamos na praia, brincando no mar, fazendo fotos e poses e mais fotos e mais poses, além de mil planos de passeios e shows que nunca dão certo. Com Alfredo, trato da AMLA, de publicações na Kukukaya. Com Dalvaci, é o banho de mar gostoso e as levezas com que ela olha a vida. Admirável é ela.

Eu já não lembro direito como conheci Jeanne Araújo.  Sei que a referência primeira era a companheira do amigo Cefas. Um dia, li um poema seu (que já não lembro qual é) e fiquei impressionada: era diferente do que costumo ver nessas paragens. Eu vejo muita coisa produzida e sou um pouco ranzinza quanto a alguns poemas. Mas Jeanne consegue se destacar porque alcança um nível de expressividade interessante. Não rima simplesmente amor com dor. Também não sei direito como nos aproximamos, mas o fato é que quando nos encontramos pessoalmente pela primeira vez,  já éramos velhas amigas. É uma querida do meu coração,  com quem me sinto à vontade para dividir e confidenciar os dramas femininos mais íntimos, às vezes tarde da noite, nas nossas redes sociais. É uma voz que me soa íntima, que me convida a falar sem frescuras, dos dramas cotidianos nosso, meus e dela. Poeta das boas é ela.

Irandi Pinto é  daquelas pessoas que contradizem a máxima: impossível agradar a todo mundo. Conheci-a nos bastidores do Potiguar notícias.  É o bilhete premiado de Pinto Jr. Uma das mulheres mais doces e acolhedoras que conheço e, não obstante essas qualidades, muito forte também.  Alguns dos meus melhores passeios em Parnamirim foram com esse casal querido.  Chamo-a carinhosamente de "dona do dono", porque é isso mesmo ela é.  Com Pinto, gosto de tomar aquele café na padaria próxima; com Irandi gosto de sentir o melhor abraço e ouvir dela a risada que parece nos abraçar,  ainda que por telefone. É proprietária de uma voz quase infantil, no que tange à alegria. Adorável é ela.



Que sorte a minha! Que sorte a dos meus amigos. Eles têm mulheres gigantes ao lado. Eu ganhei três amigas caras. A sorte não é pra todo mundo, talvez seja só pra mim, já dizia outra canção. 




Nos tempos do Duque

Michelle Paulista,



Minhas primeiras experiências escolares de verdade aconteceram na Escola Estadual Duque de Caxias. Antes, eu frequentei aleatoriamente um corredor improvisado como sala de aula no grupo escolar da Ilha de Santana; muito mais porque Mainha trabalhava lá (era num quartinho improvisado na escola que funcionava o “posto de saúde” da comunidade, à época, e eu ficava no meio dos alunos enquanto minha mãe dava expediente).

Mas escola, escola mesmo, a primeira foi o Duque, como até hoje é chamada a querida escola, que até ameaçada de fechamento já foi. Lembro que minha mãe relatava com orgulho e olhar distante e saudoso, num passado mais passado que o meu, um quase pretérito mais que perfeito, como era a estrutura do prédio. Contava também do uniforme, das regras...

Eu já alcancei a arquitetura que resiste ainda hoje. O recorte espacial onde está o Duque é, para mim, um dos mais belos espaços geográficos de Macau: na fronteira das ruas Augusto Severo com Barão do Rio Branco, em frente à “Miscelânea Vásquez”, pertinho de Chico do chinelo, tendo como retaguarda a rua da maré e vizinho ao Banco do Brasil.

Seu Manezinho, proprietário da “Miscelânea”, hoje esposo de minha tia, foi muitas vezes visitado por mim, ávida de canetinhas coloridas pelikan, borrachas cheirosas e outras coisinhas de menina de primário, como era denominado o hoje Ensino Fundamental I. Sim, eu estudei no Duque.  Lembro-me da primeira vez que uma colega me convidou a explorar o corredor – gigante para o meu tamanho – que havia por trás das salas. Qualquer novo território era matéria do meu interesse! Eu me lembro de D. Zulmira e da sopa de feijão servida na hora do recreio; lembro-me de duas colegas de sala: Maria Simão e Ane Késsia, essa última filha de S. Sebastião dos Correios, figura boníssima que viveu em Macau e de quem minha mãe adquiriu uma cozinha de segunda mão.

Lembro-me, de igual modo,  das tias Mônica, Denise, Navegante, Socorro. Os rostos e nomes dos colegas aparecem enevoados na memória, porque as fotografias das paisagens são imperativas, sobressaem-se ante às demais, subjugam rostos e abafam vozes. Contudo, são impotentes em aplacar lembranças afetivas. Cá estão elas, agarradas no barril das emoções.

Ao fim das aulas, fins de tarde, dois programas eram altamente excitantes para os nossos corações infantis e incautos: correr para a maré, molhar os pés perto da rampa, olhando para o fundo, lá para a boca da “camboa”, por certo corruptela de “gamboa”, que desconhecíamos.  O outro era explorar o antigo prédio da Rua Martins Ferreira, quase chegando à Praça da Conceição, o qual julgávamos “mal-assombrado” e escondia uma caveira pendurada no andar de cima... aproveitávamos uma brecha no portão e apostávamos quem subia mais degraus, invadindo mesmo a propriedade... depois íamos para casa, satisfeitos, sorridentes, suados, extasiados...

Foi nessa época, o tempo do Duque, que conheci o picolé Chicabon, pequeno mimo que me ofertava vez por outra o amigo Sandro Moretti, lá nas bandas do Alfredão.  Mas nada era tão imenso, tão amplo, quanto a avenida, o beco que havia por trás das salas do Duque.  Como era bom correr e correr, circundando salas e beco, salas e beco, depois frente e pátio; mais tarde, maré, prédio assombrado, caveira...

Confesso que há anos não entro no Duque: tenho medo de descobrir que o imenso corredor é, na verdade, um bequinho, e não mais aquela alameda onde eu derramava meus sonhos de menina meio menino – cabelos assanhados, respostas prontas e olhos curiosos, brincadeiras masculinas –  descreviam-me assim...  sempre guache!

O Duque me lembra a maré; a maré me lembra o mar; o mar me reporta a Gilberto:

“Esta é a noite em que mais me acresço

em  ternura, alumbramento e sossegos,

eis que colho das levadas a solidão

das águas e os cantos do meu mar antigo.”

(Gilberto Avelino)



De volta... ou sobre uma metáfora infeliz

Michelle Paulista,



Li, num misto de repulsa e sentimento de injustiça, as declarações de um certo ministro acerca dos servidores públicos, fazendo uso de uma metáfora infeliz, aludindo ao fenômeno do parasitismo. Com sinceridade, procurei, na hora, listar os inúmeros privilégios que acumulo como servidora pública: levar ventilador para a sala de aula pra não morrer de calor; ganhar como graduada em um dos vínculos mesmo tendo outros títulos; contribuir para a compra da água, do café e do açúcar; engolir aumento de salário de juízes e procuradores enquanto escuto a choradeira dos governos, anualmente, quando da correção do piso salarial etc. São tantos privilégios! Socorro... eu e meus demais colegas levaremos à falência esta já tão combalida pátria aRmada!
Nesse sentido, chega a ser patético o  despeito  de algumas pessoas para com os servidores públicos, pelo simples fato de não conseguirem aprovação em concursos ou por outros motivos menos nobres. Já entro direto, falhando, ao não explicar que tal constatação veio da observação das redes sociais, nas últimas horas.
Conheço muitos que defendem o estado mínimo neoliberal (cujo conceito adquiriu no Whatsapp e YouTube,  lógico) sem sequer saber, de fato, o que significa.  É fato e clichê que, em todos os segmentos do mundo da vida, há bons e maus profissionais. Entretanto,  é o servidor público quem, via de regra, carrega os serviços essenciais à população nesse país. Claro que com isso não intento desmerecer as demais categorias profissionais da iniciativa privada, mas esse é um papo pra outro copo d'água/café. 
Tenho grande satisfação e orgulho em ser servidora pública,  empregada do povo (como exemplarmente me ensina o amigo Sandro Pimentel), vinculada ao Estado do Rio Grande do Norte e à Prefeitura Municipal de Natal. Aprovada em 4 concursos, a lei só me permitiu assumir dois desses. Sou graduada e pós-graduada  pela UFRN, tendo como professores servidores públicos,  muitos deles referência pra mim nos quesitos moralidade,  competência,  dedicação e tantos mais.  Quem me conhece de perto sabe do zelo que tenho pela minha profissão e a forma como lido com meus alunos e professores, dos quais tenho privilégio de ser formadora.  Esses, os que realmente me conhecem, sabem também que guardo comigo tais informações sobre aprovações em concursos e conquistas acadêmicas e não ando a exibi-las como adornos. Contudo, quando vejo um ministro "reeira" (viva a Sociolinguística!) que faz parte do governo de um imprestável da estirpe do Sr. Jair (complete aqui com alguma alcunha bem pejorativa), chamando-me de parasita, logo passo a exibir os trunfos que conquistei a duras penas,  não obstante minha condição de mulher negra, mãe solo,  nascida em família nada abastada. Nessa horas, ostento mesmo, esfrego nas fuças dos escrotos parte (bem pequena, ressalte-se) das minhas conquistas profissionais e acadêmicas. 
Caso soe como pedantismo ou soberba,  culpem uma possível TPM.  Não estou nesse período do ciclo, mas talvez alivie o coração daqueles que só dispõem de argumentos dessa altura para xingar uma mulher progressista. Em tempos de tanto obscurantismo e retrocesso,  ouvir que estou na TPM, a cada brado de indignação que dou, já virou elogio. Afinal, a TPM é feminina,  assim como o é o gênero da palavra VIDA,  essa coisa-tudo que pulsa em nós. 
Sim, agora escrevo em revide às inúmeras postagens que li após a fala do ministro, num episódio coletivo de baba escorrida em pontas de dedos, num quase "orgasmo-catártico", vingancinha mesquinha sobre coleguinha que-passa-em-concurso-enquanto-eu-não.
Sim também para quem agora imagina que escrevo sob considerável indignação.
Colegas professores e todas os demais servidores públicos, vamos, atendamos ao convite de Drummond,  de mãos dadas, corações enlaçados e sonhemos. Sonhemos muito e insistentemente, pois sonhar é acordar-se para dentro, como nos ensinou Mário Quintana. Quanto aos demais, vão pra o Chile, pois eu, tão logo possa, para Havana irei.


Programação do Mulherio das Letras 2019, em Natal

Michelle Paulista,



PROGRAMAÇÃO GERAL

MULHERIO DAS LETRAS - III ENCONTRO NACIONAL

1, 2 e 3 De Novembro de 2019 –

CIDADE DA CRIANÇA – NATAL/RN

DIA: 01/11/2019 - SEXTA-FEIRA

●08h: CREDENCIAMENTO

●08h30 às 9h30: SESSÃO SOLENE DE ABERTURA - 9h30 às 10h00

MESA DE AUTORIDADES PARCERIAS E APOIADORES:

 GOVERNO DO ESTADO DO RN – Governadora Fátima Bezerra

SECRETÁRIO EDUCAÇÃO DO ESTADO DO RN – Cultura: Getúlio Marques Ferreira - Secretária- adjunta:  Márcia Gurgel Ribeiro.

FUNDAÇÃO JOSÉ AUGUSTO – Diretor Geral: Joaquim Crispiano Neto

SEBRAE - João Hélio Cavalcanti

SECRETARIA DE TURISMO - Ana Maria da Costa  

Secretaria de Mulheres, Cidadania e Direitos Humanos - Arméli Brennand

ABIH : Gabriela Duarte

Mandato Municipal: Vereadora Divaneide Basílio

Mandato Federal: Natália Bonavides

Mandato Municipal de Parnamirim: Ana Michele

MEDIADORA: COORDENADORA- GERAL DO ENCONTRO: Rejane de Souza

9h30 ●APRESENTAÇÃO CULTURAL: Vídeo documentário sobre Nísia Floresta baseado no roteiro de um filme. João Maria Gonçalves

LOCAL: Biblioteca da Cidade da Criança

10h às 10h30 – Trilhas e veredas do Mulherio das Letras: avanços e desafios – Escritora Maria Valéria Rezende

10h30 às 11h30: MESA DE DIÁLOGOS: TEMA: NÍSIA FLORESTA: Uma mulher de múltiplas faces de resistência

PALESTRANTES: Constância Lima Duarte – Regina Simon (UFRN) – Rute Pinheiro – Laura Sanchez - Diva Cunha. MEDIADORA – Rizolete Fernandes

 11h30: CONVERSAS SOBRE ZILA: Maria José Mamede Galvão - Marise Adriana Mamede Galvão

●11h30 às 12h: ALMOÇO LIVRE – Haverá serviço de almoço no próprio local  para os participantes a preço mais acessível

MOSTRAS E EXPOSIÇÕES PARALELAS DURANTE TODOS OS DIAS DO ENCONTRO:

1.Mostra da vida e obra de Nísia Floresta

3. “Toque de poesia” – produtora cultural: Carla Alves

4. Grupo Viva – Exposição fotográfica de Mulheres que tiveram Câncer de Mama

5. Imagística - encadernação artesanal - Dani Rabelo

6. Feirinhas de artesanato e exposições de livros

●12h -ALMOÇO LIVRE - Haverá serviço de almoço no próprio local  para os participantes a preço mais acessível.

14h00 –● APRESENTAÇÃO CULTURAL:

PERFOMANCE POÉTICA: Cacau Nascimento

14h30- “EXPOSIÇÃO DE ARTE “Mulherio das Letras”: Maria Valéria Rezende - Suzana Ventura - Conceição Evaristo - Nísia Floresta”. Artista e Escritora Lionízia Goyá – Estado de Goiás.

ESPAÇO LIVRE: Intervenções  dos Coletivos do Mulherio Nacional

15h às 17h - PROGRAMAÇÃO PARALELA – ESPAÇO PARA CRIANÇAS

A LITERATURA INFANTIL EM FOCO: rodas de conversas entre escritoras e performances dos livros de literatura infanto-juvenil.

(MEDIAÇÃO: Patrícia Vasconcellos/PE, Kátia Gilabarte/PE, Salizete Freire/RN, Eliete Marry, Eva Potiguar e outras contadoras de histórias.

RODA DE CONVERSA com contadoras de histórias sob a coordenação da Profª. da UnB Ângela Café. MEDIADORA: Lucila do Carmo Garcez – DF  e demais de outros Estados do Brasil).

Participação do Projeto RIO DE LEITURA – Organização: Angélica Vitalino e Gilvania Machado

LOCAL: Biblioteca da Cidade da Criança

Recitais e Cirandas e intervenções poéticas dos Coletivos.

NOITE LIVRE

PROGRAMAÇÃO GERAL MULHERIO DAS LETRAS - III ENCONTRO NACIONAL - Cidade da Criança – NATAL/RN

DIA: 02/11/2019 – SÁBADO

8h às 09h00: ● APRESENTAÇÃO CULTURAL:

Apresentação do Mulherio das Letras do Ceará – Mediação Patrícia Cacau

LOCAL: Biblioteca da Cidade da Criança

●9h às 10h:

MESA DE DIÁLOGOS: “PRECISAMOS FALAR SOBRE FEMINICÍDIO” no contexto da obra Garotas Mortas, de Selva Almada.

PALESTRANTES:

Promotoras de Justiça Dra: Danielle Fernandes e Dra: Emília Zumba – Drª Luciana Assunção – Drª Mariana de Sigueira – Prof. Esp. Megg Thurner

Mediadora: MSc Nouraide Fernandes Rocha de Queiroz – Coordenadora do Projeto LITERATURA E DIREITO

●10h às 12h: RODAS DE DIÁLOGOS SIMULTÂNEOS COM  TEMÁTICAS PRÓPRIAS .

 LOCAL: TENDAS  TEMÀTICAS

● “Literatura, negritudes e intelectualidade: saberes transgressores”. MEDIADORA: Kapitu Nascimento/ RJ

●Poesia Marginal e Slams e o Protagonismo das Minorias – MEDIADORA: Jeovânia Pinheiro

● “Os Coletivos de Mulheres e suas formas de resistir” – MEDIADORAS: Flauzineide Moura – Presidente da ALAMP - Maíra Dal'maz – LEIA MULHERES/Natal.

● “As resistentes mulheres indígenas”. MEDIADORA - Tânia Lima (UFRN)

12h ●ALMOÇO LIVRE : Haverá serviço de almoço no próprio local  para os participantes a preço mais acessível.

13h30 às 14h30●: APRESENTAÇÃO CULTURAL

PEÇA TEATRAL: Ventre de Ostra – Atriz Luana Vencerlau – Empoderamento - Visibilidade da Mulher no cenário da Dramaturgia - Produção e Autoria: Junior Dalberto. Mediação: Carla Alves

14h40 às 15h30 – LANÇAMENTOS DE LIVROS E COLETÂNEAS

3ª Coletânea de Poesias e Prosas: Sou Mulher, Logo Existo!

Amor, Liberdade, Luta e Resistência – Organizadora: Vanessa Ratton – SP – III Encontro Nacional do Mulherio das Letras no RN. SELO: Mulherio das Letras.

LIVRO: Emancipação Politica da Mulher Potiguar de Maria Bezerra – Selo: Amigos da Pinacoteca

COLETÂNEA POETRIX – Editora Aila Mag – CE

NOVELA: Cercas de Pedra - Escritora Jeanne Araújo/ RN

O LIVRO DAS MARIASOrganizadora: escritora Jeovania Pinheiro – PB

BIOGRAFIAMARIA QUEIROZ BAÍA - exemplo de superação e de luta contra o preconceito. Escritora: Lúcia Eneida – Editora Offset

● “A mulher e o livro”- Escritora e Editora Ester Alcântara (BA) – Editora Carpe Librum ●Livro de Contos – “Tempo de liberdade” –Escritora Maria Delboni – UFMG

14h às 15: ● APRESENTAÇÃO CULTURAL : Cirandas – Mediação Dorinha Timóteo

15h às 17h: OFICINAS – PARALELAS

 LOCAL: Salas fechadas - Cidade da Criança

Ø  Oficina Criativa – Civone Medeiros -RN

Ø  Poesia, Minimalismo e Poetrix– Escritora Aila Mag – CE

Ø  Todo mundo faz Teatro em sete minutos! - Escritora e editora Vanessa Ratton – SP

Ø  Fanzine Caleidoscópica – Escritora Gilvânia Machado -RN

Ø  Oficina: Festa da Palavra - organização: Patrícia Vasconcelos e Gabriela Vasconcelos – Recife - PE

Ø 

16h às 17h: LANÇAMENTO DA FOLHA POÉTICA DO MULHERIO – Curadoria Carla Alves

PROGRAMAÇÃO GERAL MULHERIO DAS LETRAS - III ENCONTRO NACIONAL - CIDADE DA CRIANÇA – NATAL/RN

DIA- 03/11/2019 - DOMINGO

●8h às 9h: Curta-metragem: 'INDECIFRÁVEIS – Produção audiovisual – Nathalie Alves

10h às 11h: APRESENTAÇÃO CULTURAL: Espaço das cordelistasMEDIADORA: Rosa Régis - Saraus

 LOCAL: Biblioteca da Cidade da Criança.

11 h às 12h: “LANÇAMENTOS DE LIVROS E COLETÃNEAS

LOCAL: AUDITÓRIO I

COLEÇÃO MULHERIO – trata-se de 17 livros de bolso individuais, sem temática específica. Karine Silva Oliveira (Karine Bassi) - Belo Horizonte/MG - Organizadora.

LIÇÕES DE MARIA: O livro faz referência às mulheres e ao seu acordar interior, ao seu despertar. Escritora Maria de Fátima de Araújo Telles – Fortaleza – CE

DO CASULO À BORBOLETA– “A Poesia da Resiliência e da Autoformação Humana; “Do Casulo à Borboleta” – Escritora e poeta  Eva Potiguar. Selo Literarte.

ENSAIOS SOBRE A OBRA DE MARIA TERESA HORTA: o sentido primeiro das coisas – Organização: Conceição Flores – Selo: Escribas

  SARAU DAS MINAS – Gessyka -  POETAS E CORDELISTAS

●11h30 às 12h30: RODAS DE DIÁLOGOS –

 LOCAL: TENDAS TEMÀTICAS

● “Poesia, Menopausa e Sororidade” – o desafio da maturidade –MEDIADORA: Maria Teresa Moreira

●A cultura do vídeo e novas formas de divulgação da escrita de mulheres – MEDIADORA: Valesca Asfora-  Moenda – Arte e  Cultura - PB

● A literatura potiguar feminina: vozes de resistência – MEDIADORA – Eliete Marry- RN

●Mercado editorial/cultural e cadeia produtiva independente da produção literária feminina: avanços e desafios: MEDIADORA: Anna Karine – Selo Editorial ALIÁS – Fortaleza - Ceará

12h30 às 14h – ALMOÇO : Haverá serviço de almoço no próprio local  para os participantes a preço mais acessível.

14h30 às 15h40: Avaliação do encontro e indicativo da plenária sobre o IV Encontro Nacional do Mulherio das Letras.

16h00●APRESENTAÇÃO CULTURAL: Cantoras Maira Soares e Rosa de Pedra:

LOCAL: Concha Acústica

EQUIPE DE ARTICULAÇÃO NO RN

REJANE DE SOUZA –  Coordenadora do Mulherio Nísia Floresta/RN- E coordenadora geral do III Encontro Nacional do Mulherio das Letras/RN - Membro da ALAMP  E DO CONSELHO MUNICIPAL DO LIVRO E LEITURA DE NATAL.

ANA MOURA – Membro da ALAMP

CANDICE AZEVEDO – IFRN – Unidade de São Gonçalo do Amarante/RN.

LÚCIA ENEIDA – Membro da ALAMP

JUCILEIDE SANTANA – SEEC/RN – Mulherio das Letras

GILVANIA MACHADO – Poetrix – Mulherio das Letras

ELIETE MARRY – ALAMP – Mulherio das Letras

MAÍRA DAL'MAZ – Leia Mulheres Natal

NOURAIDE FERNANDES QUEIRÓS – Assessora Técnica de Editoração do Ministério  Público do Estado do Rio Grande do Norte (MPRN)

Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN)

CARLA ALVES – Quinta das Artes – Mulherio das Letras RN

NEIRIANE RODRIGUES – Prefeitura de Natal - Membro da ALAMP

CLAUDETE ROSENO – Diretora de Mulher da Petrobras – Mulherio das Letras

LÚCIA MARTINS – Secretária Municipal de Educação de São José de Mipibu- ALAMP

LOGOMARCA DO MULHERIO: Designer gráfico – Tássio Cruz

COMUNICAÇÃO NO RN DO III ENCONTRO DO MULHERIO DAS LETRAS NO RN.

Assessoria de Imprensa da Fundação José Augusto – Jornalista Sheyla Azevedo.

MÍDIA NACIONAL

Divulga Escritor: Revista Literária da Lusofonia- Jornalista - Jornalista Shirley M. Cavalcante. Edição Especial do Mulherio das Letras.

Myrian Naves – PUC – Minas Gerais

Revista Virtual InComunidades

Revista Pé de Moleque – José Pedro Soares Martins – Jornalista e Consultor – Campinas/SP

PARCERIAS E APOIOS

GOVERNO DO ESTADO DO RN

SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DO RN.

FUNDAÇÃO JOSÉ AUGUSTO –

SEBRAE -

SECRETARIA ESTADUAL DE TURISMO -

Associação Brasileira de Indústria e Hotéis

Mandato Municipal: Vereadora Divaneide Basílio

Mandato Federal: Natália Bonavides

Mandato Municipal de Parnamirim: Ana Michele

IFRN – São Gonçalo

Jipe Turismo RN

Naturete

Sorveteria Chapinha

Sam’s Club

Pink Mellon

Comida de Verdade

Vale do Pará

SICOOB

Terezinha & Serviços Gastronômicos

Estampa – Tássío Cruz

REDE HOTELEIRA

ARAM Hotéis

Sol Praia Marina Hotel

Ocean Palace

Vila Park Hotel

Vila Feliz

Jipe Turismo RN



De amizade e sonhos

Michelle Paulista,


Todos os lugares-comuns que versam sobre amizade apontam que as verdadeiras resistem ao tempo – este imperador das vidas – e aos afastamentos comuns de cada vida que segue.

Pois tem sido assim minha jornada de amizade com Marquinho – ou Marcos Oliveira, querido e competente advogado que tem sal no sangue e no coração. Um relacionamento-amizade com muitos episódios, alegrias, presentes, desencontros, pausas, hiatos impostos pelas demandas de cada um de nós, sem, contudo, haver um ponto final. Escrevendo agora, lembro-me do CD “Malásia”, capa vermelha, perfumado por dentro, mimo de Marcos quando eu era morta de fã de Djavan. Eu me lembro do cheiro que exalava de dentro da capa até hoje.

Marcos é daquelas pessoas de quem me lembro quando ouço a contundente “A lista”, de Oswaldo Montenegro. Lembro-me dele também ao ouvir “Corazón partío”, de Alejandro Sanz.

Dia desses, Marcos realizou um sonho do meu filho- seu quase xará Daniel Vinícius. Sonho aqui no sentido de coisa almejada. O presente da amizade alcançou meu pequeno, fazendo-lhe um afago e imprimindo um sorriso em seu rosto.

Mas quero falar de outro tipo de sonho – aquele devaneio onírico que nos salva noites adentro e se instala nos momentos de recall dos nossos corpos exaustos, atropelados pelo rodo cotidiano. Acho que o sonho é um texto literário que chega para que tenhamos nossa dose de humanidade a que temos direito e de que precisamos, como disse Antônio Cândido. Todo sonho é, assim, um texto literário, uma ficção engendrada pela artimanha dos nossos pensamentos.

Assim, conto duas historinhas que viraram clássicos de família, uma delas derivada de um sonho.

Uma delas data dos meus primeiros anos de vida, não sei se na apertadinha casa da Rua Alecrim ou Princesa Isabel. Dormindo, eu gritava: cadê, cadê? Aos berros, fui interrompida pela voz adulta: cadê o quê, menina? Então a resposta: cadê o vestido da vitória de Zé Oliveira?

Eu realmente não me recordo dessa campanha eleitoral, mas ouvi esse relato infinitas vezes nas reuniões de família.

Outra astúcia teria sido numa passeata. Por um descuido de quem me vigiava, saí correndo rua afora, junto com Liviane,  coleguinha da época, filha do ex-prefeito Tatá. Dizem que nos encontraram ruas depois, em busca de um comício-passeata, com os chinelos enfiados nos dedinhos infantis; recurso utilizado para otimizar a corrida.

Soube dia desses por Marcos que s. Zé Oliveira está na casa dos 90, recém-recuperado de um período adoentado. Disse meu amigo que o pai vai com frequência ao Nordestão, num passeio diário. Eu não posso mais enfiar os chinelos entre os dedos. Mas posso comprar um vestido para ver mais uma vitória de s. Zé: a de estar vivo e ser pai de uma das pessoas mais especiais, meu amigo, companheiro de lutas e sonhos por um mundo mais justo, querido da minha vida, Marcos Oliveira.



Na esquina da infância

Michelle Paulista,


Recebi, com tristeza, a notícia do fechamento da Casa Cabral, esquina da praça da Bíblia. Poderia parecer uma notícia de cunho econômico – encerramento das atividades de uma empresa. Mas, pra mim, é mais que isso.

Morei na esquina da Princesa Isabel durante toda a minha infância e início da adolescência, em Macau.  À noite, a calçadinha (como eu carinhosamente chamava o batente da loja) era meu point, junto com a prima Aleuda, enquanto ríamos e falávamos sobre os mais diversos assuntos.

Eu vivia na Casa Cabral. Quando não estava na escola, lá estava. Era lá de onde eu usei um telefone pela primeira vez, luxo a que eu tinha acesso, devido à liberdade que sempre me fora dada.

A loja, sempre cheia de amigos de Marcos, era um verdadeiro laboratório de ciências sociais. Por lá, transitavam bêbados, “loucos” e muitos outros tipos humanos. Lembro-me de Ivan, que vivia a cantar “Se eu pudesse conversar com Deus”. Posso garantir que, se fechados os olhos, posso ouvir nitidamente JIC (como era chamado), um homem ébrio a cantar.

Lembro, de igual modo, de personagens pitorescos: Elizier e seus trejeitos;  de um senhor que andava numa carroça e ficava indignado se dissessem que um tal forno iria cair; de Gil com seu impagável “vou me escorar por aqui”; de Francisco das paquitas e sua lendária viagem a pé pra Guamaré.

Eu sempre observei que Marcos Cabral tinha um faro especial pra contratar bons funcionários; dos que eu lembro: Jailson (Pitu), Berguinho (admirado pelas moças da região, tocava baixo no carnaval), Marcelo e Aldair. Este último, vascaíno, que vivia a cantarolar Bezerra da Silva, foi quem primeiro me despertou o interesse pelas pautas da esquerda. A ele, devo minha verve progressista, ainda nos primórdios do Partido dos trabalhadores no nordeste, enquanto Marcos expressava sua admiração por Leonel Brizola.

Alguns nomes me vêm agora à mente... Ausimário (não sei a grafia), João Maria (de quem furei a orelha, certa vez), Deusimar, Aurino e o querido Aldo, o entregador de mercadorias, figura de quem só tenho boas lembranças, não fosse a promessa não cumprida de me ensinar a andar de bicicleta.

As pessoas falavam mal de mim. Eu vivia numa loja cheia de homens. Eu era uma menina-adolescente no meio deles. Contudo, longe de me justificar, a gente só falava basicamente de futebol. Nada mais que isso. Os assuntos e risadas nunca alcançavam o que imaginavam as mentes mais conservadoras e maliciosas. Foi assim que comecei a ouvir a Rádio Globo, o Panorama esportivo à noite, num radinho a pilha, a apreciar o narrador José Carlos Araújo (o garotinho), Gilson Ricardo, Luís Mendes, Sérgio Noronha, Rui Fernando, Edson Mauro. Sou capaz de distinguir cada uma dessas vozes ainda hoje. Presenciei muitas reuniões do Santos F.C., time amador, cuja sede era a Casa Cabral. O cúmulo da felicidade foi testemunhar a conquista do Campeonato Brasileiro de 1992, pelo Flamengo, capitaneado por Júnior e com nomes como Nélio, Jr. Baiano, Gilmar; Charles Guerreiro, Gottardo, Rogério, Piá,, Uidemar, Marquinhos, Zinho, Paulo Nunes, Nélio e Gaúcho, Fabinho, Gélson Baresi,  Marcelinho Carioca, Djalminha, Júlio César. Não “pesquisei” no Google esses nomes; estão na minha memória afetiva.

Era um tempo bom, inocente. Nunca fui assediada, abusada, em qualquer aspecto. Antes, pelo contrário, sempre fui tratada com muito afeto e delicadezas. Havia amor no ar, em sua melhor acepção. Amor fraterno, risadas, levezas.

Marcos, sempre anuente, certa feita, permitiu que eu levasse uma cadeira de rodinhas pra que ficasse brincando em casa. Dispôs-se a me levar pra um jogo do Flamengo, coisa que Mainha não permitiu.

São inúmeras histórias, todas coloridas e perfumadas, como tudo que é bom na vida. Embora tenha morado muito tempo longe da Casa Cabral, só agora, com seu fechamento, me sinto apartada dela. Foi uma janela no tempo das minhas reminiscências que o vento acaba de bater e fechar violentamente.




I FLIVA - Festival literário da Escola Francisco Varela

Michelle Paulista,


Na última sexta, 13, tive a oportunidade de visitar o I FLIVA- Festival literário da Escola Francisco Varela, no bairro Guarapes. O festival foi a culminância de trabalhos realizados a partir do livro “O beijo da palavrinha" de Mia Couto, escritor moçambicano. Outras temáticas também foram abordadas, variando de acordo com as séries, distribuídas conforme cada ano de ensino. Dentre as atividades, destacaram-se:

Com produção de lapbook, produção oral, resultado de pesquisas sobre o reggae (origens, rastafári, músicas) - cultura negra; análise do poema Navio Negreiro de Castro Alves, culminando em um vídeo e uma peça teatral, algumas fábulas foram produzidas pelos próprios alunos.

Uma das atividades mais bacanas foi a produção de um cordel, contando a história do bairro. O texto foi produzido em conjunto com alunos e a professora.

Houve ainda exposição de fotos e poemas de produção dos alunos com o grande tema “O bairro Guarapes e as pessoas que o habitam” (dentro do tema DIVERSIDADE E RESPEITO) que abordavam a temática da vida e valorização do bairro periférico e respeito ao próximo.  Além disso, prestigiamos a produção e exposição dos cartazes com números do preconceito, que demonstravam pesquisas realizadas por vários órgãos do país sobre a participação de minorias em nossa sociedade e os problemas enfrentados por tais grupos (violência contra a mulher, acesso dos negros às universidades, taxa de homicídio dos jovens periféricos, desrespeito às religiões de matriz africana), possibilitando uma explanação sobre a realidade que muitos dos alunos enfrentam, porém desconheciam.

O festival contou ainda com as presenças dos cordelistas Chico de Iaiá e Gelson Pessoa e do grupo de alunos da UFRN, encenando a peça “Caminhando Severino”  e outros caracterizados (cosplay). Foi um trabalho integrando várias áreas de conhecimento.

Fiquei muito impressionada com o comprometimento dos professores, equipe pedagógica e alunos. Dava pra ver o brilho nos olhos de todos os participantes.

Parabenizo toda a equipe de professores, gestores, apoio e estudantes pelo belíssimo trabalho realizado.

Janaína Tavares - Diretora Pedagógica

Kelen Dantas - Diretora Administrativa

Língua Portuguesa - Elisabeth Silva /Vaneíse Fernandes / Jacqueline Andrade /Marcela Ribeiro

História - Felipe Tavares

Geografia - Gênison Medeiros

Ciências -Jairo Wandson

Inglês - Pedro Lobo

Ensino da Arte -Vera Anjos

Ensino Religioso - Fátima Araújo

Educação Física - brincadeiras africanas - Jairo Souza

Getúlio Lopes (professor convidado)



Sobre a melhor companhia, a de si mesmo

Michelle Paulista,



Embora haja uma demonização quase unânime das redes sociais, é certo que existem páginas de conteúdo deveras interessante. Isso à parte, é sempre importante reafirmar o aspecto nocivo que a pseudofelicidade exibida na web causa, gerando desconforto em mentes e corações desacautelados. Tais exibições de fartos sorrisos alvejam autoestimas já cambaleantes e delirantes com a experiência alucinante advinda da realidade, como cantou Belchior. Inúmeros estudos apontam que esses desencontros e ruídos têm sido gatilho para estados depressivos e outras patologias do mundo pós-moderno, cada vez mais liquefeito.

Entretanto, escolho falar por um viés positivo. Refiro-me aos conteúdos de alguns perfis, especificamente da rede Instagram. Vejo páginas sobre feminismo, empoderamento feminino; outras sobre ansiedade, depressão, fibromialgia e outras temáticas pouco aprazíveis.

Passando longe da autoajuda, são posts de encorajamento, reconhecimento de fraquezas, imperfeições e outras inadaptações a padrões pré-estabelecidos. Quem os lê, consegue sentir conforto na empatia que se sobressai num mero flyer virtual.

Numa dessas postagens, num dia cinza, li sobre a importância de apreciar nossa própria companhia. Dei-me conta de que precisamos prementemente romper com a dependência da companhia alheia. Estar junto de outro é deveras bom; estar junto de si é indescritível. Foi assim que, movida pelo desejo de assistir a um filme infantil – certa nostalgia do tempo infante do meu filho – combinei com uma amiga uma ida ao cinema. Ante a declinação dela, decidi ir sozinha, acompanhada de mim.

Foi fácil. Estacionamento, guichê, ingresso, pipoca, água.  Poltrona, corpo espichado, sala vazia, lugares a escolher. Sem bagagens, sem horários, sem roteiro, a não ser o do filme.

Não sei se já sabiam, mas é perfeitamente possível assistir a um filme desacompanhada de outrem; a imagem na tela, suas cores e emoções prescindem de outras companhias: é você e você! Afirmo que não doeu. Foi prazeroso, libertador. Fui minha melhor companhia. Ao final, saí normalmente, peguei a estrada, sintonizei o rádio na minha estação preferida e curti o momento como um deleite de um banho tépido, assim como Luísa, ao receber o bilhete do primo Basílio.

Dizem que ir sozinha ao cinema é um dos primeiros passos da emancipação das amarras patriarcais. Se é assim, quero me desprender de vez, refestelando-me no mar, um dos meus amores de vida. A dificuldade é tão somente logística: não há quem “pastoreie” meus pertences.

Sozinha entrarei no mar, salgarei o corpo e adoçarei o instante. A logística, logo resolverei.



Caravana de escritores desembarca na escola Régulo Tinoco

Michelle Paulista,


A última quinta-feira, 8 de agosto, foi diferente na Escola Estadual Régulo Tinoco. Situada em Lagoa Nova, a escola passou recentemente por uma reforma na estrutura física e conta com um excelente corpo docente, oferecendo vagas para o Ensino Fundamental (anos finais) e Ensino Médio.

A Caravana de escritores potiguares, capitaneada por Thiago Gonzaga, visitou a escola, numa palestra para as turmas de Ensino Médio. Na oportunidade, os estudantes puderam ouvir os depoimentos dos autores presentes, bem como receber brindes e livros, todos de autores potiguares.  Estiveram presentes o ficcionista e membro da Academia norte-rio-grandense de Letras, Manoel Onofre Jr, o jornalista e poeta Sávio Hackradt, professores Valdenides Cabral e João Batista Neto.

A Caravana cumpre papel fundamental na formação leitora dos estudantes de escolas públicas, pois favorece o estreitamento da relação aluno-escritor, além de oportunizar aos estudantes a interação com autores potiguares contemporâneos.






O expressionimo abstrato de Alfredo Neves - Por Thiago Gonzaga

Michelle Paulista,



O dramaturgo e jornalista gaúcho Pedro Augusto Gomes Cardim, que fundou, em 1925, a Academia de Belas Artes de São Paulo, disse certa vez, referindo-se à liberdade do artista parar voar livre em seu oficio: “há quem julgue as obras de arte produtos sem regras nem preceitos, sob o domínio do imprevisto, sem princípios, manifestados arbitrariamente, consoante a força criadora do gênio que as produz”.

Vivemos em um mundo rodeado de imagens, muitas destas são obras de artistas plásticos, ou seja, objetos artísticos. O artista plástico e escritor pernambucano Francisco Brennand disse, certa vez, em uma entrevista, que “a arte representa valores do espírito”.  Em nosso entendimento esse importante artista brasileiro quis dizer, entre outras coisas, que o conhecimento sobre arte amplia a nossa visão do mundo, além de melhorar a nossa capacidade de reflexão e expressão. Acreditamos que a escola deve aproximar dos seus alunos as artes plásticas, mostrando-lhes a variedade de pinturas e artistas, e os ajudando a fazer uma reflexão sobre os mesmos, ampliando assim o leque de imagens a serem apreciadas

 Mas, afinal o que seria Arte?

Evidentemente é quase impossível encontrar uma definição exata para o que seja a Arte, achamos até que seria muito mais fácil definir algo que não seja arte como o que temos visto aos montes por ai, sobretudo em tempos de redes sociais. Sabemos que a arte, por exemplo, não pode ser confundida com a moral, com a religião, com a ciência, nem pode também ser reduzida simplesmente a uma ideologia. Arte também não tem nenhuma obrigação de refletir o real ou a verdade. Acreditamos que tentar definir o que é arte é também empobrecê-la, limitar algo tão belo. Assim, entendemos que a missão do artista é simplesmente criar, seja o belo, o feio, e sobretudo não querer fazer propaganda do que quer que seja.

Enfocamos o assunto após presenciarmos a exposição de pinturas abstratas de Alfredo Neves,poeta e artista plástico e cientista social, graduado pela UFRN. Alfredo ocupa a Cadeira 2 da AMLA -  Academia Macauense de Letras e Artes. Em parceria com o poeta e artista plástico João Andrade, participou de Exposição Coletiva na Pinacoteca do Estado do RN. Participou ainda da Feira de Arte Potiguar - FEIRART, exposição e palestra sobre Arte Contemporânea no Setor Jurídico da Caixa Econômica Federal do RN e teve duas de suas telas selecionadas para o III Salão Dorian Gray de Arte Potiguar. Além desses, seus trabalhos já estiveram presentes na antiga Livraria Nobel, exposição Cores de Orvalho, em 2016. Alfredo, embora esteja no início da sua carreira como artista plástico, já milita há mais de trinta anos pela cultura, sobretudo na cidade de Macau.

Em 2013, nos concedeu entrevista para o livro “Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos, Vol. 1”, onde anunciou de que iria se dedicar as artes plásticas, e no futuro a publicação de um romance, que trata de uma Macau imaginária. Além disso dedica-se também à publicação de uma revista cultural bimensal, com nome de Kukuaia, e que circula na internet há exatos cincos anos.

 Os quadros de Alfredo Neves, em boa parte, nos remetem diretamente ao pintor norte-americano Jackson Pollock, referência no movimento do expressionismo abstrato. Não retratam objetos físicos específicos. Eles são mais difíceis de analisar que os quadros figurativos, por exemplo.  A interpretação fica por conta do leitor do quadro, ou seja, meramente subjetiva. Alfredo Neves pinta, desta maneira como uma forma de evocar emoções do inconsciente. Diferente das pessoas comuns é a posição do artista: ao criar suas obras e por mais estranhas que possam parecer, estará normalmente debatendo questões intrínsecas de metalinguagem.  Por isso o sentido da pintura, que Alfredo Neves tem em mente, é de outra ordem, um sentido ótico, relativo à própria natureza desse objeto, independente, senão da consciência inserida num contexto humano mais abrangente, pelo menos das formas reconhecidas da nossa realidade.

No Rio Grande do Norte temos alguns exemplos de artistas plásticos que também são poetas: Newton Navarro, Dorian Gray Caldas, Leopoldo Nelson, J. Medeiros, Carlos Humberto Dantas, Anchieta Rolim, João Andrade, Iaperi Araújo, Vicente Vitoriano, inclusive esses dois últimos também são críticos de arte.  Merecem destaque igualmente como artistas visuais, os poetas Falves Silva, que compõe a sua obra a partir de um processo de colagem, e Avelino de Araújo, que trabalha também o jogo de palavras e imagens e aqueles que seguem na mesma linha do impressionismo abstrato como Carlos Soares.

Encontramos nos quadros desses artistas características interessantes como na própria composição, ou seja, na organização das imagens, seguindo, algumas vezes, esquemas geométricos, em outras, não; o movimento interno característico da composição dinâmica (às vezes estática); o desenho, nesse caso, as linhas marcantes.  Nos quadros se concentram cores frias e quentes, por vezes fundamentais, outras, complementares. A própria natureza da cor também é peça- chave. A luz uniforme e o seu efeito junto com a dinâmicas das formas visuais; a técnica da pintura pontilhada, linear, modelada e por fim o material de trabalho que varia entre óleo, acrílico, colagem, misto, guache, aquarela, pastel de óleo ou seco.

Evidentemente, sempre vamos ouvir das pessoas que não entendem de arte abstrata que esta não é compreensível, explicável. Mas precisamos ter a consciência do seu sentido, que é de fundamental importância para desfazer equívocos de análise e de opinião. Na cultura ocidental, por exemplo, na pré-história vamos encontrar vários registros de prevalência das formas abstratas, muito mais comuns do que na arte oriental.

Concluímos nossa reflexão lembrando que, depois dos impressionistas, as artes plásticas puderam se voltar para dentro de si e subsistir sem o auxílio de qualquer referência explicativa, e que assim continuaram a ser usufruídas por todos.

As telas de Alfredo Neves estão em exposição no Espaço Cultural da Justiça Federal com o título de “Imaginarium”, entre os dias 01 e 31 de julho de 2019, de segunda a sexta-feira, das 09 às 12h, trazendo ao público uma amostra da arte abstrata e contemporânea.


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