O melhor "emprego" do mundo - especial de domingo

Edmo Sinedino,
agrana_09Eu comprei essa cadeira por R$ 150 mil. Na época, apesar de já fazer parte dos esquemas, eu precisei de uma força de um compadre. Pense num investimento seguro. Mas comprar um emprego, um cargo por R$ 150 mil??? Devem me questionar vocês. Inocentes. Em seis meses esse meu investimento rendeu o inimaginável. Agora, pensem aí, tentem somar o quanto eu já não ganhei, mês a mês, em mais de uma década? Não chega a um Messi..., mas.

Claro, cheguei botando banca. Apresentando propostas, disposição de trabalhar, prometendo mundos e fundos - organização, transparência, legitimidade, seriedade e modernidade, vocês sabem né, prometer é a coisa mais fácil do mundo. Disse até, quando penso dá vontade de rir, que iria moralizar e acabar com a corrupção que imperou tantos anos.

Depois foi ter o cuidado de identificar os potenciais parceiros da imprensa (super importante), jogar a isca, muita conversa mole, me fingindo de amigo do peito deste, elogiando a qualidade daquele, inflando o ego do outro, no fim, todos vão cair como patinhos. Alguns por inocência, por acreditar, torcer para que dê certo, outros, ah!, os outros, esse vêm no interesse, "macacos velhos", que sabem das vantagens da "parceria".

Ao longo do tempo, claro, aqueles, os honestos, sonhadores, utópicos,  que acreditavam no meu projeto (projeto, dá vontade de rir de novo dos inocentes!!!) se desencantam. Se desligam mesmo e cobram, se tornam pedras no sapato. Esses me preocupam, me açoitam quase todos os dias, não nego, me fazem ficar furioso muitas e muitas vezes, chego a perder as estribeiras, esculhambo mesmo.

Faço eles saber e tenho a claque na minha sala todo santo dia para me aplaudir e dar risadas das minhas piadas sem graça e até bater palmas de minhas imitações chinfrins, além de se encarregar, eles, de atacar repetidamente meus desafetos. Essa maioria faz o que mando, rezam na minha cartilha e  falam bem da minha gestão todos os dias, basta uma ligação.

Sei, sei, sei, se tivesse uma eleição direta, se fosse o povo que escolhesse eu tava lascado, defenestrado do comando e correndo o risco de ser preso, bastava entrar um camarada arrochado e honesto que fizesse uma devassa nas contas, mas meu cargo, graças, é quase vitalício. Saio quando quiser, boto no meu lugar quem eu confiar e, não duvidem vou continuar mandando e mamando.

O que deu errado até hoje jogo a culpa nos outros - gestores passados, os públicos e gestores particulares que minha entidade comanda, e está tudo bem. Tenho muito mais tempo de mídia. Essa crítica do povão,  a opinião de quem não tem voto, pouco me interessa. Podem me esculhambar nas redes sociais, nem ligo, o importante é que todo mês minha conta está recheada. Pago uns "preguinhos", adoço a boca de minha turma e está tudo bem.

Sim, claro, meu cargo me dar força. Ainda arranco um dinheirinho de "viúvas" fingindo parceria de sucesso, se der errado, repito,  volto a colocar a culpa neles. Consigo parceiros da iniciativa privada, esses também não têm me aperreado pedindo comprovação de aplicação do "investimento", nem mesmo me chateiam quando cobram balancetes mês a mês, e quando irritam, me forçando a imitar os gestores que fazem o dever direitinho, publicando seus balancetes honestos todo mês, me reúno com uma turma boa, publico qualquer coisa, meus parceiros aprovam, minha rapaziada da mídia elogia e está tudo bem de novo.

Meu inimigos me incomodam, sim, reconheço. No entanto, o que eu puder fazer, com quem eu tiver acesso para falar, para tirar, afastar, diminuir o espaço, podem ter certeza, faço na maior, prejudico mesmo e sem pena. Dia desses expulsei um de minha festa, falava mal de mim e queria vir beber de meu uísque? Bebe não, botei pra fora. Foi triste, repercutiu mal, mas fiz e faço de novo. Não quero filho da puta nenhum tendo espaço para meter o pau no meu trabalho. Mas isso pouco se me dá.

Se muito, a turma do contra, da inveja tem esse que expulsei da festa e mais dois ou três. No mais,  calo um aqui, outro acolá, peço a benção a quem ainda pode acreditar na minha honestidade, sim, tem desses também, aí o cara bota uma nota, faz uma matéria eu encho ele de elogios onde vou, reproduzo o que ele disse e ganho mais uma sobrevida entre incautos.

Tá ficando insustentável? Reconheço, tá sim. Onde chego os caras me olham atravessado. Ando com medo de levar vaia em locais de aglomeração que, graças à pandemia, não está tendo.  Cada dia que passa fica mais difícil fingir, vestir a capa de honesto e trabalhador, preocupado com as coisas que são de responsabilidade de minha entidade.Admito, tenho que pensar na sucessão. O bom é que não vou ter que pagar nada, pois vou colocar um amigo, talvez ele até não se incomode se eu continuar a receber dos chefões maiores uma "laminha" por mês.

Aqui pra nós, muito pra nós, nessa altura penso somente é na perda das mordomias, das facilidades, viagens, mulheres, uísques de não sei quantos anos, hotéis de luxo, porque, graças a meu bom Deus deu para juntar um bom dinheirinho.Tudo garantido para o sustento de minhas futuras gerações, além de Aps reformados, carros, muitos, granjas, casas de praia, lanchas quase iates, enfim, uma vida de lorde, garanto a vocês, nem mesmo o "céu" do Senado Federal é melhor que esse meu emprego.

Lá, eles sofrem com o olhão da grande e poderosa mídia, aqui, já coloquei acima, poucos me incomodam, repito e reconheço, mas não tem comparação. Confesso encerrando, queria que esse meu emprego fosse para sempre. Infelizmente, tudo tem começo, meio e fim.



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