A história do encontro do mordomo Joquinha com Joãozinho, Xodó da Frasqueira

Edmo Sinedino,

O mundo do futebol.

Não se surpreendam. O garoto chega, indicado pelo diretor do clube que recebeu informações de que o rapazinho que trabalha na casa legislativa é muito bom de bola. "Você vai lá, quarta e sexta, dias de coletivos, fala com o ropupeiro, pede material e participa do treino. Vamos ver se você sabe jogo mesmo como dizem", desafia o chefe.

O rapaz, 23 anos, acostumado a ser tratado a pão de ló em seu interior, artilheiro do time e ídolo da cidade, conhece um mundo totalmente diferente. Ele chega no clube e vai ao vestiário. O roupeiro, cara amarrada, nem olha pra ele e pergunta seco: "o que é que você quer menino?". E ele, assustado, sussurra que veio treinar indicado pelo dirigente fulano de tal.

"Trouxe material?", pergunta de forma mais ríspida ainda o desconhecido "senhor do material do clube". O rapaz, já com vontade de voltar para seu trabalho e jogar somente no seu interior, responde que não, já se preparando para uma bronca. No entanto, escuta o camarada da rouparia resmungar e ir lá dentro remexendo numa caixa onde estava amontoado um monte de coisas misturadas.

O Roupeiro, carrancudo, mal humorado, volta com um par de meiões na mão. O nosso craque recebe, a meia tem vários buracos e o elástico já era, ele teria que amarrar com um cordão para não cair. E o roupeiro: "trouxe chuteira? Já sei que não", ele mesmo responde. O rapaz só balança a cabeça negativamente. De novo, o chefe do material vai lá dentro e volta com um par de tênis all collor (acho que foi esse o nome que o nosso craque narrou) e dois números maior que seu pé. "Te vira aí", diz o homem e sai.

O jogador do interior coloca o meião, calça o tênis impróprio e vai para o campo. No time titular do ABC algumas figurinhas de meter medo em qualquer um: Toté, Arimatéia, dois carniceiros que seriam os marcadores do nosso atleta em testes. Mas esse dito menino era ninguém menos que  Joãozinho, danadinho, cracaço de São José de Mipibu que depois se tornaria ídolo da torcida e jogaria, seria artilheiro, em outros clubes do Brasil.

Nem precisa dizer que ele foi aprovado pelo professor Erandir Montenegro. Encheu as medidas no primeiro treino. Pois bem, na sexta-feira, já de contrato quase encaminhado, elogiado pela imprensa, o rapaz chega para treinar e, ainda temeroso, vai até a rouparia. Que surpresa! O mordomo, "Seu Joca" (o internacional Joquinha, que vai completar 50 anos de ABC) dessa vez o recebe com um sorrisão no rosto, um par de chuteiras da melhor qualidade, meiões novos, ataduras, protetor de canela, tornozeleira e tudo que um jogador tem direito.

Quem chegava Joquinha falava alto: "Esse aqui vai me dar muito bicho". E deu, realmente. Uma pequena história engraçada do mundo do futebol.

PS: Joãozinho brilhou no ABC, no Santa Cruz e Mogi Mirim, um dos mais talentoso atacantes da história do clube potiguar

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