A monetização na internet propiciou o jornalismo de ocasião

Carlos Alberto,

Não sou contra se ganhar dinheiro como jornalista editando portais, até porque jornalista é um profissional e como tal tem direito ao seu ganha pão. Ocorre que, a profissão de jornalista se prostituiu, qualquer um hoje se diz jornalista e coloca um site, um blog, seja lá o que for, para ganhar dinheiro com a monetização da internet. Basta que o seu canal tenha tantos acessos, muitas vezes por robôs, e, pronto: tá feita a sua renda mensal, em alguns casos plantando mentiras.

Sou do tempo em que a profissão de jornalista era levada a sério. A imprensa era respeitada, hoje isso não ocorre mais. As pessoas dão mais credibilidade ao que se publica em sites e blogs mercantilistas que visam o $ e nas redes sociais que plantam mentiras do que escreve um Jornalista profissional. Sim, Jornalista com J maiúsculo.

Outro dia li um texto assinado por Claudio Odri, jornalista e professor de história, sob o título "A ignorância democrática das redes e o jornalismo de ocasião" em que dizia que, "andamos indignados com a situação do país e decepcionados com nossos representantes. Sobram denúncias e isto não é novidade. A diferença é que agora as provas aparecem. Seja porque a Justiça está "mais competente" ou os corruptos "menos zelosos", o fato é que processos se transformam em denúncias e viram inquéritos. Alguns, transitados e julgados, resultam em prisões.

Perdidos nesse cenário estão os meios de comunicação que tentam capturar a indignação popular. Ao interpretar os anseios populares abrem mão da sua função primordial que é informar. Antes, para produzir sua matéria-prima, a notícia, havia um processo de pesquisa, levantamento de dados, checagem de fontes, ouvir contraditórios e opiniões divergentes para nos auxiliar na formação de um ponto de vista crítico e construtivo sobre a realidade. Não é mais assim. Todos tem opinião que não passa de palpite."

Certamente o que disse Odri em seu artigo tem a ver com o que ocorre hoje, ou seja, o jornalismo deixou de ter sua função, que é o de apurar a matéria e com isso a profissão abriu espaço para a "prostituição". Prova maior disso foi o que disse o jornalista investigativo Joaquim de Carvalho, que produziu um documentário sobre a farsa da facada em Bolsonaro na campanha à Presidência da República para a TV 247, um canal independente que incomoda a mídia tradicional fazendo um jornalismo sério como nos bons tempos.

Ao ter o seu documentário criticado por parte de alguns colegas, Joaquim de Carvalho disse: "os veículos de imprensa comerciais “perderam o senso ético na prática do bom  jornalismo. Os jornais não têm mais o monopólio da palavra".

Daí volto a repetir que o jornalismo de ocasião se aproveitou disso. Hoje, qualquer um se acha no direito de ser jornalista, a profissão se prostituiu de uma forma tal com o advento da internet que as fake news têm mais credibilidade do que uma reportagem apurada como se aprende ou se aprendeu nos bancos de faculdade.

Blogs e sites são criados para servir de interesses políticos, muitas vezes maculando a reputação de adversários.

A ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, a jornalista filipina Maria Ressa acusou o Facebook de ser uma ameaça à democracia. Segundo ela, a empresa de Mark Zuckerberg falha em proteger seus usuários contra a disseminação do ódio e a desinformação, além de ser “tendenciosa contra os fatos”.

O Facebook se tornou o maior distribuidor de notícias do mundo e “ainda assim é tendencioso contra os fatos, é tendencioso contra o jornalismo”, disse Ressa.

A chefe do portal de notícias Rappler tem sido alvo de intensa campanha de ódio dos apoiadores do presidente filipino Rodrigo Duterte. “Estes ataques online nas mídias sociais têm um propósito. Eles são direcionados e usados como uma arma”, disse a ex-jornalista, que trabalhou na CNN Filipinas. As apurações do portal Rappler têm exposto a guerra de Duterte contra as drogas, com execuções extrajudiciais. 

Os filipinos estão no topo do mundo no tempo gasto em mídia social, de acordo com estudos de 2021 realizados por empresas de gerenciamento de mídia social.

Procurado para comentar as observações da Ressa, um porta-voz do Facebook disse que a empresa investe na remoção e na redução de visibilidade de conteúdo nocivo.

É fato que as informações que chegam as redes precisam tem um maior rigor no que diz respeito a sua credibilidade. Já houve um certo avanço, mas ainda é muito pouco.

Pelo fim do jornalismo de ocasião, pelo fim da prostituição no jornalismo, pelo bem da informação com credibilidade. A democracia agradece!


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