Tecendo o Fio das Palavras

"Sou aquilo que se vê?

Monique Pimentel,

Soube esses dias que a banda Los Hermanos voltará a fazer turnê pelo Brasil. Com alegria e saudosista, lembrei dos tempos em que não parava de ouvir suas músicas. Época de estudante de psicologia, sedenta por entender a mente humana e mais ainda por me conhecer. 

Lembrei de um trecho de uma música deles que por muito tempo foi minha descrição. Em redes sociais, dinâmicas de grupo e qualquer oportunidade em que pediam para eu me descrever, dizia: “Numa moldura clara e simples, sou aquilo que se vê”. Trecho da música “Retrato pra Iá Iá”.

Hoje, confesso que já não me reconheço muito nessa descrição. Mais madura, ouso dizer que ninguém consegue ser exatamente aquilo que se vê. E isso acontece não porque usamos máscaras ou somos fingidos. Talvez sejamos mais maduros mesmo.

Quantas vezes você carrega uma tristeza no coração, mas veste seu melhor sorriso pra sair de casa?

Quantas vezes aquela cara fechada esconde uma timidez?

Então, o que se vê é pouco. Precisamos sentir, adentrar no universo do outro e ai sim deixar-se revelar. É tão lindo e nobre mostrar ao outro muito mais do ele consegue ver.

Lembro agora de um casamento em que o noivo fez uma declaração e ele confirmava isso que venho colocando aqui. Ele dizia que tinha se apaixonado pela esposa, não pelo o que todos conseguiam ver, porque a beleza física dela era óbvia, mas o interior dela era infinitamente mais bonito.

Nesse mundo de aparências e efemeridades, parece que só o que salta aos olhos é o que se vê mesmo. Devemos ter cuidado com isso.

Sei também que não é uma tarefa fácil revelar-se, “desnudar” sua alma. Mas é tão encantador perceber que cada um é muito mais do que conseguimos ver.

Por isso, mantendo uma moldura clara simples, vou adaptar minha descrição para esse novo momento. “Numa moldura clara e simples, sou também o que não se vê.”

Mas também, confesso que essa parte que não se vê não é revelada para todos. São aquelas pessoas caras e especiais para nós que nos deixam à vontade para ser quem somos, que nos aceitam com o que temos além do que se vê.

E talvez para que haja mais leveza no mundo, podemos combinar de sermos gentis e cordiais, revelando a parte que se vê. E a outra parte, vamos dividi-la com que está disposto a ir além.

Você enxerga isso?


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