Tecendo o Fio das Palavras

“Pessoas trincadas”

Monique Pimentel,

Há tempos sem escrever, sem tecer fios por aqui, me vi motivada a compartilhar uma conversa que tive com um amigo. Ele me falava sobre nós, mulheres. Desapontado com as que estava conhecendo, ele me disse assim: “parecem belas flores de plástico”.

Instantaneamente disse a ele: isso merece além de uma boa conversa, um texto. E aqui estou para compartilhar com vocês. Não quero falar só sobre as mulheres que desapontaram meu amigo, mas penso que o mundo pode estar se tornando um grande jardim com belas flores de plástico.

São lindas, foram feitas para eternizar, mas estão inertes, não precisam ser cultivadas, podadas e cuidadas. E não exalam perfume, são práticas e podem ser trocadas facilmente.

É triste perceber que o mundo pode estar se tornando esse falso jardim. Nada parece mais tão natural. Na busca pela perfeição física, a essência vai se perdendo. Vejo pessoas, homens e mulheres, obcecados pelo corpo definido, rosto sem rugas e uma vida de aparências, que faz lotar os consultórios psicológicos e psiquiátricos. Estamos adoecendo.

Zack Magiezi, sempre sábio, escreveu assim: “As pessoas estão ocupadas, construindo uma imagem simétrica, perfeita, opiniões e paredes bem decoradas, quadros no lugar, roupas dobradas, praias rasas. São uma multidão com a mesma alma. Eu gosto de pessoas trincadas...”

Eu também gosto de pessoas trincadas. São pessoas “reais”, frágeis”, que levam a vida se quebrando, se trincando e se refazendo. Há tanta verdade nelas porque pulsam e conseguem sintonizar com o que são.

Em meio a um mundo tão virtual, em que as redes sociais exalam perfeição e felicidade, penso que está na hora de sermos mais reais, com nossas imperfeições, fragilidades e a busca incessante por sermos pessoas melhores, espalhando o amor, a humildade e gentileza para espalhar o melhor perfume que só as flores naturais têm.

E que em meio a um jardim falso, possamos multiplicar as flores naturais.

Em meio a pessoas rasas, possamos encontrar mergulhos profundos (e sermos profundos também).

E assim a legião de pessoas trincadas vai aumentado e a gente vai percebendo quanta beleza há nelas, pois são reais, verdadeiramente frágeis e humanas

Podem se quebrar, mas conseguem se refazer.

Por menos perfeiçoes e mais “pessoas trincadas”.

Por menos mundo virtual e mais encontros reais.

Por menos pessoas “flores de plástico” e mais perfume exalado pelas flores (pessoas) reais.

Por um jardim melhor para todos nós.


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