Tecendo o Fio das Palavras

"Amar é como ter um pássaro"

Monique Pimentel,

Recentemente, presenciei uma cena linda na casa de um amigo. Havia lá uma gaiola decorativa e um pássaro bem acomodado acima dela. Ele estava livre, sem nenhuma amarra. Surpresa, perguntei: “É de verdade?” E meu amigo disse: “Claro que sim, ele voa pra outros lugares, mas sempre volta pra cá e fica aí”.

E essa cena me inspirou a tecer uma linhas aqui. Lembrei logo de uma frase de Rubem Alves que diz assim: “Amar é como ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento ele pode voar.”

Assim como o pássaro que estava na casa do meu amigo decidiu pousar lá, onde encontrou abrigo e segurança, mesmo tendo a liberdade de voar pra qualquer lugar, assim são as pessoas que decidem ficar em um relacionamento.

Não adianta forçar, “engaiolar” o outro, prender e obrigar que a pessoa fique com você. Isso não é amor, é qualquer outra nomenclatura que você queira dar. Mas concordo com Rubem Alves, amar é deixar o outro livre e por opção, ele decide ficar ali, ao seu lado. E você mesmo sabendo que ele pode voar a qualquer momento, opta por oferecer condições favoráveis para que ele fique, sendo abrigo e proteção. E a recíproca deve ser verdadeira.

Lembro também agora de outro autor, Carpinejar, ele diz assim: “Liberdade na vida é ter um amor pra se prender.” Liberdade na vida é decidir se aliar a alguém, se prender, sem se sufocar, pousar, sem se machucar e o ideal mesmo é que as liberdades coincidam e voem juntas.

Penso que os encontros mais verdadeiros nascem de liberdades que se encontram e decidem seguir lado a lado. São duas pessoas que podem voar para quaisquer lugares, mas voluntariamente decidem ser livres juntas. Talvez essa seja a definição mais coerente do amor.

Não é uma situação financeira, filhos, medo, insegurança ou qualquer outra condição, que te “prende” àquela relação. É o simples desejo genuíno de querer estar ali, naquele lugar, com aquela pessoa. Você pode até voar, como o pássaro que inspirou esse texto, mas decide fazer abrigo ali, com a pessoa que lhe inspira a ser livre junto com ela.

Que possamos aprender mais com os pássaros.

Para ter leveza.

Para entendermos que o melhor da vida é ter a liberdade de escolher onde será nosso abrigo.

E eu torço para que ele seja um lugar de acolhida e amor, assim como um pássaro sem gaiola.



"Saudades de mim"

Monique Pimentel,

Estava no aniversário de uma amiga querida e ela, ao proferir seu discurso disse que durante algum tempo nesse ano, ela sentiu saudades dela. Foi mais ou menos assim que ela falou: “Diante das dificuldades que passei, do medo de perder meu amado pai, eu me desconectei de mim, da minha alegria, do meu riso fácil e depois que meu dei conta de como tive saudades de mim.”

E fiquei pensando quão linda e profunda é essa expressão. Quantas vezes tive saudades de mim? Quantas vezes demorei a me dar conta de que havia me desconectado de quem eu era. E como solucionar essa saudade?

Penso que é se percebendo, se olhando, sentindo que algo está errado. Aquela “coisinha” que pode estar incomodando. É como olhar no espelho e não se reconhecer. E aí, é se permitir fazer o caminho de “volta pra casa”, de buscar aquela essência escondida e mais do que isso é querer voltar, até porque a gente só sente saudade do que foi bom.

E é tão bom “voltar pra casa”, voltar para si e se reconhecer ali, pleno e livre pra ser quem é.

Mas o que me preocupa mesmo é que muitas pessoas não se dão conta dessa saudade de si. Atropelam-se em seus medos, tristezas e frustrações e vestem uma armadura de ferro, esquecendo para sempre de quem são. Tornam-se suas experiências de vida mal sucedidas e isso é lamentável.

É fato também que há momentos em que nos distanciamos de quem somos, como minha amiga fez, porque o momento pede, mas sem perder de vista aquele fio que nos liga à nossa essência. E aí vem a importância dos que estão por perto.

Lembro agora de uma música de Sandy, que se chama “Me espera” e fala de ter alguém por perto que não nos deixará nos perder de quem somos. “Me reconheço em teu olhar; que é o fio pra me guiar de volta; tenta me reconhecer no temporal, me espera ... tenta não se acostumar; eu volto já”.

E eu desejo verdadeiramente que tenhamos sempre esse alguém por perto que não se acostume com uma versão que não é nossa, que nos reconheça num temporal e entenda que aquele temporal vai passar e que as saudades que temos de nós mesmos, nos fará voltar.

Diante de um mundo tão individualista e egoísta, desejo que as nossas saudades se encontrem e que possamos ter sempre alguém para resgatar e quem nos resgate também.

Porque saudade será sempre o amor que fica.

Está com saudade de você?


“Pessoas trincadas”

Monique Pimentel,

Há tempos sem escrever, sem tecer fios por aqui, me vi motivada a compartilhar uma conversa que tive com um amigo. Ele me falava sobre nós, mulheres. Desapontado com as que estava conhecendo, ele me disse assim: “parecem belas flores de plástico”.

Instantaneamente disse a ele: isso merece além de uma boa conversa, um texto. E aqui estou para compartilhar com vocês. Não quero falar só sobre as mulheres que desapontaram meu amigo, mas penso que o mundo pode estar se tornando um grande jardim com belas flores de plástico.

São lindas, foram feitas para eternizar, mas estão inertes, não precisam ser cultivadas, podadas e cuidadas. E não exalam perfume, são práticas e podem ser trocadas facilmente.

É triste perceber que o mundo pode estar se tornando esse falso jardim. Nada parece mais tão natural. Na busca pela perfeição física, a essência vai se perdendo. Vejo pessoas, homens e mulheres, obcecados pelo corpo definido, rosto sem rugas e uma vida de aparências, que faz lotar os consultórios psicológicos e psiquiátricos. Estamos adoecendo.

Zack Magiezi, sempre sábio, escreveu assim: “As pessoas estão ocupadas, construindo uma imagem simétrica, perfeita, opiniões e paredes bem decoradas, quadros no lugar, roupas dobradas, praias rasas. São uma multidão com a mesma alma. Eu gosto de pessoas trincadas...”

Eu também gosto de pessoas trincadas. São pessoas “reais”, frágeis”, que levam a vida se quebrando, se trincando e se refazendo. Há tanta verdade nelas porque pulsam e conseguem sintonizar com o que são.

Em meio a um mundo tão virtual, em que as redes sociais exalam perfeição e felicidade, penso que está na hora de sermos mais reais, com nossas imperfeições, fragilidades e a busca incessante por sermos pessoas melhores, espalhando o amor, a humildade e gentileza para espalhar o melhor perfume que só as flores naturais têm.

E que em meio a um jardim falso, possamos multiplicar as flores naturais.

Em meio a pessoas rasas, possamos encontrar mergulhos profundos (e sermos profundos também).

E assim a legião de pessoas trincadas vai aumentado e a gente vai percebendo quanta beleza há nelas, pois são reais, verdadeiramente frágeis e humanas

Podem se quebrar, mas conseguem se refazer.

Por menos perfeiçoes e mais “pessoas trincadas”.

Por menos mundo virtual e mais encontros reais.

Por menos pessoas “flores de plástico” e mais perfume exalado pelas flores (pessoas) reais.

Por um jardim melhor para todos nós.



Críticos da felicidade (alheia)

Monique Pimentel,

Vou confessar uma coisa. Costumo criticar quem posta muitas “alegrias” nas redes sociais, quem vive em tempo real, colocando vídeos e estampando uma felicidade que me parece tão “montada”.

Mas eis que vejo uma frase do sábio escritor Zack Magiezi que foi como um tapa de luvas em mim. A frase diz assim: “Quando alguém compartilha uma felicidade não é para ofender, é para lembrar o caminho de volta quando o mundo desmoronar em tristeza”. E ele ainda endereça a frase aos críticos da felicidade alheia.

E não é que me senti exatamente assim, uma crítica da felicidade alheia. É que eu, você e todos nós conhecemos tão de perto pessoas que camuflam a felicidade nas redes sociais e a gente sabe que as coisas no mundo real não são bem assim.

Mas como Magiezi falou, essas pessoas não compartilham felicidade para ofender, lá no fundo tem uma carência, um desejo, uma falta ou até nada disso, apenas uma vontade que não interessa a mim, a você ou a qualquer terceiro.

Então, talvez olhar essas alegrias sob uma nova ótica, aquela que nos liberta e faz a vida ser bem mais leve, seja renovador. E esse novo olhar diz respeito a entender que cada um é responsável pela sua vida e pelas suas "alegrias"..

Então se a pessoa quer postar sorrisos, fantasias, alegrias, mesmo a gente conhecendo e sabendo que não é bem assim, a quem interessa?

Talvez seja uma estratégia.

Talvez seja uma saída.

Talvez seja até verdade.

Talvez, só talvez...

E o que interessa mesmo é cada um olhar para dentro. Cuidar de suas alegrias e tristezas, equilibrar o que externamos e o que pulsa aqui dentro.

Que sejamos críticos da própria felicidade.




Cuidado

Monique Pimentel,

Como muito bem nos alertou Zack Magiezi (não canso de repetir que sou fã declarada dele): “Meu amor, o mundo está repleto de covardes ... sedutores que não sabem o que significa cuidado. Cuidado”.

Coincidentemente duas amigas me relataram situações bem parecidas essa semana, estavam saindo, ficando e de repente o moço aparece namorando outra e estampando isso nas redes sociais. Decepcionadas, elas me falavam justamente sobre essa falta de cuidado.

E eu não consigo me acostumar com isso. Ainda bem. É tão desanimador ver que cada vez mais as pessoas estão descartáveis, os sentimentos estão voláteis e o amor se liquefazendo. Triste, meus caros.

É covardia sim. O dicionário define como a corrupção da prudência. E é isso mesmo, o cuidado, a empatia que escapam, a falta de coragem de assumir a verdade e encará-la. Minhas amigas me perguntaram o que eu achava que elas deveriam fazer.

As atitudes falam mais que palavras e todos nós sabemos disso, então a atitude dos sujeitos que falo já mostram que são pessoas fracas, frágeis e certamente tiveram medo da profundidade das minhas amigas.

Então, talvez o melhor a fazer, é silenciar diante da pequenez do outro. E ter cuidado, muito cuidado com essa sedução “rasa”, que só pessoas profundas sabem reconhecer.

E o que anima meu coração e me dá pontinhas de esperança no ser humano, é que tenho o privilégio de conhecer essas pessoas profundas, essas pessoas que não se diminuem diante da pequenez do outro, que não se acovardam e sabem sair elegantemente de situações como essa.

Mas, não custa nada alertar mais uma vez: Cuidado!



(Re) começo

Monique Pimentel,

Estava há um tempo afastada dos meus fios que entrelaçam sentimentos, palavras e emoções. Imersa em outros projetos, deixei esse um pouco adormecido. Mas sempre via alguma coisa, vivia algo, sentia e vinha aquela vontade: “Vou escrever sobre isso”. Mas o tempo passava e a vontade adormecia.

Eis que hoje recebi um lindo e especialíssimo presente de uma amiga, o livro “notas sobre ela” de Zack Magiezi, de quem sou fã declarada e com uma dedicatória dele que dizia: “Monique, continue escrevendo o mundo precisa”. Aí não tive como não correr ao computador e dedilhar essas palavras na tela branca. Escrever é como achar as notas de uma canção, traduzir em palavras o que transborda no nosso coração pulsante.

E aproveito para compartilhar com vocês uma das notas do livro que ganhei: “Ela gosta de pessoas que deixam a maioria de sua beleza do lado de dentro”.

Nesse mundo cada vez mais ao contrário, teimo e insisto em seguir a linha do que faz sentido, do que verdadeiramente faz sentido, amor que pulsa, família, amigos por perto, trabalho que alegra meus dias e especialmente encontrar e reconhecer pessoas que tem esse lado de dentro lindo.

Confesso que às vezes, dá vontade de dizer: “Parem o mundo que eu quero descer”, como disse sabiamente Vanessa da Mata na sua música Homem Invisível no Mundo Invisível:

Parem esse mundo que eu quero descer
Tudo é dinheiro, o amor pra onde vai?
Quero um abraço dos meus bons amigos
Pois nenhum dinheiro compra um verdadeiro

O amor vai ao encontro do que nos traz paz e do que vibra nosso coração com a serenidade de quem ainda acredita na beleza que existe em cada um de nós.

E assim a gente vai (re)começando a cada dia, acreditando e levando da vida o que ela pode nos oferecer de melhor.

E assim a gente vai escrevendo, cantando, dançando e vibrando coisas boas porque o mundo precisa.

Gratidão!



O amor está no ar

Monique Pimentel,

Dia dos namorados, declarações, chuva de fotos nas redes sociais. Uma amiga comentou que o namoro nem estava tão legal assim, mas vendo todas aquelas fotos, ela teria que postar também. Literalmente o amor está no ar, nas nuvens, no virtual e está faltando aqui desse lado real, verdadeiro e pulsante.

Não estou criticando quem postou sua foto ou fez sua declaração. Achei até bem bonitinho ver todo aquele romantismo, mas o que venho refletir e na verdade já reflito há um tempo é essa necessidade de expormos o que não condiz com a realidade. Para quê? E aí podemos enumerar vários motivos, para aumentar a autoestima, para dizer aos outros que eu também sou feliz, para provocar, para enganar os outros e a si mesmo, mas também para compartilhar uma alegria real.

Mas isso acho que eu e você já sabemos bem, inclusive que mentir para si mesmo é a pior mentira. Mas o que me chamou mesmo a atenção nesse dia do amor e corações no ar foi a disposição que ainda temos para amar. Vi pessoas que mudaram de parceiro, mas estampam aquela mesma felicidade, vi pessoas que mudaram de parceiro e estão ainda mais felizes e vi ainda pessoas que se separaram e estão bem melhores. E ai lembro de Martha Medeiros que diz: “Que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistência, mas sabendo que para sempre é impossível recusá-lo”.

E é isso que apesar de todos os pesares, a gente ainda consegue perceber que o amor vence e prevalece, mudam-se os personagens, reinventamos o amor e as possibilidades que ele nos oferece e não há como resistir. Como diz Djavan: “Para ser amor, invade e fim.”

Em meio a tantos amores líquidos, ainda vemos relacionamentos sólidos, intensos, verdadeiros e que a gente sabe que aquela alegria estampada no ar é vivida diariamente. Que bom! São lampejos de esperança que nos fazem crer que essa história de amor romântico não está ultrapassada, que ter um casamento duradouro é possível e que mais do que isso, o amor é liberdade que nos faz escolher pousar, em meio a tanto subterfúgios, dificuldades e efemeridades, em terreno firme, sem cerceamento.

O amor está sim no ar.

Mas ele é tão mais lindo de ver aqui no chão firme, com olhar verdadeiro que nenhuma rede social é capaz de transmitir.



Como vai a sua paz?

Monique Pimentel,

Escutei um padre falar que no Oriente, as pessoas não se cumprimentam como a gente que diz: “Tudo bem? Como está?”, eles perguntam assim: “Como vai a sua paz?” e realmente é essa a verdadeira pergunta. É a paz ou a ausência dela que demonstram nosso bem estar.

Cada vez mais me convenço de que esse é o melhor sentimento do mundo: estar em paz. “Sereno é quem tem a paz de estar em paz com Deus” (Marcelo Camelo). E de fato, não há nada mais sublime. Já vi pessoas passando por momentos muito difíceis, dores que pareciam insuportáveis, mas havia serenidade e paz naquele olhar.

E você há de concordar comigo que há momentos em que a gente tem aparentemente tudo, sucesso profissional, saúde, amigos, mas algo nos tira a paz e parece que nada mais tem sentido. Viver angustiado e ansioso é a pior coisa que podemos fazer conosco e com a nossa saúde.

E em meio a esse mundo louco, frenético e turbulento parece cada vez mais difícil encontrar essa paz e sentir-se bem com ela. Eu, particularmente, não abro mão de um momento meu, seja uma atividade física, seja minha oração diária, momento de silêncio, em que tudo parece desacelerar. “A paz que eu sempre quis estava no silêncio que eu nunca fiz”, diz a música e é a mais pura verdade.

Silenciar, meditar, desconectar são palavrinhas mágicas que nos levam ao encontro dessa paz. E penso que para manter nossa saúde física e mental, elas são essenciais. Precisamos refletir sobre isso!

Por que estamos cada vez mais conectados com o mundo e desconectados internamente?

Por que a depressão aumenta freneticamente?

Por que nossas relações estão tão frágeis e líquidas?

Ouso dizer que é porque estamos sucumbindo nossa paz. Ela é o remédio da alma.

Por isso, questione frequentemente para você e para quem está ao seu redor:

Como vai a sua paz?



Facebook (des)necessário?

Monique Pimentel,

Ontem uma amiga me ligou muito chateada porque viu pelo facebook de um amigo em comum com o ex-namorado dela, uma foto sua com a atual. E ela foi destilando sua raiva, pelo pouco tempo que haviam terminado, por ele tão rápido já estar com outra, frequentando os mesmos ambientes que ele frequentava quando estava com ela, os mesmos amigos e todo aquele discurso que certamente você também conhece.

E ela ainda acrescentou: “desnecessário o amigo ter postado isso, sabendo que eu ia ver.” Mas penso que desnecessário mesmo é a gente ser tão refém de um aplicativo, concordam? Acho que nossas vidas eram mais tranquilas antes dessas redes sociais. O facebook, instagram e similares tornaram aquele nosso velho diário, um diário coletivo, todos podem ver a acompanhar nossa vida.

Infelizmente, me sinto refém disso também. Há momentos em que posto alguma foto e penso: “desnecessário postar isso.” As pessoas que verdadeiramente importam e vivenciam aquele momento, não sabem dele pelo facebook.  Mas ele não é de todo mal, se bem utilizado, pode ser de grande valia. Ler coisas interessantes, reencontrar pessoas, divulgar nosso trabalho, entre outros.

Mas penso que o que minha amiga sentiu ao ver algo desnecessário pelo facebook revela muito do momento em que estamos vivendo. Ivan Martins em um texto que fala sobre isso, sabiamente diz: “Ao estimular e antecipar fofocas, o Facebook explora uma fraqueza humana: temos propensão psíquica a falar demais de nós mesmos e a desejar saber demais sobre a vida dos outros. Sem esses dois elementos negativos o Facebook não existiria.”

E aí também mora uma contradição, expomos nossa vida para a rede social e nos enclausuramos em nós mesmos e também nos fechamos para o outro. É uma cena muito comum, vermos em bares e restaurantes pessoas reunidas, mas conectadas com seus celulares. Fazem uma selfie, postam que estão feliz e voltam todos para seus casulos. E isso é uma pena.

É uma pena nos vermos reféns desse mundo virtual.

É uma pena olhar e não ver; ouvir e não escutar.

É uma pena estarmos perdendo essa vida que pulsa e vibra realmente, verdadeiramente.

Deixo claro também, que me incluo nessa “loucura virtual”, mas tento em momentos como esse, refletir sobre isso. O que é realmente necessário para nossa vida? Certamente partilhar os momentos com quem amamos, desfrutar de boas companhias, propagar o que é bom, ter fé em Deus, ter fé na vida. E claro que podemos também usar o facebook para isso, mas na medida certa, com equilíbrio, sem deixar que ele roube a cena real que pulsa aqui fora.

Que o facebook e as demais redes sociais sejam necessárias, mas não alienantem e desperdicem boa parte do nosso tempo.

Porque desnecessário mesmo é deixar de sentir esse mundo real, vibrante e com tanta coisa linda, intensa e verdadeira para nos oferecer.



"Ele tem cheiro de passado"

Monique Pimentel,

A gente vai carregando ao longo da vida experiências, dores, amores e tentando elaborar tudo isso, mas têm coisas que ficam ali, mal resolvidas. Isso é a vida, isso é o preço que a gente paga por viver e se permitir.

Uma amiga conheceu um rapaz e ao me falar sobre ele, ela usou essa expressão: “Ele tem cheiro de passado”. E quem não tem? Mas ela falava daquele cheiro que ainda é forte, que dá pra gente sentir logo. E é isso mesmo que acontece, a gente sente. Perguntei a ela se ele tinha falado de alguma situação, de alguma ex e minha amiga disse que precisou ele falar pouco, porque o cheiro forte de passado já dava pra sentir.

São pessoas que trazem marcas de situações mal resolvidas e que mesmo tentando e se permitindo viver outras situações não conseguem desatar aquele nó. E aí, cabe a perspicácia e sabedoria de quem tenta se envolver com uma pessoa assim. Minha amiga foi super sábia e disse que não ia entrar nessa história sentindo que ainda não tinha espaço para ela. “Sei exatamente o que quero e não é o que ele pode me oferecer. Não agora.”, me disse ela.

E foi isso também que ela disse a ele. Não o conheço e nem sei o que ele achou dessa atitude dela, mas posso quase afirmar com muita veemência que ele a admirou pela atitude. É tão nobre e lindo sermos leais e verdadeiros com o que sentimos, cuidando da gente e do outro também.

E assim minha amiga fez. Cuidou dela, do sentimento dela que não poderia ser entregue em uma situação nebulosa, a previsão era de fortes temporais. E ela cuidou dele também, talvez fazendo com que ele refletisse sobre o passado e mais ainda, sobre esse cheiro forte que ainda ressalta.

O passado tem que ter cheiro suave.

O passado é aquela roupa que a gente pode continuar achando bonita, mas não nos serve mais.

O passado é a matéria prima do presente e do futuro.

E entender, viver e elaborar esse passado é fundamental para que vivamos com leveza, suavidade o cheiro real do presente.

Porque não há nada mais fascinante do que pessoas que cheiram presente, com essências suaves do passado.

E eu fico aqui, torcendo para que o cheiro do nosso presente e do nosso futuro seja sempre mais forte. 



Deus meu

Monique Pimentel,

Iniciamos a semana santa, a celebração cristã de vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Como católica, acredito, vivo e sinto minha alma abastecida de paz, de fé e de Deus, ainda mais nessa semana.

Esses dias, escutei uma música nova de Nando Reis, chamada “Deus meu”, que é de uma beleza profunda e rica em reflexão. Vou compartilhar com vocês um trechinho dela:

“Deus não se compreende

É o tempo motor

Invisível presente

Sedativo à dor

Onde você está?

Quando vai aparecer?”

Com certeza eu e você já fizemos essas perguntas: “Onde está Deus e quando vai aparecer?”. A cada dia me convenço mais de que Deus está tão perto da gente, mas nesse mundo louco, corrido e atropelado não estamos tendo tempo para Ele.

Eu vejo Deus nas pessoas, na natureza, nas crianças, na fé inabalável de quem teria tudo para duvidar de Sua presença, mas é quem mais testemunha a sua existência. “Deus não se compreende”, é um invisível presente que a gente sente. Lembro de uma história que me contaram sobre Santo Agostinho. Perguntaram a ele, como saber se Deus está presente naquela pessoa e ele respondeu: “Pela sensação que ela deixa ao partir. Se o sentimento é bom, Deus está ali, mas se houver angústia, inquietação e dúvidas, Ele não se fazia presente.

Sempre lembro disso quando quero tomar alguma decisão, seja com pessoas, ou com assuntos diversos. Qual a sensação que aquela pessoa ou aquele assunto me traz? Ouso dizer que costumo não me enganar. Mas às vezes, a loucura da falta de tempo torna nossa sensibilidade solúvel. Ela se dissolve nesse emaranhado em que estamos nos entrelaçando na vida e a gente vai perdendo o que há de mais precioso que é sentir Deus. Um Deus que é amor, verdade, alegria, força e fé.

Um Deus que não está só nos templos religiosos, um Deus que é real, é sentimento, é vida que pulsa. Ir à igreja nessa semana santa, alimenta minha fé, mas diariamente o que a reabastece é tentativa que faço de ser melhor a cada dia, de respeitar o outro, de ser solidária e de tentar enxergar esse “Deus meu” em tudo ao meu redor.

Um Deus que é meu porque depende de mim a forma como eu o vejo, depende de mim acreditar que há essa força superior que nos guia, que nos faz sentir paz e nos faz ter esperança na vida.

Um Deus meu. Um Deus teu. Um Deus nosso.

Onde estamos que às vezes não Te vemos?

Talvez escondidos dentro de nós mesmos, talvez atropelados pela rotina diária, talvez imersos no mundo virtual.

Quando vamos aparecer?

Quando optarmos pelo amor, pelo bem ao próximo, pela caridade e pela certeza da fé.

Porque Deus está aqui, está aí e em qualquer lugar.

Nós é quem devemos aparecer.

Deus meu!

Deus nosso!



"Não nos deixem desistir"

Monique Pimentel,

Ao proferir lindas palavras no seu casamento, uma amiga virou para os convidados e disse: “Não nos deixem desistir. Quando ele tiver dúvidas, se ainda me ama, lembrem a ele toda a nossa história e como me tornei melhor ao lado dele, já se eu quiser jogar tudo para o alto, me façam lembrar da magia desse momento. Tudo faz sentido!”

Nunca havia presenciado uma celebração de casamento tão linda. Era como se eu estivesse vendo a materialização do amor, ali na minha frente. Não aquele amor de conto de fadas, mas um amor real, diário, que se desgasta, que esmorece, que duvida e que pede ajuda.

E muitas vezes essa “ajuda” sugere o término, frases como: “não sofra mais”, “ele não te merece”, “ela só te faz sofrer” e tantas outras são reforçadores e algumas vezes destruidores de uma relação que talvez só precisasse levar a seguinte reflexão: “essa situação adversa consegue ser maior que todo amor que vocês construíram?”

Há situações e relações que valem a pena insistir, persistir e se reinventar por si, pelo outro e pelo que se tornaram enquanto casal. Mas diante de amores líquidos e descartáveis que estamos vivendo, tudo passa a ser efêmero. “Não deu certo, separa”, simples e fácil assim.

Há relações que já começam erradas e a gente vê tudo ali, menos amor. Para essas, a fórmula simples que cite aí em cima, calha bem. Mas, a gente sabe aqueles casais que transmitem amor, verdade e cumplicidade. Para esses que devemos intervir, não deixando que desistam fácil assim dessa relação. A frase da minha amiga virou “poesia” para mim, quando vou a algum casamento de amigos e que sei que tem muito amor ali envolvido, sempre escrevo no cartão para eles: “E diante das dificuldades que virão, vou ajudá-los a não desistir. Vocês valem a pena juntos.”

O amor precisa disso, de força, de resistência e de quem acredite nele. De quem não desista dele.

O amor precisa de amigos por perto, que não nos deixem desistir.

O amor é simples, é forte e verdadeiro.

E eu torço que na minha e na sua vida, tenhamos sempre alguém por perto que diga: “Não desista desse amor!”

E que essa voz soe sempre mais alto!



Meu réveillon

Monique Pimentel,

A cada ano, no dia 20 de fevereiro um novo ciclo começa em minha vida. Costumo dizer que é o meu réveillon, a minha celebração de ano novo. E é mesmo. Assim como faço na tradicional virada de ano, no meu réveillon, eu sempre busco ter um dia bem feliz, com boas energias, pessoas que amo por perto e claro, reflito sobre o ano que passou e o que está por vir.

A cada ano, percebo que tenho mais certezas, menos tempo (que pena!) e mais vontade de viver. Certeza de que terei sempre Deus guiando minha vida, o apoio e o amor da minha família. A vida adulta, infelizmente, nos rouba tempo e a cada ano reflito que devo equilibrar e dosar mais a divisão desse tempo com compromissos pessoais e profissionais. Estou tentando. Mas a vontade de viver é sempre crescente, penso que precisaria de no mínimo 150 anos para viver tudo o que quero. Talvez por isso seja tão acelerada, ando rápido, falo rápido e tenho que honrar o que me proponho de maneira muito ágil e comprometida. Tenho muita sede de vida.

Minha mãe conta que teve algumas ameaças de aborto quando estava grávida de mim, mas o amor e a perseverança dela, os desígnios de Deus e a minha vontade de viver fizeram com que no dia 20 de fevereiro, eu iniciasse minha jornada aqui. E talvez por isso eu tenha essa sede de viver e me sinta tão grata por essa vida que pulsa.

Quando completei 30 anos, escrevi um texto dizendo eu estava “rica, aos 30”. Passados 3 anos, ouso dizer que estou quase milionária. Acumulei muita riqueza ao longo desse tempo, diariamente, com saúde, me levanto para trabalhar com o que amo, tenho uma família muito especial que colore meus dias, tenho amigos que são verdadeiros anjos e quando penso que Deus já me presenteou com tanta coisa, Ele ainda consegue me surpreender. Como não ser milionária assim?

Antes de dormir, adquiri o hábito de fazer as leituras diárias da bíblia e virou meio que um “mantra” dizer: “Gratidão, Senhor!” E quanto mais eu agradeço, mais bênçãos eu recebo. É muita ousadia dizer que não tenho mais nada a pedir, tenho sim, claro. Mas o que peço verdadeiramente é que pelas janelas dos Seus olhos, Deus tenha orgulho dessa filha, mesmo que minha fé seja do tamanho de um grão de mostarda e que eu possa sempre ter a sabedoria para escolher os caminhos Dele, força e fé para seguir mesmo diante de dificuldades e que eu possa dizer diariamente: “Gratidão, Senhor”!

Se existir o tal segredo de se viver bem, acho que descobri o meu. Busco ter uma alegria genuína de viver, não é à toa que nasci em fevereiro com seus encantos e sorrisos, além disso tento dar a cada coisa/situação o cuidado e a preocupação que merecem. E tento sempre deixar o melhor de mim a quem se aproxima.

Então para o meu novo ciclo, espero mais amor, mais harmonia, mais sorrisos, mais fé e cada vez mais a certeza de que viver é uma dádiva e eu vou aproveitar cada segundo desse presente que Deus me deu. Porque a “vida é trem bala, parceiro, e a gente é só um passageiro prestes a partir”.

Venha meu novo ano.

Venha ser lindo e especial.

Meu réveillon!

Gratidão, Senhor!



Está ao contrário

Monique Pimentel,

Essa semana mais uma vez, me peguei refletindo sobre um trecho da música de Nando Reis: “O mundo está ao contrário e ninguém reparou”. Mesmo diante de tantas turbulências e rivalidades políticas e partidárias, eu optei por silenciar e confesso que isso me incomodou algumas vezes, mas diante de tanto ódio e intolerância, o silêncio me pareceu uma boa resposta. Mas quando se trata de falta de respeito e empatia ao ser humano, eu não consigo ficar calada.

A morte da ex primeira dama, Marisa Letícia, trouxe à tona as impurezas humanas. Sei que o que a gente viu acontece corriqueiramente, desejar o mal do outro, vibrar pela tristeza alheia, fazer piada com a dor do outro, mas por envolver uma figura pública, a coisa toma outras proporções e o lado (des)humano é ressaltado e confesso que dá vontade de perguntar: “Onde aperta pra sair daqui?”

Sei também que você pode retrucar do outro lado: “E o que ela fez?” “E o posicionamento de Lula no velório?” “E o sofrimento pelo qual muitos estão passando em decorrência da situação do Brasil? E a gente poderia ficar discutindo horas sobre isso, mas o que quero refletir especialmente nesse texto é sobre a falta de empatia, sobre esse lado feio do ser humano de vibrar com o sofrimento alheio.

Zack Magiezi traduziu poeticamente e verdadeiramente o que se passou semana passada no nosso país: “A MORTE estranhou quando os VIVOS na torcida vibraram com o seu gol”. Mas do lado de cá, vejo lampejos de luz, esperança e ainda crença no ser humano, vejo pessoas pensando parecido comigo, se sentindo afetadas com tudo isso.

Porque está tudo tão subvertido, que a gente tem medo até de se expressar.

Porque como disse sabiamente o papa Francisco, “Quando você comemora a morte de alguém, o primeiro que morreu foi você mesmo”.

Porque na verdade estamos todos morrendo aos poucos, estamos perdendo esse senso de respeito e cuidado com o outro, estamos vivendo um jogo “toma lá, dá cá”.

Mas, porque ainda há fé em Deus, fé na vida e fé no homem, não devemos desistir, se cada um de nós reparar nesse mundo ao contrário e fizer sua parte, talvez consigamos ficar em paz com o que somos e com o que fazemos.

E quem sabe o mundo nem fique tão ao contrário assim.

Mais amor!

Mais paz!


A última vez

Monique Pimentel,

Frida Kahlo tem uma frase que eu acho fantástica: “Onde não puderes amar, não te demores” e eu, ousadamente, vou reformular essa frase: Onde não puderes ser amada, não te demores.

Essa semana uma amiga me relatava mais um episódio de um relacionamento em que o parceiro deixava nítido que só queria encontros casuais, nada de tornar um relacionamento sério e ela, por algum sentimento que eu não sei denominar, se mantinha nesse “oito”, que dá voltas e voltas e não sai do lugar.

Essa situação dela já se prolonga por uns 2 anos e o ciclo é sempre o mesmo: há o encontro, ele some, ela se chateia, promete nunca mais falar com ele, até ele mandar o próximo sinal de fumaça. E volta tudo outra vez.

Mas o interessante é que ela sempre promete que aquela será a última vez, que não vai se submeter aquilo, que merece muito mais e que um momento de prazer não vale os tantos outros de angústia.

E por que ela continua? Porque a gente se submete a certas situações? Digo que é como estar aprisionada com a chave nas mãos e não querer se libertar daquilo. Loucura, né?

E ela sempre me pergunta: O que eu faço? Como me desprender disso?

Ela me pergunta, mas já sabe a resposta, talvez queira confirmar o que internamente pulsa para ela. Mas é o tempo dela, o tempo de colocar o ponto final, de encerrar um ciclo e se perceber refeita.

Porém suspeito e digo sempre a ela, que talvez o que precisa mesmo é mais certeza de quem ela é, dos valores que possui e do que ela merece. E enquanto a energia estiver lá, presa em um relacionamento fadado ao fracasso, ela não consegue se abrir para o novo, para pulsar e viver um novo amor e ser amada.

Por isso, não te demores, onde lhe falta respeito e amor.

Não te demores, onde não há equivalência entre o que se dá e o que se recebe.

E não espere “últimas vezes” para ter certeza disso.

Onde não se pode ser amada, não deve haver retorno.

É a última vez.



Um ato de amor

Monique Pimentel,

Ser psicólogo é “emprestar” nossos ouvidos a qualquer tempo e momento. Estava no salão de beleza e o cabeleireiro, ao saber que eu era psicóloga, destrinchou sua história de amor, como quem espera certamente um conselho, ao final.

Ele me disse que amava o seu companheiro, mas os dois sabiam que aquela história tinha chegado ao fim, mas era difícil admitir aquilo. “É como se a gente tivesse ligado o automático, mas vai chegar a hora de parar”, me disse ele.

Ele me contava muito sereno e tranquilo, não via tristeza no seu olhar, me falava da história linda que viveram, do amor e da admiração que tinha, mas sabia que tinha chegado ao fim.

Disse a ele que talvez o ponto final naquele momento pudesse manter aquela história sempre linda para os dois e às vezes é preciso parar, seja para respirar, pensar, refletir e voltar mais completos e ainda mais felizes, ou não, seja hora mesmo de viver outras histórias, outros amores.

Aí, me lembrei de Zack Magiezi, que diz: “colocar um ponto final na nossa história de amor, foi um ato de amor e respeito pela nossa história.” Como sempre, fantástico!!

A mais pura verdade. Reconhecer que é hora de parar e tentar guardar apenas o que ficou de bom é, além de respeitoso, muito sábio por parte de quem toma essa iniciativa.

Sabedoria de enxergar aquilo que se tem medo de ver, mas que por algum motivo se instalou ali e prosseguir com essa história pode trazer mágoas, ressentimentos, culpa e tantos outros sentimentos negativos que são capazes de minar aquela linda história de amor.

Lembro agora de um amigo bem religioso que sempre me diz: “Peça sabedoria a Deus para tomar suas decisões, elas podem mudam o rumo de nossa história.” Quão verdadeiro e significativo é esse conselho.

E foi esse mesmo conselho que dei ao cabeleireiro: “Sabedoria para suas escolhas”, porque sabedoria é acreditar que a estrada, que às vezes parece sem rumo, ela vai muito além do que se vê.

Porque, às vezes, é preciso fechar o livro e escrever outro, mesmo que os personagens sejam os mesmos.

Porque, às vezes, o fim é só o anúncio de um novo ciclo que vai começar.

Porque mesmo que as cortinas se fechem, haverá sempre novas cenas, novos espetáculos e novos personagens para encenar um ato de amor.

Um ato de amor pela nossa história.



A garota que você deixou para trás

Monique Pimentel,

Mais um ano começa e oportunamente nesse início de novo ciclo, termino de ler o livro “A garota que você deixou para trás” de Jojo Moyes, a mesma autora de “Como eu era antes de você, que também se tornou filme.

O livro é uma trama envolvente que faz uma paralelo entre duas histórias separadas pelo tempo, uma se passa na primeira guerra mundial e a outra nos tempos atuais. O que une essas histórias é um quadro que tem o mesmo título desse texto. Vale muito a pena a leitura.

“A garota que você deixou para trás” me deixou com várias reflexões, robustecidas pelas indagações normais de final de ano. “O que deixamos para trás com o ano que se finda?” “O que fica fortalecido para o ano que se inicia?”

Sendo até meio clichê, o que deixamos para trás é o que realmente já não faz mais muito sentido na nossa vida, ou o que realmente o tempo forçosamente muda, a jovialidade, a energia física e algumas vezes aquele sorriso puro e esperançoso de que o mundo todo nos pertence. Mas o que fica, o que fortalece são os nossos valores, as nossas crenças e junto com eles as pessoas que comungam disso com a gente e por quem e pelo o que vale o nosso esforço, nossa dedicação e nosso amor.

O livro reflete isso, as histórias se entrelaçam com duas personagens que se identificam com essa “estranha mania de ter fé na vida”, apesar de tantos pesares e de um mundo tão subvertido.

Lembro agora de uma senhora, que deve ter em torno de 70 anos, que encontrei nessa primeira semana do ano, na praia. Ela se sentou ao meu lado, toda faceira, usando biquíni e me dando dicas de como ficar com um bronze bonito. Ela me contou que já estava se preparando para o carnaval e que aproveitava muito bem a vida, apesar de já ter vivido muitas dificuldades. “Mas o passado fica pra lá, não é mesmo?”, me disse ela. E eu que estava coincidentemente com o livro na mão, pensei: “qual a garota que ela deixou para trás?”.

Não sei o que ela deixou, mas posso afirmar que o ficou é muito bacana. A alegria, a energia e a vontade de viver e aproveitar daquela senhora, me fez crer que às vezes nem precisamos deixar aquela garota pra trás, apenas vamos adaptando ela e como falei acima, reafirmando seus valores.

A “garota” que aquela senhora revelou ser, reafirma minha esperança e fé de que a vida se entende olhando para trás, mas o que eu decido carregar na minha “bagagem” faz o meu presente muito mais leve e feliz.

Então para o ano que se inicia, que a gente possa (re)viver essa “garota” cheia de vida, amor e esperança que pode estar adormecida em nós.

Para o ano que se inicia, mais energia e sorrisos sinceros.

Para o ano que se inicia, é preciso que renasça também em cada um de nós esse desejo sincero de fazer um balanço entre o que realmente deve ir e o que deve permanecer em nós.

Para o ano que se inicia, qual “’garota’ você quer deixar para trás?”  



Aprendizado

Monique Pimentel,

Aprendizado

Ouso intitular meu texto com o nome de um poema de Ferreira Gullar, que partiu para poetizar em outro plano. Fiquei encantada ao saber que antes de morrer, ele pediu à sua esposa para que não o entubassem. “Me deixem ir em paz”, pediu ele. E deve mesmo ter ido em paz, sem amarras, sem máquinas, leve e forte como um poema.

Forte como o seu “Aprendizado” que diz em um dos versos:

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

E por que nunca estamos preparados para esse sofrimento? Parece óbvio responder que é porque sofrer é ruim. Mas não creio que seja tão óbvio assim. Talvez também não estejamos tão abertos à alegria e já que o seu avesso é o sofrimento nos fechamos mais ainda para ele. Já pensaram sobre isso?

A vida é feita de momentos e instantes. Nada dura para sempre. Nada é permanente. E a gente vive como se buscasse sempre uma alegria eterna. E por isso nunca nos contentamos e deixamos de viver essas “pequenas” alegrias e tristezas diárias. Nos fechamos para elas.

O que te faz feliz?

Talvez você tenha pensado em algo que ainda não tenha, como: conquistar uma aprovação num concurso, ver os filhos crescerem com saúde, comprar uma casa, etc... Percebem que a gente tende a projetar essa felicidade?

Talvez a resposta devesse ser bem mais simples, como o que me faz feliz é estar agora escrevendo e “desnudando” minha alma como fazem os poetas. A alegria é real, é presente, é aqui e agora. Assim como o sofrimento e a tristeza.

Eles precisam ser vividos e esgotados neste instante porque daqui a pouco teremos outras alegrias e tristezas a serem degustadas. E assim segue a vida, ora doce, ora amarga, mas pulsando o agora, o instante e o presente.

Penso que a “matemática” da vida é simples e pede de nós algo também simples, como saborear cada momento que ela nos oferta, mas a gente vive lamentando o passado e ficando ansioso com o futuro.

Que tal alimentarmos nossa vida com mais emoção, sentimento, intensidade dos momentos vividos, boas energias e paz no coração?

Para que, talvez ao final da vida, possamos ter a serenidade que Gullar teve ao dizer: “Me deixem ir em paz”. Possivelmente a paz de ter vivido com intensidade seus momentos de vida.

“Que a vida só consome, o que a alimenta” (Ferreira Gullar)

Esse é o verdadeiro aprendizado.



"Ando meio cansada"

Monique Pimentel,

Essa semana mais um texto de Zack Magiezi me encanta. A beleza que o poeta tem de ler nossa alma é realmente fascinante. No texto, Zack fala da superficialidade mundana, ele retrata exatamente o que sinto.

As pessoas estão rasas. É tão difícil encontrar alguém bacana que converse sobre sentimentos, sobre reflexões, sobre algo que verdadeiramente nos toca. Parece que as pessoas “vestem sonhos da mesma marca”. E isso confesso, cansa.

Cansa porque parece que nos acomodamos a falar de outras pessoas e falar sempre com um tom crítico e quando vamos falar sobre nós, na maioria das vezes mantemos a superficialidade, projetando sonhos coletivos e despersonalizados. Estamos rasos, meus caros. E aí que mora o perigo.

Cansa porque as pessoas parecem não só vestir sonhos da mesma marca, mas se “fantasiam” do mesmo estereótipo, seguindo padrões, seguindo a maioria sem a menor reflexão sobre aquilo.

Mas há ainda uma luz no fim do túnel. Há pessoas tão intensas e tão profundas que oxigenam nossa mente e nossa vida e o cansaço fica pra trás. São aquelas pessoas que saem da mesmice e que a gente fica tão feliz em saber que não estamos sozinhos no meio da multidão.

Gente que olha nos olhos, que escuta com atenção, que fala sobre sentimentos, que tem uma vida que pulsa verdadeiramente real e não é camuflada pelas redes sociais. Gente que ainda acredita no amor, que é feliz assim “por nada”. E aí aqui preciso falar de uma amiga que nos relatava o fim do seu relacionamento e ela disse que ficou muito surpresa que as pessoas disseram a ela coisas como: “Você não tem medo de terminar sozinha?”, “Ruim com ele, pior sem ele”, “Tem muita mulher solteira e por isso temos que baixar nossos critérios quanto aos homens”.

Minha amiga falava isso com um sorriso no rosto de quem tem a profundidade necessária para não se deixar levar por comentários como esses. “As pessoas estão tão cansativas”, me disse ela, reforçando o que venho dizendo acima.

“As pessoas não olham mais para o mundo, na verdade, elas não olham mais para si mesmas, só para ambições pequenas de um futuro tão distante e eu fico aqui, apaixonada pelo hoje” (Zack Magiezi).

Posso até andar meio cansada de pessoas que só replicam e se acomodam na sua superficialidade, mas ando apaixonada também pelas possibilidades que o mundo nos dá, pelo privilégio de ter pessoas com as quais tenho muita sintonia e me fazem crer que vestir sonhos de outras marcas é tão mais fascinante.

Ando feliz.



Sobre perder

Monique Pimentel,

Li em um livro uma reflexão interessante sobre perder alguém, o autor fazia uma analogia, em que a perda de uma pessoa muito querida é comparada a perder o óculos de grau, ir a uma ótica na tentativa de achar outro e saber que não existe mais aquele óculos. “E assim, a vida se torna embaçada”, disse o autor.

Vida embaçada. Essa expressão soou forte para mim. Na verdade, penso que a cada perda, a vida deixa de ter um pouco de brilho e luz mesmo. Mas é preciso seguir, mesmo embaçada, a vida continua a pulsar.

E como fazer pra continuar? A fé, a família e os amigos são primordiais. Vi uma pesquisa que falava que o que mantém as pessoas felizes e saudáveis são os relacionamentos que elas constroem ao longo da vida. A dor é indivisível, mas o amor, o apoio e a escuta dos que amamos traz um acalento para a alma.

Uma pessoa conhecida me falava da dor imensurável da perda do seu filho e me dizia que o que a mantinha viva era justamente a fé em Deus, sua família e os amigos que se faziam muito presentes.

Outra me falava que tinha se separado e o que a reergueu diante da perda foram justamente as relações construídas. “É como ter uma caixa bem pesada para carregar, sozinha não consigo, mas com as mãos amigas que tenho, consigo levar”, me disse ela.

Tenho tantas questões e reflexões sobre essas perdas. Por que são tão drásticas para uns? Por que a vida pode parecer tão pesada para quem aparentemente não merece aquela dor? E tenho tantos outros porquês que talvez nunca se esgotem e podem refletir a minha fraqueza humana.

Mas mesmo com uma visão embaçada é preciso olhar pelas janelas dos olhos de Deus, pois ainda pulsa vida, ainda pulsa luz e amor. E há anjos lindos de Deus aqui na terra, que são lampejos dessa luz e desse amor.

Que as perdas da vida, não façam perder a si mesmo.

Que as perdas da vida, nos fortaleçam.

Que haja sempre luz para continuar e amor para pulsar.

E “saiba que forte eu sei chegar, mesmo se eu perder o rumo”.

Haverá sempre uma janela escancarada com os olhos de Deus a nos abrir caminhos.


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