Ritmando o coração!

Rafaella Domingues,

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. A poesia de Vinícius de Moraes é sempre um doce convite à reflexão. Especialmente quando escuto relatos de vida, no consultório ou no cotidiano, reveladores da sua tessitura.

Essas experiências profissionais e pessoais me levam a pensar que estamos em descompasso. Em descompasso (coletivo) com a existência. Sempre apressados, buscando algo externo a nós mesmos, não conseguimos, ou não escolhemos sentir. Existir e sentir andam em ritmos diferentes, ultimamente.

Sentir, afinal de contas, faz sofrer, é trabalhoso e nos coloca diante das nossas realidades que preferimos não desvelar. Daí a procura por soluções rápidas para aplacar as nossas angústias, daí o medo de estabelecermos relacionamentos duradouros. Podemos, no máximo, ter rápidas conexões. Assim seguimos, fora do passo, nos mantendo na superfície fugaz, especialmente as virtuais, nos contentando com apertos de mãos que não aquecem, com abraços que não acolhem e “próximos” aos ouvidos que não escutam. Somos o amor líquido anunciado por Bauman, e agora?

Solitários de nós mesmos, nos desconectamos dos sentimentos para fazer ciência, para fazer política, para construir famílias. Nos mantemos na superficialidade da pele, da maquiagem, das telas do computador, dos muros das casas e nas latarias dos automóveis. A vida torna-se uma verdadeira encenação na qual os atores são órfãos de pessoas vivas. Pais, filhos, esposos, cientistas, políticos, cada um na sua orfandade dos seus supostos ideais.

Os órfãos dos sentimentos, por sua vez, são frutos de muitos desencontros da vida e um deles é especialmente perigoso: o do amor. O amor como uma forma de cuidado, de si e do outro. O amor como a possibilidade de ser humano. Em desamor, seguimos desencontrados, robotizados, esquecidos e solitários, assistindo diariamente as cenas da intolerância em todos os seus âmbitos, da violência extrema e do medo de viver.

Até quando conseguiremos viver assim?

Quando os encontros voltarão a ser amorosos, intensos e verdadeiros?

Vinícius, para suavizar os corações e iluminar a vida, penso que por ser encontro, a vida pede trégua aos desencontros e convoca o regresso do outro, para que juntos possam tecer a sua arte, com mil fios de amor. Podemos dizer que o desencontro tem sempre uma esperança de não ser só mais não, não é? Esperançoso, ele espera por passos ritmados, sem pressa, sem medo, desejando que o humano volte a ter contato consigo e encontre motivos para continuar a caminhada, consciente de si, do que faz e como faz, ritmando o coração.


Tags: amor repensando vida
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