Quarentei, e agora?

Rafaella Domingues,

Nas andanças dos meus vinte e poucos anos, inteiramente imersa na juventude, permaneci durante muito tempo preocupada com o futuro, com as conquistas pessoais, afetivas, profissionais. A grande questão era: o que o futuro reserva para mim? Juventude, sonhos, projetos e o desejo de mudar o mundo. Isso me movia. Aqui e acolá, quando parava (coisa difícil para o jovem) imaginava o quanto demoraria chegar aos 40 anos. Quarentar levaria muito tempo. Praticamente uma vida toda!

Uma vida nem levou tanto tempo assim. Acreditem, tudo foi um dia e um pôr do sol. Uma volta de bicicleta (escondida) pelo quarteirão. Um beijo roubado. Uma carta de amor. Daquele tempo que ainda se escrevia cartas à mão (sou desse tempo!). Mas quem disse que o breve não se entrelaça com o profundo, com o intenso, com o inesquecível?

Os quarenta presentes vividos foram desenhados com muito preciosismo, diariamente, por muitas mãos. Como negar a mão de Deus? Dos nossos pais, amigos, amores? Os encontros, os afetos e os desafetos, as alegrias, as decepções, absolutamente todas as vivências construíram, desconstruíram e reconstruíram, incessantemente, o ser transitório que estamos sendo. Somos no tempo. E o tempo foi rápido, porém belo, como o pôr do sol.  

O desenho ainda está em construção e enquanto muitas pessoas brigam com a passagem do tempo, eu celebro. Acredito que é mais saudável e menos doloroso sentir, aceitar e reverenciar o seu curso. É bem verdade que sinto as mudanças provocadas em mim. A internas, são abençoadas! Conseguir caminhar com mais leveza, contemplar a natureza, escutar os pássaros, desejar o bem, sentir paz, gratidão. Já as externas, melhor nem citar, são implacáveis. Hoje já consigo compreender o incômodo gerado pelo tempo em algumas pessoas. Elas negam a idade, o corpo e a própria história. Sentem-se injustiçadas com as mudanças que o tempo provocou no seu reflexo, só enxergam o envelhecimento material, passageiro, não adaptam-se a si mesmas. Elas devem seguir cantando com Nando Reis “eu não caibo mais nas roupas que eu cabia, eu não tenho mais a cara que eu tinha, no espelho essa cara já não é minha, não vou me adaptar”.  Não se adaptam mesmo. Mas o tempo não se importa, e segue.  

Se estivermos atentos aos sinais da vida, perceberemos que o tempo ensina através da poesia, assim como fez com Almir Sater que diz “que é preciso amor para poder pulsar, é preciso paz para poder sorrir, é preciso chuva para florir. Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente”.

Para envelhecer com belezura é preciso ter coragem para entregar-se ao incerto, à vida. É preciso serenidade para aceitar o sorriso marcado pelas lágrimas e pelo amor. É preciso aceitar as marcas do tempo que se apresentam quando sorrimos. É enxergar o belo nos fios brancos. É dar passagem ao tempo.

Hoje as prioridades são outras. Sim, continuo desejando mudar o mundo, assim como desejava nos meus vinte e poucos anos. Porém, agora a mudança começa em e por mim. É viver em harmonia com as crenças, ao mesmo tempo, estar aberto para o novo. Perceber o que faz sentido, o que motiva a caminhada. É ter a certeza que de a vida é intransferível e a responsabilidade de ser quem se é, é de quem a vive. Que temos sombras, mas somos seres repletos de luz e sendo intensa, podemos iluminar os antepassados e os descendentes, se essa for a escolha.

Que a vida é sim rápida e bela como o pôr do sol, como o beijo roubado, como as travessuras da infância e que por isso precisa ser apreciada, diariamente. Afinal, cada um compõe a sua história, cada ser em si, carrega o dom de ser capaz, e ser feliz!  

Sigo quarentando, e agora?

Leveza, amor e gratidão! 


Tags: quarenta vida
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