A vida pede passagem!

Rafaella Domingues,

É verdade que “todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou...”, como nos lembra Renato Russo. O tempo passa para todos nós. Os fios brancos aparecem, as rugas dão sinal em nossos rostos, os filhos crescem. É o tempo sinalizando a sua passagem. Não temos escolha, ele passa. E com ele, a vida passa também.

Buscando parcerias com o tempo, caminhamos na sua incerteza, com a percepção de que ele está sendo perdido e reduzido cada vez mais. Passo a passo, fomos esquecendo que podemos escolher a forma como o vivenciamos e o sentido que atribuímos a ele.

E assim vivemos, com a ideia de que “não temos tempo a perder”... correndo para lugar nenhum, desejando que o tempo pare só um minuto. Nessa tentativa vã nos sentimos obsoletos de nós mesmos, no próximo segundo. As relações, ou melhor, os contatos que fazemos com o outro são rápidos, superficiais, vazios, revelando a sociedade líquida anunciada por Bauman.

Me pergunto, o que fazemos com o nosso tempo (de vida)?  

Penso, nesse instante, que temos pelo menos dois caminhos a escolher. O primeiro, nos leva a beber na fonte da mágoa (a má-água, que circula e contamina o nosso ser) e nos faz pensar em tudo que perdemos, em especial, materialmente: dinheiro, títulos, status social e algo que para muitos é o mais difícil: o vigor da juventude. Na sombra materialista, aos poucos, viramos presas da amargura, impossibilitados de mudar, de alçar novos voos, de reconhecer o belo que com certeza existe dentro de nós.

Perdemos tempo! Perdemos tempo de vida!

Podemos, por outro lado, otimistas, escolher o caminho do auto-conhecimento. Escolha sensível e árdua, justamente porque nos faz “parar”, refletir e, principalmente, sentir. Esse exercício solicita tempo. Tempo para conhecer o próprio corpo (e seus sintomas), os pensamentos produzidos, os sentimentos emergentes, as prioridades e, especialmente, a forma como atuamos no cenário da vida. Esse olhar atento possibilita o reconhecimento da responsabilidade das nossas escolhas e como elas traçam as linhas das histórias da vida humana. Da minha e da nossa vida.

Fico imaginando a riqueza do percurso, meu e seu, ao nos darmos conta de que não foi tempo perdido. De que o nosso suor sagrado semeou luz, de que a passagem valeu a pena. De que o tempo fornecido foi bem vivido, que ainda somos tão jovens para escolher a renovação das ideias, das prioridades, dos sentidos, do amor. A vida pede tempo! Tempo para ser vivida, para ser desenhada e colorida.   

A vida pede renovação, reverência, respeito!

A vida pede passagem!  


Tags: passagem repensando tempo vida
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