“Não há limites para vencer”, diz advogada com transtorno do espectro autista

Casada e mãe de uma menina de 2 meses, Nataly Pessoa conta como superou adversidades.

Rafael Araújo,
Rafael Araújo
Advogada de 33 anos contou como superou os obstáculos da Transtorno do Espectro Autista e garantiu que diagnóstico foi fundamental na sua vida.

AUTISMO-SELOCasada e mãe de uma menina de 2 meses de vida, a advogada e membro da Comissão de Pessoa com Deficiência da OAB no Rio Grande do Norte (OAB), Nataly Pessoa, é a principal personagem da segunda matéria da série de reportagens do Nominuto.com sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Durante a entrevista, ela falou sobre os desafios e a importância do diagnóstico e do apoio e amor da família para superar as adversidades inerentes do autismo.

Embora tenha sido acompanhada por psicólogos e fonoaudiólogos desde a infância, Nataly Pessoa revelou que o diagnostico aconteceu tardiamente. “Naquela época, na minha infância, eu já tinha acompanhamento de profissionais, mas eles não conseguiam fechar o diagnóstico. Acredito que hoje, com mais informações e a difusão da internet, eles estão mais atentos, mas antigamente não era assim e eu cheguei a sofrer preconceito de muita gente do meu círculo social, inclusive dos próprios profissionais”, comenta.  

Antes de ter sido diagnosticada com o TEA em meados de 2011, aos 25 anos, a advogada disse que ingressou na faculdade de Direito, ainda no ano de 2010, no entanto, acabou trancando o curso em 2012 porque estava sofrendo com bullying dos colegas de turma.

“Sofri bullying no início da faculdade porque eu tinha dificuldade de interação com a turma e a por causa disso começaram a fazer chacota comigo. Fiquei mal com a situação e acabei trancando o curso. Pouco depois disso, em 2013, veio o diagnóstico – e isso me ajudou bastante e a partir daí eu decidi voltar retomar o curso em 2013”, conta Nataly Pessoa.

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A dificuldade de socialização das pessoas que possuem o transtorno do espectro autista é um dos principais sintomas do autismo. E, isso é explicado pela psicóloga Thayná Ferreira, graduanda em Saúde Mental e Atenção Psicossocial.

“O TEA possui alguns sintomas clássicos, são eles: os movimentos motores, uso de objeto ou fala estereotipada ou repetitivos, dificuldade de estabelecer uma conversa normal e interesses fixos e altamente fixos, entre outros sintomas. Contudo, para diagnóstico é necessário uma avaliação de um psicólogo ou neurologista”, explica.

Thayná Ferreira reforça ainda que, o TEA é definido atualmente por um déficit na comunicação e no convívio social e por apresentar padrões restritos e repetitivos de comportamento – o que se assemelha ao caso retratado pela personagem desta reportagem, Nataly Pessoa.

Como foi para você descobrir que tinha o transtorno do espectro autista?

Eu fui diagnosticada já adulta pelo meu psiquiatra, que até hoje me acompanha. Desde criança eu era acompanhada por psicólogos e diversos especialistas, mas na época eles não conseguiram fechar o diagnóstico. Eu sempre apresentei comportamentos típicos de pessoas com autismo, como atraso na fala, por exemplo, eu cheguei a definir minha fala aproximadamente só aos 4 anos, mas minha mãe dizia que eu conseguia apontar o que eu queria, emitia alguns sons, mas não formava palavras. Assim, até hoje eu tenho movimentos repetitivos, com as mãos, por exemplo, principalmente quando estou ansiosa. Além de ter meus momentos de me reservar. Não é que todo autista gosta de viver isolado, mas nós temos nossos momentos reservados porque nos faz bem. E, assim, a questão de tumulto e muito barulho, não gosto, até porque nós autistas escutamos mais alto do que a maioria das pessoas e por isso ambiente tumultuado e com som alto me incomoda.

Hoje os profissionais têm muita informação e contam com a difusão da internet e por isso acredito que eles estão mais atentos e sabem mais sobre o autismo, mas naquela época não era assim. Naquela época eu cheguei a sofrer preconceito dos próprios profissionais.

Na minha adolescência eu vim para Natal e eu sofri mais, porque eu não mantinha muito contato visual com as pessoas, não tinha muitas amizades e isso foi agravando meu convívio social. Eu sofria bullying na escola porque eu ficava muito isolada nos intervalos. Eu não conseguia interagir com os colegas e por isso eles me chamavam de esquisita. E, às vezes muitos se aproximavam de mim para sugar informações, porque eu sempre fui uma boa aluna e assimilava muito rápido os conteúdos tanto na escola quanto na faculdade. Nós autistas temos uma memória fotográfica muito boa, nós captamos muito rápido as informações.

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Como o autismo afetava sua vida acadêmica e profissional? 

Quando eu comecei a faculdade de direito eu sofri Bullying. Iniciei a faculdade em 2010, quando ainda não tinha sido diagnosticada com autismo, o diagnostico veio só em 2011. Eu sempre soube que eu era diferente pelo meu comportamento, mas eu não sabia o que eu tinha. O TEA me afetou na faculdade justamente por ter dificuldades de interação com a turma, e por causa disso começaram a fazer chacota de mim, e por causa disso eu acabei trancando a faculdade. Logo depois, em 2011 eu fui diagnosticada e na sequência voltei a estudar, em 2013.  

Qual foi a importância do diagnostico para você?

Após o diagnostico a minha vida melhorou muito porque eu passei a administrar minhas crises e a me aceitar. Com isso minha qualidade de vida melhorou muito, porque agora eu sei o que eu tenho. Eu sempre soube que eu era diferente, mas quando fechou o diagnostico para mim foi um alivio. A partir daí eu passei a me informar mais sobre o TEA e comecei a conviver melhor com isso. Eu sempre digo que a família tem uma importância muito grande e a minha foi essencial porque sempre me auxiliou, seja buscando ajuda ou dando apoio e amor – e pra mim isso foi fundamental para que eu pudesse superar todos os obstáculos.

Como tem sido a vida profissional?

Eu tenho atuado na área de inclusão social, eu sou membro Comissão de Pessoa com Deficiência da OAB no Rio Grande do Norte (OAB-RN) e também atuo como advogada, de forma autônoma. E, apesar dos obstáculos do autismo, eu tenho conseguido exercer minhas atividades profissionais tranquilamente. Eu sempre digo que não há limites para quem quer vencer. Não é porque eu tenho uma deficiência que isso vai me impedir de conquistar meus sonhos.


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Tags: Advogada Nataly Pessoa Saúde Transtorno do Espectro Autista
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