Istoé: Dogmas religiosos ditam os rumos do governo Bolsonaro

Presidente transforma o governo num puxadinho das igrejas evangélicas e justifica políticas públicas com a Bíblia.

Da redação,

ISOTEISTOÉ

Fé, Deus e o Planalto

Como os dogmas religiosos estão ditando os rumos do governo Bolsonaro, que tenta substituir a Constituição pela Bíblia e aparelha o Estado para servir aos interesses dos evangélicos

Se pudesse, o presidente Jair Bolsonaro substituiria, sem pestanejar, a Constituição pela Bíblia. Apesar de dizer que o Estado é laico, mas ele é cristão, a prática do seu governo desmente essa distinção. A laicidade do Estado nunca esteve tão ameaçada de retrocesso desde os primórdios da República, como na sua gestão.

As duas esferas, a religiosa e a estatal, estão cada vez mais misturadas e o que o presidente faz é governar para tornar ainda mais tênue essa separação, que, para o bem da democracia, deveria ser respeitada como uma espécie de cláusula pétrea. Em vez disso, em nome de Jesus, Bolsonaro vai colocando seus irmãos de fé nos cargos de poder e botando suas vontades moralistas em prática. O proselitismo religioso evangélico e o messianismo invadiram a máquina estatal e passaram a contaminar as políticas públicas.

O teólogo Ricardo Lopes Dias, um missionário evangelizador, por exemplo, assumiu a chefia de uma das áreas mais sensíveis da Funai, a coordenação de índios isolados e de recente contato. Para comandar a Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes) foi nomeado um criacionista, o ex-reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Benedito Aguiar Neto. E a fé cristã também se transformou no eixo da política externa do governo, que é liderada por um católico conservador, o chanceler Ernesto Araújo. A situação anda tão exagerada que os próprios religiosos realizaram um evento para discutir a perigosa guinada teocrática brasileira.

No fim de janeiro, a Frente Inter-Religiosa Dom Paulo Evaristo Arns por Justiça e Paz reuniu-se para discutir as ameaças ao Estado laico e o aumento da intolerância no País. Participam da frente 11 denominações religiosas, incluindo vertentes de matriz africana, católicos, evangélicos, kardecistas, judeus, muçulmanos, mórmons, budistas e lideranças espirituais indígenas, entre outros. “A nossa grande preocupação agora é a manutenção do Estado laico.

A presença religiosa no Estado está ficando cada vez maior e vemos pela primeira vez um governo se apoiando em um segmento religioso para manter a esperança de continuar no poder”, afirma o pastor da Comunidade Cristã Reformada, Ariovaldo Ramos, integrante da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, que participou do encontro. “O papel da igreja é ser a consciência da sociedade e não assumir o poder, mas os atos do governo, as aproximações, as falas do presidente deixam entender que há uma preferência por um determinado grupo religioso”. No caso, trata-se dos evangélicos, tantos os tradicionais como os neopentecostais.

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VEJAVEJA

O pesadelo americano

Bate recorde o número de brasileiros ilegais que são presos na fronteira entre o México e os Estados Unidos ou despachados em voos fretados de volta para casa

O sétimo voo com brasileiros deportados dos Estados Unidos chegou ao aeroporto de Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG), na tarde de sexta-feira (6), com 55 passageiros a bordo. Desde outubro de 2019, cerca de 450 imigrantes ilegais foram devolvidos ao Brasil pelo governo Donald Trump nesses voos fretados, que custam cerca de 230.000 dólares cada um aos cofres americanos. Outros dois devem chegar ao país na próxima semana.

Reportagem da capa de VEJA desta semana mostra que o número de brasileiros deportados cresceu no último ano basicamente em razão de duas mudanças. A primeira foi nas regras americanas. Até pouco tempo atrás, quem conseguisse cruzar o Rio Grande, na fronteira entre México e Estados Unidos – rota usada pelos brasileiros – entregava-se às autoridades de lá, ingressando imediatamente com um pedido de asilo ao chegar, em uma prática conhecida como “cai-cai”. Passados vinte dias, o prazo máximo que famílias com menores de idade podiam ficar detidas, um magistrado geralmente permitia a entrada no país, desde que elas se apresentassem à Corte periodicamente, até o caso ser julgado. Na prática, abriam-¬se as portas para a imigração ilegal, pois a condição raramente era cumprida.

A prática do “cai-cai” começou a ficar mais perigosa em 2019, quando o governo Trump criou os Protocolos de Proteção ao Migrante (MPP, na sigla em inglês), também conhecidos como o programa “Fique no México”. De acordo com as novas regras, imigrantes que entraram nos Estados Unidos atravessando a fronteira sul são “devolvidos” e precisam aguardar em território mexicano a decisão sobre o pedido de asilo. Essa definição pode demorar meses, e a possibilidade de uma resposta positiva é remota: apenas 1% dos pedidos recebe aprovação. Em 29 de janeiro de 2020, a novidade nada auspiciosa: Trump incluiu os brasileiros nesse programa.

Outra mudança envolve o governo brasileiro. Em uma alteração de política em relação às gestões anteriores, o presidente Jair Bolsonaro aceitou facilitar as regras de deportação. Em outubro de 2019, o Palácio do Planalto autorizou o despacho para cá, em voos fretados, de brasileiros presos na fronteira — algo não permitido anteriormente, pois o sistema era considerado degradante para as pessoas.

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EPOCAÉPOCA

Sozinhos no mundo

A vida dos órfãos do feminicídio

“A pessoa que me disse (para não contar) foi meu pai. Que ele matou minha mãe”, narrou, chorando, Eduarda, diante dos sete jurados no tribunal. A menina tinha 8 anos quando participou como testemunha do julgamento do assassinato de Josilene Ferreira de Araújo, de apenas 23 anos, sua mãe. Com a ajuda de uma psicóloga, a menina contou o que vira naquela noite de junho de 2016, no bairro da Paz, em Manaus, onde morava a família. O testemunho de Eduarda, hoje uma menina calma, de sorriso tímido e olhos vivos, foi considerado decisivo para condenar o pai, Diego Pacheco.

“Ele deu uma facada no pescoço, depois tirou ela para botar no outro quarto e botou um lençol em cima dela. Ele botou um travesseiro na cara dela para ela não respirar”, contou Eduarda. Se tragédias como a de Josilene começaram a ser contabilizadas em 2015, quando a legislação brasileira passou a classificar como feminicídio o assassinato em que o fato de a vítima ser mulher é determinante para o crime, o drama dos órfãos dessas famílias permanece invisível. Em muitos casos, perdem ao mesmo tempo a mãe, morta, e o pai, preso pelo crime hediondo.

Eduarda e o irmão, ela aos 9 anos, ele aos 8, não estão sequer nas estatísticas, simplesmente porque inexistem dados a respeito dos filhos das vítimas. Nesta reportagem, as crianças serão identificadas com nomes fictícios para proteger ao menos sua identidade, já que o país não conseguiu proteger sua infância. A pedido de Época, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública projetou que, todo ano, os feminicídios deixam mais de 2 mil órfãos no país. A estimativa é baseada na quantidade de vítimas registradas em 2018, último ano com dados fechados, quando 1.206 mulheres foram mortas por serem mulheres — seja no contexto de violência doméstica, seja pelo menosprezo à condição de gênero, conforme define a lei que criou o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio.

Josilene foi assassinada em 2016, quando a lei do feminicídio era relativamente nova e enfrentava resistências até mesmo no âmbito de órgãos estatais. O julgamento, em julho passado, durou mais de 12 horas, sob sigilo. O depoimento de Eduarda arrancou lágrimas dos presentes.

Ao responder por que não tinha saudade do pai, durante o testemunho, a menina explicou: “Porque ele fez o mal para minha mãe”. A avó reza para que os netos superem a perda. “A lembrança fica, mas um dia a dor vai ter de passar.”

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CARTACARTA CAPITAL

Economia Infectada

O coronavírus paralisa os negócios no planeta e leva pânico aos mercados. No Brasil do PIBinho, ainda enfrentamos outra epidemia, o Bolsonavíus

Editorial: As formas de confronto, do humor à retroescavadeira, que podem tirar o Brasil do caos primevo.

Exército x Milícia: A Alemanha nazista ensina uma interessante lição ao Brasil do escritório do crime e dos generais falastrões.

Vai para Cuba!, por Guilherme Boulos e Walfrido Warde Jr:  Eles aceitaram a sugestão de visitar a ilha caribenha e contam como foi a viagem.

Governador Camilo Santana em entrevista a Rodrigo Martins: "O motim no Ceará foi obra de políticos oportunistas".

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