Época retrata a crise dos combustíveis que provocou a demissão de Pedro Parente

Presidente da Petrobras entregou o cargo após pressão política e interferências do governo.

Da redação,

EPOCAÉpoca

O apagão do gestor

Porque Pedro Parente se tornou o pivô da crise que parou o Brasil

A paralisação dos caminhoneiros esvaziou prateleiras nos supermercados, fechou postos de combustível, cancelou voos, suspendeu aulas, afetou o funcionamento de hospitais, provocou perdas econômicas ainda não totalmente contabilizadas e jogou na berlinda o presidente da Petrobras, Pedro Parente, um gestor até agora incensado como grande especialista em debelar crises.

Convidado a assumir a empresa em meio ao turbilhão da Operação Lava Jato, ainda com Michel Temer interino na Presidência, Parente vinha acumulando êxitos. O balanço do primeiro trimestre de 2018 foi divulgado como a mais bem-acabada tradução do sucesso: lucro de R$ 4,45 bilhões, revertendo prejuízo de R$ 1,25 bilhão registrado no mesmo período de 2017. Esse resultado, avaliou Parente na ocasião, contribuiria para tornar ainda mais atraentes os leilões de blocos de exploração programados para este ano. Acertou.

Os que haviam sido realizados até agora foram um sucesso, fato que promete se repetir no próximo dia 7, quando está prevista a Quarta Rodada de Partilha de Produção para venda de blocos na área do pré-sal, com participação de 16 empresas de 12 países, um recorde. Parecia que, mais uma vez, se cobriria de glória o engenheiro que enfrentou galhardamente tarefas espinhosas como a coordenação do racionamento de energia em 2001 e o comando da transição do governo FHC depois da eleição de Lula, em 2002. Mas não.

Depois de até ter sido sugerido como candidato a presidente da República no site de uma corretora, a situação de Parente ficou claudicante. Ele foi apontado por parte da direita e da esquerda como pivô da crise desencadeada pela paralisação dos caminhoneiros. Aos adversários de sempre, como a Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet) e a Frente Única dos Petroleiros (FUP), que desde o início questionam os rumos “neoliberais” da companhia, juntam-se vozes de todos os matizes ideológicos contra a política de preços praticada desde outubro de 2016, que atrelou os preços do diesel e da gasolina às flutuações do dólar e do valor do petróleo no mercado internacional. De início, com reajustes mensais. A partir de junho de 2017, com variações até diárias.

Desde essa mudança, o preço do diesel foi reajustado 121 vezes, resultando em alta de 56,5%, segundo o Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Só neste ano, o diesel subiu 38 vezes. A Petrobras pondera que é responsável por pouco mais  de 50% desse preço, e cerca de um terço do preço da gasolina. Sobre o valor obrado na refinaria, incidem impostos federais (Cide e PIS/Cofins) e o ICMS (estadual), e ainda há a margem da revenda, uma vez que a lei brasileira garante liberdade de preços no mercado de combustíveis e derivados. Isso reduz a responsabilidade da companhia sobre o preço ao consumidor e pode impedir que as variações nas refinarias cheguem até a ponta. Por outro lado, essa situação permite que os preços subam nas bombas sem que haja qualquer alteração nas refinarias.


VEJAVeja

O futuro da Petrobras

- Por que a empresa não pode ser um instrumento político de governos

- Dois presidenciáveis são a favor da privatização da estatal, cinco são contra

- 50 bilhões de reais foi o prejuízo da greve dos caminhoneiros (adivinhe quem vai pagar a conta...)

- O que acontece a partir de agora com o preço do combustível

A Petrobras e os políticos

Como um gigante pano de fundo por trás de toda a longa negociação entre governo e caminhoneiros para encerrar a greve que durou dez dias e impactou o país estava a maior estatal brasileira, a Petrobras. Irritados com as sucessivas altas no preço do óleo diesel, motoristas bloquearam 632 pontos em rodovias de vários estados (no auge dos protestos, de acordo com a Polícia Rodoviária Federal) e provocaram uma crise geral de abastecimento.

Pressionados por uma população que majoritariamente – 87%, segundo o Datafolha – apoiava o movimento, parlamentares de todas as matizes vieram a público defender uma nova mudança na política de preços praticada pela estatal, que hoje segue critérios de mercado – pressão, esta, que resultou no pedido de demissão do presidente da estatal, Pedro Parente, na manhã desta sexta-feira, 1º. É mais um episódio da longa e controversa relação entre os políticos e a gestão da empresa, utilizada diversas vezes para fins ideológicos ao longo de seus 65 anos de história.

Getúlio e ‘O petróleo é nosso’

Desde a raiz, a Petrobras tem ligação umbilical com o nacionalismo e com uma certa desconfiança de interesses de empresas e investidores externos. É a Lei 2.004, de 1953, sancionada pelo presidente Getúlio Vargas, que criou a estatal, ao mesmo tempo que dava à União, através da nova empresa, o monopólio da extração e refino de petróleo em terras brasileiras.

Essa não foi a posição inicial do governo brasileiro. Em 1948, o antecessor de Vargas, Eurico Gaspar Dutra, ensaiou um projeto de lei que permitia a participação estrangeira. A justificativa era a incapacidade técnica da indústria brasileira em executar o projeto.

Foi o gancho para o surgimento da campanha populista “O Petróleo É Nosso”, até hoje no imaginário popular, encampada por uma miríade de grupos da sociedade civil e políticos por eles influenciados. O grupo ia do Clube Militar e da União Democrática Nacional (UDN) à direita até a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), à esquerda.

Ao contrário do que ficou para a história, o próprio Vargas via o mesmo que Dutra e tinha dúvidas sobre a capacidade – e mesmo as vantagens práticas para a economia –, tanto que no primeiro formato do projeto que criou a estatal, ela não teria exclusividade sobre o petróleo. No entanto, ao perceber a pressão do Congresso, ele logo escanteou a ideia e colocou a empresa para trabalhar a seu favor: incluiu-a em seu projeto nacionalista e a exibiu ao sujar as mãos de petróleo e assinar em público o nascimento da empresa, incluído o monopólio.

O fim do monopólio e a privatização

Passado o rescaldo nacionalista dos militares, a Petrobras lentamente entrou no fluxo neoliberal dos anos 1990 e teve a sua privatização cogitada diversas vezes. O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi o mais acusado de querer vender a empresa, principalmente em dois momentos: em 1997, quando decretou o fim do monopólio; e três anos depois, com a proposta de mudança do nome comercial da estatal para “PetroBrax”.

Durante a apresentação da marca, o presidente da companhia, Henri Philippe Reichstul, afirmava que o objetivo do nome era “internacionalizar” a empresa, que, sem o monopólio, passaria a atuar a nível mundial, concorrendo com outras pelos mercados dentro e fora do Brasil. Já sindicalistas e parlamentares da oposição acusavam o governo de ensaiar a venda, enfraquecendo a imagem histórica da empresa, atrelada ao nacionalismo.

Ao final das contas, nem uma coisa nem a outra acabou mudando o panorama da Petrobras. O nome “PetroBrax” não pegou e os tucanos seguiram negando até a morte que quisessem vendê-la. Já o fim do monopólio permitiu que pequenas empresas entrassem no mercado, mas, como foi possível ver durante a greve recente, não afetou o domínio da estatal, que ainda controla cerca de 99% do mercado.

O PT e o petrolão

Apesar de escândalos e denúncias de pagamento de propina diversos registrados ao longo da história, foi durante os governos do PT que surgiu um dos maiores casos de corrupção da história, o “petrolão”, nome dado aos desvios sistemáticos cometidos na Petrobras por diretores indicados por partidos políticos.

Ao se tornar presidente, Luiz Inácio Lula da Silva nomeou para o comando da estatal José Eduardo Dutra, senador e militante histórico do PT, sucedido por outro petista, José Sérgio Gabrielli. Nas direções, nomes indicados por petistas, pelo PP e pelo MDB – partidos aliados ao governo – tinham a finalidade de ser verdadeiros arrecadadores de propina, segundo as denúncias apresentadas pelo Ministério Público Federal (MPF) no âmbito da Operação Lava Jato.

Para além da roubalheira institucionalizada, os executivos deveriam ainda privilegiar os interesses políticos – isto é, os interesses comerciais do cartel de empreiteiras que repassava milhões para os partidos – aos objetivos de negócio da Petrobras, além de direcionar as licitações. Obras e investimentos desnecessários foram feitos em detrimento de outros e da remuneração dos acionistas.

Os “intervencionistas”

Quem são, de onde vêm e a quem estão ligados os que aproveitaram a greve dos caminhoneiros para pedir a volta do regime militar

Não faz muito tempo, intervencionista era a palavra preferida de cientistas políticos e economistas para sintetizar o agônico governo de Dilma Rousseff, que intervinha no câmbio, nos preços dos combustíveis, nos juros e tudo o mais que ousasse oscilar na direção contrária à vontade presidencial. A greve dos caminhoneiros emprestou novo sentido ao termo.

Durante os nove dias que durou a paralisação, ele foi usado para identificar grupos que — presencialmente, nas estradas, ou virtualmente, pelas redes sociais — defenderam a “intervenção militar” no governo, eufemismo para “golpe”, dado que não se trata de coisa prevista na Constituição. Os intervencionistas já haviam feito algum alarido em 2015, durante as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, quando surgiram os primeiros grupos de WhatsApp destinados a demonizar políticos e enaltecer generais.

Desta vez, porém, a estridência do discurso foi amplificada pela diluição de lideranças entre os caminhoneiros e pelo fato de nenhum movimento organizado ter apadrinhado a paralisação. A categoria não é filiada à Central Única dos Trabalhadores (CUT) nem recebeu apoio de outras agremiações como o Movimento Brasil Livre (MBL) ou Vem pra Rua. Dessa forma, os intervencionistas encontraram uma avenida livre para trafegar — e aproveitaram.


ISTOEIstoé

Sob o signo do caos

Defensores da volta do regime militar, sindicalistas oportunistas e líderes trabalhistas que pedem a libertação do ex-presidente Lula se apropriaram da greve dos caminhoneiros e afundaram o País no caos. Os prejuízos econômicos ultrapassam os R$ 75 bilhões e atrasam o crescimento

Foram dias em que o País viveu sob o signo do caos, com cenas assustadoras como só se vê no cinema-catástrofe: pessoas brigando por comida nos mercados, ladrões roubando gasolina até de ambulâncias e muita gente preferindo ficar em casa a enfrentar o clima de salve-se quem puder que tomou conta das cidades. Ao menos quatro pessoas morreram em decorrência da baderna. 

A primeira vítima foi um homem que faleceu depois de ser atropelado durante um protesto na rodovia MG-010, em Minas Gerais, na quinta-feira 24. Na quarta-feira 30, o caminhoneiro José Batistella foi morto em Vilhena, Rondônia, após ser atingido por uma pedra quando tentou furar um bloqueio. O suspeito pelo ataque foi preso. Outros dois motoristas morreram ao longo da paralisação, vítimas de infarto. 

A greve dos caminhoneiros, que teve início na segunda-feira (21), deixou o Brasil sem combustível, sem alimentos, sem transporte público, sem insumos hospitalares, sem aulas. Portos não funcionaram, inclusive o de Santos, maior da América Latina , vários aeroportos cancelaram voos e terminais rodoviários refizeram as escalas de viagens porque não havia como tirar os ônibus do lugar. O que a paralisação provocou, porém, não foi apenas o desabastecimento e a insegurança. Ela ensejou o oportunismo de setores radicais que se infiltraram no movimento para espalhar o terror.

Quando finalmente os combustíveis começaram a chegar aos postos, a partir da quarta-feira e ainda de maneira muito lenta, filas imensas se formaram com motoristas angustiados e ansiosos para retomar a vida. O alívio de poder encher o tanque parecia trazer a normalidade de volta. No entanto, sobraram várias perguntas. A qual vida e a qual País retornaremos? 

Os impactos nas esferas social, política e econômica foram imensos, a maioria ainda impossível de ser estimada e que só chegará à luz de forma precisa depois de passar pela análise da história. Mas o que já é possível ser mensurado perturba. Do ponto de vista econômico, o País todo perdeu. Uma estimativa da soma dos prejuízos aponta para a cifra astronômica de R$ 75 bilhões. 

A principal reivindicação dos caminhoneiros que iniciaram a paralisação era a baixa no preço do diesel. Ainda na primeira semana de greve, lideranças dos caminhoneiros conseguiram arrancar do governo federal não só o compromisso de que o preço do diesel seria reduzido como o de que a Petrobrás só reajustaria os preços mensalmente. Estabeleceu-se uma trégua de quinze dias. Ela não durou sequer um. Nenhum caminhão deixou os bloqueios e o desabastecimento se agravou. Três dias depois, uma nova reunião de emergência realizada em Brasília selou um acordo que parecia ter encerrado de vez a paralisação. 

O preço do diesel foi reduzido em 0,46 centavos, os motoristas ficaram isentos do pagamento de pedágio dos eixos suspensos quando trafegam vazios e todas as outras reivindicações foram aceitas por um governo acuado. Também não bastou. Os bloqueios persistiram por mais quatro dias, perdendo adesão lentamente, até praticamente se esgotarem na quinta-feira (31).


CARTACarta Capital



Golpe morto, golpistas vivos


Natimorta uma funesta solução militar para a ruína exposta pela greve caminhoneira, ressurge da tumba a farsa do parlamentarismo.



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