Como alguém vira santo católico? Veja o caminho

Irmã Dulce foi canonizada neste domingo em cerimônia no Vaticano. Brasil tem outros santos.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Arnaldo Fiaschi/Estadão
Irmã Dulce, agora Santa Dulce dos Pobres, se notabilizou por seu trabalho de assistência social aos mais carentes.

O primeiro requisito para uma pessoa, religiosa ou leiga, ser canonizada e ser declarada santa católica, como ocorre com a freira baiana Irmã Dulce, canonizada neste domingo (13) pelo papa Francisco, no Vaticano, é o clamor popular em torno de sua existência. 

Um candidato a santo tem de ter alguma vinculação com a condição de ser venerado por alguma característica ou comportamento, religioso ou social, que o torne diferente entre fiéis e que atraia devoção popular. 

A partir daí, o processo de consolidação da imagem pública religiosa, que termina com a aprovação papal, depende formalmente de três condições básicas a serem consideradas pela Igreja.

Uma pessoa pode ser declarada santa por decreto do papa. “É o caso do português São Nuno de Santa Maria”, explica o frei carmelita Evaldo Xavier, um especialista em direito canônico. São Nuno também era carmelita e morreu aos 71 anos em 1431. Ele foi beatificado por decreto em 1918, mas a canonização só aconteceu quase um século depois, em 2009, pelo papa Bento 16. “Nestes casos, o papa dispensa a comprovação de milagres”, afirma o frei. 

No Brasil, é o caso também de São José de Anchieta, jesuíta espanhol que morreu em 1597, canonizado como Apóstolo do Brasil em 2014 pelo papa Francisco. Anchieta, enviado ao Brasil pela Igreja quando tinha apenas 19 anos, ordenado padre somente anos depois, quando já tinha 32 anos, foi declarado santo por ter uma vida dedicada à evangelização.

Pode-se ser santo também alguém que foi vítima de martirização em função da fé, quando igualmente são dispensados os milagres, prossegue frei Xavier. A Igreja tem casos recentes, de 2017, de reconhecimento de mártires como os padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, além do leigo Mateus Moreira, todos assassinados por soldados holandeses no século 17 no interior do Rio Grande do Norte. 

Junto com eles há ainda um grupo de 27 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, todos tornados santos pelo mesmo motivo, os Mártires de Cunhaú e Uruaçu. No último dia 2 de outubro, a menina cearense Benigna, de 12 anos, que sofreu abuso sexual no Crato, interior do Estado, foi beatificada pelo Vaticano como mártir.

Por fim, um santo pode passar a existir formalmente para os fiéis católicos pela comprovação de milagres. Com um milagre comprovado, torna-se beato. Para a canonização e posterior declaração de santidade, porém, é preciso a comprovação de um segundo milagre: é o caso de Santa Dulce dos Pobres. “O caso de Irmã Dulce foi muito rápido. Há santos que demoram séculos”, diz o especialista em direito canônico.

Na relação de comprovações exigidas pelo Vaticano para a declaração de santidade, examinadas por historiadores e especialistas em direito canônico, segundo o frei Xavier, há também a necessidade de os documentos serem redigidos em latim. “É a língua oficial da Igreja”, diz frei Xavier.

A primeira santa nascida no Brasil, em Salvador, na Bahia, com pelo menos dois milagres reconhecidos pela Igreja Católica, será canonizada no Vaticano neste domingo, 13. Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (1914-1992), o “anjo bom”, com uma vida dedicada aos pobres, será a 37ª pessoa santificada no País. O Brasil tem ainda outros 9 santos, além de um grupo de 27 pessoas, entre elas mulheres e crianças, que em 2017 foram canonizados pelo papa Francisco: os mártires de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte.


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Santo André de Soveral, Santo Ambrósio Francisco Ferro e Santo Mateus Moreira

Padre André de Soveral foi canonizado pelo papa Francisco em 2017. Nascido em São Vicente, litoral de São Paulo, era filho de portugueses. Foi assassinado por soldados holandeses em 16 de julho de 1645, um domingo, quando ministrava missa em Cunhaú, interior do Rio Grande do Norte. Com ele foram mortos fiéis, 27 deles também tornados santos. Beatificado pelo papa João Paulo 2º em 1998.

Padre Ambrósio Francisco Ferro era vigário e foi martirizado com grupo de fiéis em Uruaçu, em outubro, depois do massacre feito em julho por holandeses em Cunhaú, no RN. Mateus Moreira era leigo e foi um dos que resistiram ao ataque dos holandeses e indígenas no massacre no interior do RN. Morreu assassinado no episódio dos Mártires de Uruaçu. Foi martirizado e teve o coração arrancado pelas costas, segundo relato da Igreja.


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Santo Antônio de Sant’Ana Galvão

Santo Antônio de Sant'Ana Galvão, conhecido como Frei Galvão, nasceu em Guaratinguetá, São Paulo. É o primeiro santo brasileiro, canonizado pelo papa Bento 16, em 2007. Frei Galvão viveu na capital paulista e construiu o Mosteiro da Luz, prédio que foi declarado como “Patrimônio Cultural da Humanidade” pela UNESCO.


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São José de Anchieta

Nascido nas Ilhas Canárias, Espanha, São José de Anchieta, migrou para o Brasil quando tinha 19 anos. Participou, com o padre Manoel da Nóbrega, da fundação da cidade de São Paulo. Foi ordenado padre aos 32 anos. Foi canonizado em decreto do papa Francisco.


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Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus

Nascida na Itália, Amabile Lucia Visintainer, Santa Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, em 16 de dezembro de 1865, veio para o Brasil com dez anos. Descobriu a vocação religiosa quando tinha 25 anos. Vivia em Nova Trento, Santa Catarina. Teve vida dedicada aos doentes hospitalizados e morreu em 9 de julho de 1942, aos 77 anos, em São Paulo. Foi canonizada pelo papa João Paulo 2º, em 2002.


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São Roque Gonzáles, Santo Afonso Rodrigues e São João de Castilho

Nascido no Paraguai, em 1576, São Roque Gonzáles era jesuíta. Foi ordenado padre, aos 22 anos, e trabalhou com comunidades indígenas. Na conversão das missões jesuíticas no interior do Rio Grande do Sul, foi massacrado por tribos em 1628.

Afonso Rodrigues era espanhol, nascido em 1598. Foi canonizado como mártir pela sua atuação na evangelização dos indígenas no interior do Rio Grande do Sul. Com outros religiosos da Companhia de Jesus, fundou a redução de Caaró, município de Santo Ângelo (RS), para combater a caça aos índios para a escravidão. Foi assassinado por indígenas ligados aos Bandeirantes, contrários aos jesuítas, em 1628.

Padre João de Castilho era jesuíta, nascido na Espanha em 1595, ordenado em 1625. Trabalhava na catequese de indígenas na região de São Nicolau. Foi martirizado em 1628 em ataque de tribos contrárias à presença jesuíta no interior do Rio Grande do Sul. Todos foram canonizados pelo papa João Paulo 2º em 1988.

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