Micarla de Sousa: "Não acredito em candidaturas impostas"

Deputada estadual afirma que PV planta "semente que pode germinar para candidatura à Prefeitura de Natal" e reitera que vai pedir neutralidade a Wilma de Faria na campanha de 2008.

Marcos Alexandre,
Vlademir Alexandre
Micarla desconversa sobre candidatura, alegando esperar pelo "tempo certo"
De 2004 para cá, sua trajetória foi meteórica. Ela estreou em campanhas elegendo-se vice-prefeita de Natal. Dois anos depois, renunciou ao cargo e chegou a Assembléia Legislativa. Agora, prepara-se para dar um novo e ambicioso salto: disputar a Prefeitura de Natal. 

Embora a deputada estadual Micarla de Sousa, presidente do PV no Rio Grande do Norte, ainda não assuma a candidatura, vem trabalhando fortemente por ela há algum tempo. Está, inclusive, iniciando a formulação de seu programa de governo, etapa que começou neste fim de semana, com a realização do Fórum Natal Cidade Sustentável, que trouxe à capital potiguar lideranças nacionais do PV e autoridades internacionais em meio-ambiente e segurança pública. 

Filha do senador Carlos Alberto, falecido há quase nove anos, Micarla vem aparecendo à frente das primeiras pesquisas para a disputa da Prefeitura. Enfrenta, no entanto, o desafio de reunir outras forças políticas que fortaleçam seu projeto político. 

Nesta entrevista, a deputada fala sobre esse desafio e faz um balanço sobre os seus três anos de atuação política - "longos" três anos, como gosta de citar. Sempre com tom de candidata.


Nominuto.com - A essa altura, com as articulações para o ano de 2008 em pleno curso e também com o PV fazendo ações para formatar um plano de governo, é possível dizer que a senhora não será candidata?

Micarla de Sousa - Eu acho que todo e qualquer cidadão natalense, como eu que nasci, me criei, que crio os meus filhos, tenho minhas empresas nesta cidade, para qualquer um seria uma honra estar à frente de sua cidade, ainda mais para um político. Quando a pessoa entra para política é meio que um caminho sem volta. Então, é lógico que o fato de eu estar em primeiro lugar nas pesquisas que estão passando, o fato de eu ter sido a deputada mais votada de Natal, e de hoje eu gozar dessa confiança da maioria da população, lógico que eu não posso virar as costas, de maneira alguma, diante disso. Mas eu acredito que o caminho de 2008 ainda está sendo pavimentado. Não adianta afobamento, porque as candidaturas naturalmente vão ser colocadas. Eu, particularmente, não acredito em candidatura impostas. As pessoas que estiverem bem colocadas nas pesquisas, que tiverem uma base forte de sustentação política, certamente vão ser essas as candidatas. Não adianta, e por isso que eu digo que não tem como dizer “ah, eu vou ser candidata” ou “eu não vou ser candidata” porque eu acredito que está muito próximo de uma definição.

NM – O que está faltando, então, para essa definição, já que a senhora falou nesse caminho natural e diversos fatores apontam para sua candidatura. Diante desses fatores, insisto na pergunta: ainda há como a senhora não ser candidata à Prefeitura de Natal?

MS - Eu acho que há tempo para tudo. O livro mais admirado de toda a história da humanidade, que é a Bíblia, diz muito bem no Eclesiates que há tempo para tudo. Tempo para plantar e tempo para colher. Eu acho que nós, enquanto partido, estamos no tempo do plantio, estamos plantando aí uma semente que pode germinar no sentido de uma candidatura à Prefeitura de Natal.

NM - Em termos de plantio, como andam as conversas sobre alianças políticas do PV e, especificamente, com a governadora Wilma de Faria, de quem o partido é aliado?

MS - Eu, particularmente e partidariamente, tenho uma excelente relação com a governadora Wilma de Faria, até porque ela, há três anos, quando meu nome chegou a ser cogitado para ser prefeita e que eu tive 17 pontos percentuais nas pesquisas, foi através de um convite feito pela governadora Wilma que eu resolvi abrir mão daquela candidatura a prefeita e resolvi estar junta ao prefeito Carlos Eduardo, na candidatura do PSB, e levar meu nome como candidata a vice. Então, desde aquele momento, neste tempo que eu estou na política nesses três anos que estou na política, sempre tive a melhor relação política com a governadora e acho que vai mais além. É uma relação de harmonia, uma relação de respeito, de admiração, porque, enquanto mulher, não tenho como não admirar uma mulher que conseguiu chegar onde Wilma de Faria chegou. Precisa ter muita audácia, precisa ser muito ousada, muito talentosa, precisa ter uma sabedoria, uma sapiência muito grande para conseguir chegar até o mais alto estágio, o mais alto patamar do nosso Estado, e eu tenho certeza de que ela não vai parar por aí. Então, eu vejo da seguinte forma: a minha relação pessoal com ela é uma relação de admiração de uma mulher por outra mulher muito bem-sucedida e que a gente fica até usando de inspiração nos passos de uma mulher vencedora. Com relação ao partido, nós temos, também, uma excelente relação com a governadora. Nosso partido participa, hoje, da gestão Wilma de Faria, da gestão que é feita a várias mãos. Tem a governadora à frente, a governadora conduz dando a sua forma, o seu jeito à administração, mas consegue abrir essa administração para vários partidos estarem sendo partícipes. Então, a nossa relação também é excelente com a governadora no campo administrativo.

NM - Mas já chegaram a conversar sobre 2008?

MS - A governadora já deixou muito claro que 2008 ela só conversa em 2008. Então, eu acho que nós temos que respeitar esse tempo da governadora. Realmente, ela acabou de sair de uma campanha, não faz nem um ano que ela saiu de uma campanha, e nós temos que dar esse tempo à governadora por saber que, no momento certo, ela vai falar com os partidos aliados.

NM – Publicamente, alguns partidos e lideranças, inclusive a senhora, já declararam que esperam que a governadora tenha uma posição neutra diante da proposição de mais de uma candidatura aliada. Na hora em que a senhora sentar com ela para conversar, essa será a sua proposta?

MS - No tempo certo, quando se chegar para discutir 2008, certamente. Eu acredito que a governadora, por ser a maior liderança do nosso Estado e por ser a maior eleitora de nossa cidade, ela tem uma responsabilidade muito grande que pesa sobre os seus ombros. É a história do ônus e do bônus. O bônus é ser a maior liderança de Natal. O ônus é ela ser governadora e, neste momento, ter que ser como algodão entre cristais. Eu confio muito na forma como a governadora vai atuar e acredito que, pela forma como ela respeita os seus aliados e respeita a decisão dos seus aliados, acredito que o melhor para a governadora seria que ela realmente pudesse ficar neutra. Normalmente, Natal se divide entre governo e oposição, mas já pensou se a governadora consegue levar dois aliados dela ao segundo turno, tendo a certeza de que a Prefeitura de Natal vai continuar nas mãos de um aliado dela? Ela podendo ajudá-lo com suas idéias, com suas propostas, com a forma que ela conhece Natal, seria perfeito. Então, eu não vejo hoje, se você for analisar, todos os primeiros colocados nas pesquisas que passam em Natal são aliados da governadora Wilma. Eu tenho certeza de que ela, volto a dizer, com sua sapiência e sensibilidade, vai saber como se posicionar e, lógico, vou poder conversar com ela nesse período e poder falar sobre essa questão da neutralidade.

NM - Essa é uma questão colocada por que a governadora nunca se absteve de participar de uma campanha eleitoral, principalmente em Natal, que é a principal base política dela. A senhora acha mesmo possível que ela aceite uma proposta desse tipo?

MS - Mas as outras campanhas foram diferentes. A campanha de que ela participou como governadora tinha o prefeito Carlos Eduardo, do PSB, e todos os partidos aliados estavam ali, juntos, contra um partido que não era aliado. A única pessoa aliada que poderia ter ficado para ser uma chapa a mais seria eu, que abri mão para estar nesse projeto dos outros partidos aliados da governadora. Mas hoje é um momento completamente diferente. Os demais aliados abriram mão de indicar candidato em 2004, então eu acredito que todo mundo venha agora a buscar esse direito de poder, saindo com seus candidatos à Prefeitura de Natal. 

NM- A senhora ainda acha possível conseguir unir a base, em termos de primeiro turno, em torno de uma candidatura governista só? A senhora acredita que ela possa apoiar, por exemplo, uma candidatura do PV?

MS - É uma pergunta interessante. Eu acho que isso aí precisa muito da inteligência, do conhecimento e da sensibilidade da governadora, por que, nesse caso específico, sobre a possibilidade de uma só candidatura, é possível, sim. Agora, conseguir fazer um partido como o PT, que tem tradição, não lançar candidato? É possível conseguir fazer com que Luiz Almir, que está em segundo lugar nas pesquisas, abra mão de uma candidatura? Vai conseguir com que o PSB abra mão dessa candidatura? É difícil e eu acho que a gente tem que respeitar o momento. Se conseguíssemos que todos estivessem unidos numa só candidatura seria muito bom, mas eu acho que isso pode terminar causando algum desgaste que eu não vejo necessidade de ser provocado.

NM - Então o cenário mais provável, na sua opinião, é haver mesmo mais de uma candidatura aliada?

MS - Acredito eu.

NM - Se por um lado as conversas preliminares se passam entre a senhora e os partidos aliados, por outro lado o PV tem discutido com setores da oposição, como o Democratas do senador José Agripino, que inclusive disse estar aberto para conversas. Pode haver uma passagem do PV para a oposição, na eleição de 2008?

MS - Quero deixar uma coisa bem clara: não existe isso. O que existe é que eu acredito que todo e qualquer partido que tenha um projeto político não pode se fechar. O partido não pode fazer como uma ostra que está ali fechada, porque todo e qualquer partido político que prevê e tem como foco um projeto político de curto, médio ou longo prazo, precisa exercitar a principal característica da arte de fazer política, que é a conversa. E nesse sentido, além de uma admiração pessoal que tenho pelo senador José Agripino, por todo o trabalho que ele vem fazendo como líder da oposição do nosso país, essas conversas estão sendo feitas às claras. Quanto mais, não só em quantidade, mas em qualidade, nós pudermos trazer esse projeto para Natal e expandir isso para outras cidades no interior, é fundamental não só para o crescimento do nosso partido, como para que o nosso projeto possa ganhar, a cada dia que passa, mais corpo.

NM- Como estão sendo os contatos com o senador José Agripino? Isso pode evoluir para uma aliança?

MS - Isso não é exclusividade do Partido Verde. A gente sabe de conversas do PT com outros partidos, a gente sabe de conversas do PSB, até mesmo já se cogitou a possibilidade do PSB estar junto com o PMDB, numa reaproximação. Primeira coisa: tem que haver respeito de uma sigla pela outra. Isso acontece no Partido Verde com relação, hoje, ao Democratas e sua atuação no Rio Grande do Norte. Se eles quiserem estar conosco nessa empreitada do Partido Verde, serão muito bem aceitos.

NM- Em relação a propostas, o que o Partido Verde está pensando para Natal?

MS - Esse Fórum Natal Cidade Sustentável é uma oportunidade muito interessante que o PV criou para podermos discutir os assuntos da cidade, mas não só olhando para nosso próprio umbigo. Esse é o primeiro fórum, que será mensal e vai tratar de temas específicos em relação a essa sustentabilidade, o que vai nos proporcionar um intercâmbio de idéias e de opiniões com o que há de melhor no mundo, no Brasil e no nosso Estado. Muitas vezes existem políticos que contratam empresas que fazem projetos de governo e plano de ação e ali assinam, vai para o horário eleitoral e acaba sem nenhuma serventia. Nós queremos trazer exemplos de sustentabilidade de cidades, Estados e países onde ações foram tomadas de forma positiva e trazer para cá. Se formos olhar e analisar, quais são os principais problemas de Natal? Saúde. Então, como resolver esse problema de saúde, que é um problema nacional? Como resolver um problema de segurança pública? Como resolver o problema do transporte público? Eu tenho minhas idéias, companheiros e militâncias têm outras e nós estamos sempre discutindo. Não vai ser só a minha idéia. Vou lutar para que essas e outras idéias entrem no plano de governo do PV para a cidade.

NM — A senhora é uma política jovem, inclusive na carreira. Esperava ter a trajetória que teve até agora ou algo fugiu aos seus planos?

MS — Esses meus longos três anos na política... Entrei na política e estava grávida, vivendo um momento pessoal muito interessante, o momento mais brilhante que uma mulher pode ter. Mas desde que fiquei grávida do Kalis, essa questão da política começou a ficar muito forte dentro de mim. Pode parecer piegas, mas quem é mãe sabe exatamente o que estou falando: aquela sensação de “que mundo estou deixando para os meus filhos”. E aí junta com a herança genética, de ter todos os cafés-da-manhã, almoços e jantares em casa. Sempre participei de forma muito ativa da política. Meu pai sempre gostou que eu estivesse próxima dele, participando, ajudando e isso acabou pesando. Mas sempre fiquei nos bastidores. Então, juntou a isso uma pesquisa que nos fazia ter uma responsabilidade, mostrando que os natalenses queriam alguém que tivesse um perfil jovem, fosse mulher e não tivesse a política como meio de vida. A partir disso, entrei na política, mas muito com o coração, sem saber o que me esperava pela frente. Confesso que todos esses passos que estão sendo dados são coisas que acontecem de forma muito natural na minha vida e que estou aceitando. Não estou impondo nada a mim mesma. Por exemplo, deixei de ser vice-prefeita — algo que eu não imaginava —, venci (a eleição para deputada estadual), fui a mais votada de Natal, estou gostando muito do aprendizado que estou tendo na Assembléia Legislativa, junto com meus colegas parlamentares, ex-governadores, ex-deputados federais. O próximo passo vai ser a Prefeitura? Pode ser. Se chegarmos à Prefeitura, será mais um aprendizado, mais um passo nesse caminho.
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