Escândalo dos “Gafanhotos” começou a ser descoberto no Seridó

Servidores públicos de município seridoense descobriram em 2003 que foram usados como “laranjas” por prefeito e deputado.

Josenildo Carlos,
Cedida
Ex-deputado Dadá Costa era aliado de Fernando Freire.
O escândalo dos “Gafanhotos”, como ficou conhecido o esquema de desvio de recursos dos cofres estaduais durante o governo Fernando Freire, começou a ser descoberto em 2003.

Naquele ano, alguns servidores da Prefeitura de São José do Seridó, distante 28 km de Caicó, receberam notificação da Receita Federal dizendo que os valores declarados ao Imposto de Renda não correspondiam com os ganhos correspondentes aos cargos em que apareciam ocupando no Governo do Estado.

Eles foram informados pela Receita que teriam ocupado cargos na Governadoria e em algumas secretarias de estado em períodos que variavam de 1999 a 2002.

Fazendo a ligação dessas notificações com uma coleta de dados feita pelo então prefeito Bosco Costa, de São José do Seridó, eles descobriram que serviram de laranjas para que outras pessoas recebessem salários usando seus nomes.

Na época, o prefeito pediu dados desses servidores alegando que uma futura gratificação salarial estaria por vir, pelo fato de eles possuírem nível superior de estudo. Contudo, essa gratificação nunca veio e o assunto caiu no esquecimento.

Com a descoberta da fraude, segundo consta no inquérito instaurado pela Polícia Civil, algumas dessas pessoas procuraram o Ministério Público e outras teriam feito acordo financeiro com o então prefeito para não denunciarem o caso.

As investigações da Polícia Civil descobriram que o prefeito repassou os dados dos servidores para o irmão, o então deputado estadual Dadá Costa, aliado do governador Fernando Freire. Na época, Delânia Melo de Medeiros, presa ontem (7) por ordem judicial, trabalhava com o deputado.

Dadá e Bosco Costa são irmãos do suplente de deputado Vivaldo Costa, que hoje ocupa vaga na Assembléia Legislativa.

Os servidores públicos de São José do Seridó serviram como “laranjas”, foram envolvidos no escândalo dos “Gafanhotos” inocentemente. Todavia, a maioria das pessoas que recebia as gratificações sabia do que acontecia, como apurou as investigações do delegado da Defesa do Patrimônio Público, Júlio Rocha.

O delegado esteve em Caicó em julho passado. Veio ouvir pessoas que tinham seus nomes na lista dos gratificados. Ele revelou que eram 42 pessoas espalhadas pelas cidades de Natal, Caicó, Acari, São José do Seridó, Jardim do Seridó, Jardim de Piranhas, Ouro Branco, Parelhas e até São Bento, no sertão paraibano.

Apesar de não ter acesso à lista, o Nominuto.com descobriu o nome de duas pessoas influentes que recebiam gratificação. Consta na lista o atual vice-prefeito de Ouro Branco, Amariudo dos Santos Silva.

Também é encontrado lá o nome de Oscarina Torres, esposa do ex-prefeito de Caicó, Manoel Torres. A ex-primeira dama, de 82 anos de idade, não foi ouvida. Enviou atestado médico alegando mal de Alzheimer.

O delegado lembrou que os envolvidos poderiam ser indiciados no artigo 312 do Código Penal, por peculato, que é o funcionário público apropriar-se de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio. Se condenados, podem cumprir pena que varia de dois a doze anos de reclusão e multa.
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