Citação a Bolsonaro em caso Marielle pode levar investigação ao STF

Segundo 'TV Globo', porteiro diz que envolvido no crime falou que visitaria a casa do então deputado.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Adriano Machado/ Reuters
Após divugação da matéria no Jornal Nacional, Bolsonaro atacou a emissora e disse não ter motivos para matar ninguém.
Uma citação ao presidente Jair Bolsonaro no depoimento de um porteiro do condomínio Vivendas da Barra, onde morava Ronnie Lessa, um dos dois acusados de matar a vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson Gomes, poderá levar a investigação ao Supremo Tribunal Federal (STF) devido ao foro por prerrogativa de função.

Segundo reportagem exibida nesta terça-feira (29) no Jornal Nacional, da TV Globo, o empregado afirmou à Polícia Civil que, às 17h10 de 14 de março de 2018 (horas antes do crime), um homem chamado Elcio (que seria Elcio Queiroz, o outro acusado pelo duplo homicídio) entrou no condomínio dirigindo um Renault Logan prata e afirmou que iria à casa 58, que pertence a Bolsonaro e onde morava o presidente.


De acordo com a TV, o porteiro do condomínio afirmou em depoimento que ligou para a casa 58 e o “seu Jair” atendeu e autorizou a entrada de Elcio. O então deputado, porém, estava em Brasília, conforme registros da Câmara.

Após a exibição da reportagem, Bolsonaro acusou o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC) de vazar para a Globo o inquérito sobre a morte de Marielle e Anderson, que corre em segredo de Justiça. “Por que querem me destruir? Por que essa sede de poder, seu governador Witzel?”, questionou o presidente, visivelmente nervoso, em uma transmissão ao vivo de 23 minutos, gravada durante a madrugada na Arábia Saudita e exibida em suas redes sociais. “O senhor (Witzel) quer destruir a minha família para chegar à presidência da República.”

Em nota, divulgada em suas redes sociais, Witzel lamentou a manifestação do presidente, que classificou como “intempestiva”, e disse que foi atacado injustamente. “Jamais houve qualquer tipo de interferência política nas investigações conduzidas pelo Ministério Público e a cargo da Polícia Civil”, disse o governador.

“Não transitamos no terreno da ilegalidade, não compactuo com vazamentos à imprensa. Não farei como fizeram comigo, prejulgar e condenar sem provas”, escreveu. “Hoje, fui atacado injustamente. Ainda assim, defenderei, como fiz durante os anos em que exerci a Magistratura, o equilíbrio e o bom senso nas relações pessoais e institucionais.”

Há um ano e seis meses, Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados em circunstâncias que ainda não foram completamente esclarecidas. Em setembro, a então a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu que o caso passe a conduzido em âmbito federal, o que será analisado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). 

De acordo com a reportagem, o porteiro do condomínio na Barra da Tijuca afirmou à Polícia que acompanhou a movimentação do carro, pelas câmeras de segurança. Constatou, segundo ele, que Elcio não foi à casa 58, mas sim à 66, onde morava Ronnie Lessa – preso, assim como Elcio, em março deste ano, sob acusação de disparar os tiros que mataram Marielle e Anderson, enquanto Elcio dirigia o carro.

O funcionário contou à Polícia que, ao constatar a mudança de destino do visitante, ligou novamente para a casa 58 e novamente “o seu Jair” teria atendido e afirmado que sabia para onde Elcio estava indo.

No mesmo dia e horário indicado pelo porteiro, no entanto, Jair Bolsonaro registrou presença com as digitais na Câmara dos Deputados, onde exercia o mandato de deputado federal. Nesse dia, participou de duas votações na Casa e divulgou vídeos e fotos, tiradas em seu gabinete na capital, nas redes sociais.

Segundo a reportagem da TV Globo, as conversas pelos interfones do condomínio em que Bolsonaro tem casa no Rio são gravadas. A Polícia Civil do Rio tenta localizar essas gravações para descobrir se o porteiro realmente fez contato com a casa de Bolsonaro e quem atendeu o interfone.

Ainda segundo a TV Globo, integrantes do Ministério Público do Estado do Rio, que acompanham a investigação sobre a morte de Marielle Franco foram a Brasília, no último dia 17, para consultar o presidente do Supremo, Dias Toffoli, sobre a continuidade da apuração. Eles queriam saber se, por causa da citação a Bolsonaro, não seria obrigatória a autorização do STF para que a investigação continuasse, já que o presidente possui foro privilegiado.

Consultada pelo Estado, a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República não se manifestou sobre o caso até a publicação deste texto.

Bolsonaro rechaçou qualquer envolvimento com a morte de Marielle. “Não devo nada a ninguém. Não tenho o menor motivo para mandar matar quem quer que seja”, afirmou na transmissão ao vivo.

O presidente também atacou a TV Globo: “Será que a Globo quer criar um fato, uma narrativa, de que eu deveria me afastar?”, questionou. “Deixem eu governar o Brasil. Vocês perderam.”

Bolsonaro reclamou da quebra do sigilo da investigação. “Se vocês tivessem o mínimo de decência, por saber que o processo corre em segredo de Justiça, não poderiam divulgar”, afirmou. “Eu não deveria perder a linha, sou presidente da República, mas confesso que estou no limite com vocês (Globo).”

Ao Jornal Nacional, o advogado Frederick Wassef, que representa Jair Bolsonaro, negou a versão do porteiro e afirmou que se trata de uma tentativa de atingir o presidente. Segundo ele, Bolsonaro não conhece os acusados pela morte de Marielle. Wassef desafiou que provem o contrário e afirmou que o depoimento pode ter sido forjado.

Em nota, a TV Globo afirmou, em nota, que "não fez patifaria nem canalhice". "Fez, como sempre, jornalismo com seriedade e responsabilidade. Revelou a existência do depoimento do porteiro e das afirmações que ele fez. Mas ressaltou, com ênfase e por apuração própria, que as informações do porteiro se chocavam com um fato: a presença do então deputado Jair Bolsonaro em Brasília, naquele dia, com dois registros na lista de presença em votações."

"O depoimento do porteiro, com ou sem contradição, é importante, porque diz respeito a um fato que ocorreu com um dos principais acusados, no dia do crime. Além disso, a mera citação do nome do presidente leva o Supremo Tribunal Federal a analisar a situação", acrescentou. "A Globo lamenta que o presidente revele não conhecer a missão do jornalismo de qualidade e use termos injustos para insultar aqueles que não fazem outra coisa senão informar com precisão o público brasileiro. Sobre a afirmação de que, em 2022, não perseguirá a Globo, mas só renovará a sua concessão se o processo estiver, nas palavras dele, enxuto, a Globo afirma que não poderia esperar dele outra atitude. Há 54 anos, a emissora jamais deixou de cumprir as suas obrigações."

Cronologia

14 de março de 2018

A vereadora Marielle Franco, de 38 anos, e o motorista Anderson Gomes, de 39, são assassinados a tiros no Rio.

Março de 2019

O PM reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Queiroz são presos, acusados de participação direta no crime.

Setembro de 2019

PGR denuncia à Justiça o crime de obstrução à investigação e pediu a federalização do inquérito, alegando “ineficiência” na investigação na esfera estadual.

Tags: Política
A+ A-