Adelmaro Cavalcanti: “PT é página virada”

Secretário de Saúde afirma que não tem mágoa do Partido dos Trabalhadores, estuda convite de outras legendas e sinaliza com candidatura à Assembléia em 2010.

Gabriela Barreto e Marcello Xavier,
Fotos: Vlademir Alexandre
Secretário anuncia aumento de R$ 10 milhões nos repasses do SUS ao estado
O natalense Adelmaro Cavalcanti Cunha Júnior, 50 anos, é médico anestesiologista. Secretário estadual de Saúde, ele esteve no olho de uma crise entre o Partido dos Trabalhadores e integrantes do governo Wilma de Faria no início do ano. Vítima do chamado “fogo amigo” terminou expulso dos quadros petistas. Mas acabou ficando no cargo.

Na semana passada Adelmaro esteve em Brasília com o ministro José Gomes Temporão e voltou com promessas de mais recursos para a saúde pública no Rio Grande do Norte. A principal reivindicação, o aumento do teto dos repasses do Sistema Único de Saúde (SUS), hoje em R$ 14 milhões, será atendida pelo governo federal.

Nesta entrevista exclusiva ao
Nominuto.com, o secretário detalhou os novos programas federais que serão criados no RN, falou das ações do governo estadual e das estratégias de combate à dengue, além de política.

“Não vou permitir nem conviver com problemas ideológicos e nem deixar a população desassistida. Minha meta é melhorar o sistema público de saúde”, afirmou Adelmaro.

A respeito da reforma do secretariado, demonstrou tranqüilidade e disse que fica no cargo até quando a governadora quiser: “O cargo é de confiança da governadora.”


Nominuto.com – O senhor esteve esta semana em Brasília com o ministro da Saúde (José Gomes Temporão). Saiu de lá com novas promessas ou com garantias?

Adelmaro Cavalcanti –
Estivemos com o ministro José Gomes Temporão para tratar sobre as demandas do Rio Grande do Norte porque o orçamento da União está fechado e é nesse momento que os recursos começam a ser liberados. O teto financeiro para o Rio Grande do Norte, hoje em R$ 14 milhões, terá mais R$ 10 milhões. Assim, tem um aumento de quase 70%. Isso resolverá os problemas emergenciais. Os problemas de financiamento só serão solucionados quando a tabela do SUS (Sistema Único de Saúde) for corrigida. A correção da tabela está condicionada à aprovação da Emenda Constitucional 29 pelo Congresso Nacional. Ela regulamenta que do total arrecadado em impostos 10% ficam com a União, 12% com os estados e 15% para os municípios.

NM – Geralmente os investimentos anunciados pelo governo federal para o Rio Grande do Norte acabam não sendo cumpridos. O senhor acredita que esse investimento vai sair?

AC –
O investimento do governo federal em 2007 era da ordem de R$ 28 milhões. Esses recursos serviriam para cuidar da estrutura dos nossos hospitais, qualificar pessoal, investir em diversos municípios, fortalecer os pronto-atendimentos e programas de endemias e prevenção e promoção. Mas esses investimentos foram cortados pelo Ministério da Saúde, caindo para R$ 7 milhões e, mesmo assim, esse valor ainda não foi liberado para o estado. O governo federal esperava a prorrogação da CPMF. No entanto, a não prorrogação da CPMF nos prejudicou. Hoje há um novo ânimo no sentido que a Emenda 29 possa reverter essa situação.

NM – Quais projetos estão previstos para 2008 dentro dessa nova realidade?

AC –
Vamos ter no Rio Grande do Norte o “Olhar Brasil”. É um programa do Ministério da Saúde que prevê assistência oftalmológica, com prevenção do glaucoma e outros problemas. O objetivo é ir às escolas e ajudar a acabar com a evasão escolar em virtude de doenças oculares nas crianças. O governo federal está implantando ainda este ano o “Mais Saúde”. Isso será feito em todos os estados. O “Mais Saúde” vai atender as necessidades dos municípios e consolidar o programa de regionalização e descentralização do atendimento da saúde e resultando no esvaziamento dos nossos hospitais de urgência e emergência.

NM – Com a suspensão do atendimento básico no Hospital Walfredo Gurgel, a população tem sido encaminhada aos postos municipais. Porém, não consegue atendimento, retornando ao hospital. Como o governo do estado pode ajudar as prefeituras municipais a dar solução para o atendimento? 

 
"Teremos o apoio do Ministério da Saúde no combate ao dengue no RN"
AC – O Walfredo hoje passa por um processo único de diminuição do atendimento ambulatorial, que caiu quase 50%. Tomamos medidas dentro daquela unidade de só atender urgência e emergência, pois o atendimento ambulatorial representava 70% dos procedimentos. Mas tomamos essas medidas não de uma forma radical, de desassistir a população, mas de uma forma educativa. O cidadão chega ao Walfredo, é atendido e orientado que da próxima vez procure uma unidade de saúde. Compreendemos que na maioria dos casos, as unidades de saúde não estão prontas nem tem profissionais suficientes para atender a população. Mesmo assim, numa articulação com os demais municípios e Natal, estamos fazendo um trabalho com o intuito de melhorar esses atendimentos. O aumento do teto de R$ 10 milhões será aplicado justamente na recomposição dos municípios e no tratamento emergencial dos problemas de saúde.

NM – O que o governo do estado tem feito para evitar uma nova epidemia de dengue? O Rio Grande do Norte é o segundo estado do Nordeste com maior número de casos da doença.

AC –
Procuramos trabalhar com os indicadores e notificar todos os casos de dengue. Mas temos hoje no estado uma sub-notificação, pois muitas vezes os nossos serviços públicos e privados não notificam ou não pedem os exames laboratoriais necessários para diagnosticar que o paciente está com dengue. A notificação é fundamental para fortalecermos nosso trabalho de combate à dengue. E o governo federal tem nos dado apoio também. O coordenador do serviço de endemias do Ministério da Saúde, Gerson Pena, anunciou que vai deslocar mais quatro carros de fumacê para o estado, além dos dezessete que já temos aqui, para dar cobertura total. Iniciamos uma campanha publicitária que envolve a população. Lançaremos uma campanha educativa dentro das escolas, com cartilhas para as crianças. E vamos fazer campanha junto às empresas.

NM – Em relação à política, o senhor esteve recentemente no centro de uma crise entre o PT, seu ex-partido, e integrantes do governo Wilma. Qual foi o motivo?

AC -
Criticar é fácil. Mas não me abalei por convicção. Tivemos muitas reuniões no partido para discutir qual o modelo de assistência deveríamos adotar. Nossa lógica era a do fortalecimento dos servidores, das unidades de saúde e a não relação com a iniciativa privada e cooperativas médicas. Mas temos uma realidade no estado. Realidade que não nos permite deixar a população desassistida. Essa relação (com as cooperativas) não acontece por desejo nosso, mas pela deficiência histórica na saúde. Isso provocou tensões e levou a uma crise com o PT.

NM – No auge da crise, o senhor foi vítima do chamado fogo amigo e recebeu duras críticas de então companheiros de partido. Em algum momento pensou em pedir demissão da Secretaria de Saúde?

AC -
Não. Assumi primeiro como secretário-adjunto. Ruy Pereira era o secretario. Fomos indicados pelo PT numa composição com o governo da professora Wilma de Faria. Assumi a secretaria quando Ruy saiu para ser suplente de Fernando Bezerra (PTB) na disputa pelo Senado (2006). Estou secretário por entender que posso melhorar a qualidade da assistência à saúde. Tenho uma história de vida na saúde pública, como presidente do Sindicato dos Médicos e de outras entidades. Meu compromisso é com a saúde da população.

NM – Saiu magoado do PT, partido do qual era militante histórico?

AC -
Durante todo o tempo em que estive filiado cumpri todas as missões delegadas pelo partido. Mas não levo magoas. Levo muito respeito de todos aqueles que fazem o PT. Mas essa parte da minha militância do PT é página virada.

NM – Ficou mais fácil trabalhar com o PT fora da secretaria de Saúde?

AC -
Não é o PT. Tenho o maior respeito pelo PT e gosto do PT apesar de ter saído. Sei da responsabilidade do PT como gestor público. Não houve problema da interferência do partido, mas de algumas pessoas que assumiram coordenações na secretaria de Saúde. Elas tinham uma concepção diferente da minha. Esse conflito não tem a ver com o PT, mas de alguns coordenadores. Superamos isso e hoje a equipe é técnica e as pessoas estão estimuladas e otimistas quanto ao trabalho feito.

NM - Mas a Secretaria de Saúde contratou uma cooperativa de médicos para o Hospital Tarcísio Maia, em Mossoró, pouco tempo depois que o PT decidiu entregar a pasta. E a contratação de cooperativas para a saúde era umas das práticas “abominadas” pelo partido.
AC -
Não vou permitir nem conviver com problemas ideológicos em torno das formas de contração e deixar a população desassistida. Um único dia sem neurocirurgião significa a morte de pacientes. Então, de imediato, tivemos que contratar as cooperativas. É a modalidade mais correta para contratar? Não. O mais correto é o concurso público que estamos realizando. O que não posso é deixar a população sem atendimento.

NM – A governadora Wilma de Faria promoverá uma reforma no secretariado em função das eleições. O senhor sai ou fica no cargo?

AC -
Estou no governo para servir ao governo. É um cargo de confiança da governadora. Quando ela achar necessário fazer as mudanças na secretaria, ela vai mudar. Ela tem esse direito e serei obediente a essa decisão da governadora. Na crise, disse que ficaria até o momento que ela quisesse a minha presença. Não tenho amor a cargos.

NM – Pretende se filiar a algum partido político?

AC -
Tenho uma meta: a de melhorar o sistema público de saúde. 

 
"Na vida política, não tenho desejos pessoais. Cumpro missões"
NM - Mas recebeu convites?

AC -
Sim, recebi. Mas sempre que são feitos coloco que minha disposição, minha missão, é colocar minhas energias e da equipe para que possamos dar respostas às necessidades da população.

NM – Pensa em disputar algum cargo eletivo em 2010, como deputado?

AC -
Nunca na vida política me coloquei com desejos pessoais. Tanto que assumi todas as missões delegadas pelo PT. Nas ultimas eleições para a prefeitura de Natal me convocaram para ser vereador, com perspectivas de sucesso. Quando o partido me convocou para ser vice da deputada federal Fátima Bezerra, mesmo numa candidatura com dificuldades naquele momento, não me abstive. Topei a luta. Então, onde estiver, no partido que estiver, quando convocado para as missões, irei assumir essas missões partidárias.
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