Insegurança em Mossoró: policiais evitam entrar em “locais de risco”

Dependendo do horário, a polícia procura evitar adentrar em favelas como Malvinas, Pantanal, Tranquilim e do Fio. Efetivo pequeno dificulta ação policial.

Fred Carvalho,
Fred Carvalho
População de Mossoró cresceu, mas número de policiais é o mesmo de anteriomente
Mossoró vive uma situação contrastante. Se por um lado o crescimento da segunda maior cidade do Rio Grande do Norte é bom para o desenvolvimento da economia, fortalecida pelo petróleo, por outro passa a ser preocupante em relação à segurança pública. O problema é que o investimento nessa área não acompanhou a evolução da cidade, que cresce a cada dia — tanto demográfica, quanto economicamente.

O momento é delicado. Assaltos são registrados diariamente. A droga, principalmente o crack, virou rotina. Assassinatos acontecem com cada vez mais frequência. Esse quadro faz com que a população passe a conviver com um clima de insegurança constante.

“Há 12 anos, Mossoró tinha uma população seis vezes menor e a quantidade de policiais militares nas ruas hoje é a mesma daquela época. Se a população cresce, o efetivo policial deve crescer, no mínimo, na mesma proporção”, diz o advogado Evânio Araújo, que há vários anos atua na área criminal na cidade.

O promotor público Armando Lúcio Ribeiro, que desde 1992 trabalha nas varas criminais de Mossoró, vai mais adiante. “Como não há um efetivo suficiente, há momentos em que nossos policiais se veem obrigados a desistir de ações. É rotineiro uma guarnição abandonar uma perseguição quando os criminosos adentram em locais de risco”, cita o representante do Ministério Público.

Esses “locais de risco” aos quais se refere o promotor Armando Lúcio são favelas que “incham” cada vez mais todos os dias. Malvinas, Pantanal, Tranquilim e do Fio são exemplos.

“Um policial tem que sempre preservar primeiro a vida dele. Se ele não se protege, não serve para proteger a sociedade. E ele está certo quando abandona uma perseguição quando chega a uma favela. Isso porque, na maioria das vezes, são apenas três policiais na viatura. Se eles entrarem na favela, terão que enfrentar um número bem maior de pessoas armadas e passariam a ser alvo fácil”, lembra Armando Lúcio Ribeiro.

Ainda de acordo com o promotor público, um desses “abandonos de perseguição” se deu recentemente. “Faz poucos dias que o pessoal da Delegacia de Narcóticos teve que desistir de uma perseguição porque os bandidos conseguiram fugir e entrar em uma favela. Prudentemente, eles voltaram para delegacia sem lograr êxito na ação”.

A equipe da Delegacia Narcóticos (Denarc) de Mossoró, segundo Armando Lúcio, é composta por apenas um delegado e dois agentes. A população da cidade, segundo o recenseamento de 2007, é de 234.390 habitantes.

O problema da falta de efetivo registrado na Denarc também ocorre nas demais delegacias da cidade – de Furtos e Roubos (Defur), de Atendimento ao Adolescente Infrator (DEA), de Atendimento à Mulher (Deam), 1º e 2º Distritos Policiais e ainda a Delegacia Regional. O quadro também é semelhante na Polícia Militar.

Com essa situação, a população se sente acuada. “Tenho 28 anos e desde que nasci moro aqui em Mossoró. Essa cidade era pacata até há uns cinco anos. Mas com a chegada maciça do crack, Mossoró se transformou. Todos vivemos com medo. Todos os dias sabemos de assaltos ou furtos cometidos não só no Centro, mas também nos bairros residenciais. E não é só isso. Se fizermos uma média, acho que a cada dois dias pelo menos uma pessoa é assassinada aqui, o que é um número elevadíssimo”, falou o comerciante Rodolfo de Góis Fernandes, dono de uma lanchonete no Centro.

Para todos os entrevistados, a solução para esse problema está no investimento em segurança pública, no aumento do efetivo policial com qualificação, do número de viaturas, de armamento e munição. “Isso é óbvio. Só falta a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social cumprir a obrigação dela”, concluiu o promotor Armando Lúcio Ribeiro.
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