Estudantes, líderes sociais, religiosos e sindicais protestam contra governo

Manifestações ocuparam ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belo Horizonte.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Rahel Patrasso/Reuters
Entidades educacionais e movimentos sociais se reúnem na Avenida Paulista para protestar contra o presidente Jair Bolsonaro.

No mesmo horário em que começavam os desfiles de 7 de Setembro, no Parque do Anhembi, em outro ponto de São Paulo tinha início a concentração convocada por diversas lideranças de movimentos sociais e sindicais. Entre as palavras mais ouvidas estavam “Fora Bolsonaro” e “Lula livre”.

Os organizadores, entre os quais União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), haviam conclamando os participantes a vestirem roupas pretas, em sinal de luto. Mas, além do preto, o vermelho - geralmente associado à esquerda -também predominava nos trajes. Da Praça Oswaldo Cruz, por volta das 11h30, o público saiu em cortejo pelas avenidas Paulista e Brigadeiro Luís Antônio, até o Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera.

De acordo com a Polícia Militar, o movimento reuniu cerca de 500 pessoas. Segundo o coordenador da Central de Movimentos Populares, Hugo Fanton, um dos motes do encontro deste ano, que é realizado anualmente, foi “Esse sistema não vale”, numa alusão aos desastres ambientais causados pela mineradora Vale em Brumadinho, Minas Gerais.

Além de UNE e Ubes, participaram do ato na capital paulista políticos do PT e do  PSOL, centrais sindicais como CUT, Confederação dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e o Movimento dos Sem-Teto (MST). “São diversos movimentos sociais e sindicais, do campo e da cidade”, afirmou Fanton.

O vereador Eduardo Suplicy (PT) compareceu vestindo preto. Ele disse que ficou feliz em encontrar o neto Teodoro Suplicy, de 16 anos, entre os presentes. “É importante que os jovens estejam unidos com os veteranos".

​Sob as árvores do Parque do Ibiraquera, a professora Leila Oliveira e a ambientalista Simone Oliveira compareceram à manifestação do Grito dos Excluídos trajando preto. Leila diz que veio “para relembrar “, já que em 1992 participou das manifestações dos “cara pintadas”, protestos contra o então presidente Fernando Collor de Mello. De acordo com Simone, os movimentos estão aumentando, mas ainda “falta engajamento”. “Manifestação nas redes sociais não é o suficiente”, emenda Leila.

Rio de Janeiro

Centenas de manifestantes tomaram parte da Avenida Rio Branco, uma das principais vias do Centro do Rio de Janeiro, em protesto contra o governo de Jair Bolsonaro. O 'Grito dos Excluídos' acontece há 25 anos, nos dias de comemoração da Independência do Brasil. Neste ano, os participantes vestiram roupa preta, para se contrapor ao presidente, que convocou seus apoiadores a usarem as cores verde-amarela neste dia 7 de setembro.

A concentração do protesto começou por volta das 9h, nas proximidades da Avenida Presidente Vargas, na região central, onde desfilam os militares. Concluído o desfile oficial, por volta do meio-dia, os manifestantes seguiram em direção à Praça Mauá.

 "A principal bandeira da manifestação é que nada nesse sistema tem solução: a saúde, educação, o uso da terra. Nenhuma reforma vai salvar o País", disse Marcelo Edmundo, diretor da Central de Movimentos Populares. Ele destacou que o tema da manifestação neste ano foi 'Esse sistema não Vale'. 

O protesto aconteceu com tranquilidade, apesar de pessoas favoráveis ao governo Bolsonaro passarem pelos manifestantes vestidas de verde-amarelo. Apenas um homem com uma camisa do PSL, partido do presidente, provocou os manifestantes gritando 'mito'. Em resposta, foi vaiado. Logo se retirou do local de concentração do protesto. 

A Polícia Militar formou um cordão de isolamento à frente dos manifestantes e seguiu todo o cortejo até a Praça Mauá.

"Estou aqui pelo Brasil da Amazônia e da Embraer. Não é pelo Brasil de Bolsonaro", afirmou a aposentada Maria das Graças Gama.

Presente ao protesto, o ex-senador Lindbergh Farias (PT-RJ) acredita que o mês de setembro será marcado por protestos, principalmente de estudantes.

"Não tenho dúvida de que uma reação forte virá dos estudantes. Esse é um setor mais dinâmico, que vai se posicionar. Porque as universidades vão fechar. Acredito que a educação será o estopim dos protestos, que devem vir no mesmo nível de 2013", avaliou. 

​Recife

Em Recife, os manifestantes participaram de uma caminhada de quatro horas, que começou às 8h, em direção ao Parque Amorim, na área central.

Vestidos de preto e vermelho, os participantes reivindicaram verba para o ensino público. É o caso de Ranielle Vital, de 24 anos, que acaba de entrar em mestrado na Universidade de Pernambuco. “A gente inicia uma seleção já sem nenhuma perspectiva de bolsa e está muito difícil fazer ciência no Brasil sem incentivo”, disse.

Estudante de pedagogia e vice-presidente da UNE em Pernambuco, Débora Carolyne lembra que as universidades federais pernambucanas sofreram bloqueio de 30% do orçamento, o que já rendeu atos políticos no Estado.

A manifestação também chamou a atenção para as queimadas no Norte do Brasil. “São várias as situações que estão nos preocupando e a Amazônia é uma delas”, destaca o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido.

A marcha ocupou quatro faixas da Avenida Agamenon Magalhães, uma das principais vias da capital, ao longo de duas quadras. Procurada, a Polícia Militar não estimou a quantidade de manifestantes.

Salvador

Na capital baiana, a Rua Carlos Gomes, em Salvador, foi tomada por manifestantes logo após a passagem do desfile de 7 de Setembro. O Grito dos Excluídos fez o percurso do Largo do Campo Grande até a Praça Castro Alves com gritos de ordem contra o governo federal e a favor da educação e do meio ambiente. Procurada, a Polícia Militar não estimou a quantidade de pessoas.

“Em toda oportunidade que tivermos de ir pra rua em defesa das nossas origens, da nossa maneira de pensar e da nossa educação, nós faremos isso”, afirma Débora Nepomuceno, de 20 anos, vice-presidente nacional da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

Vestidos de preto e vermelho, os participantes pediam a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a prisão do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro. A marcha foi iniciada às 11h, com um ato ecumênico, e finalizada por volta de 13h40, com o Hino Nacional. Entre aqueles que gritavam a favor da educação, um grupo exibia a frase “Science not silence” nas camisetas. Eram alunos, professores e pesquisadores da Fiocruz-BA. 

“É preciso entender que saúde e educação não são gastos, mas investimentos para um país continuar crescendo. Não existe nenhum país que se tornou potência mundial sem investir em saúde e educação, mesmo nos momentos de crise. Não é destruindo a inteligência que vamos melhorar o país”, defende a vice-diretora de ensino da instituição, Patrícia Veras.

Junto aos representantes de sindicatos, religiosos, estudantes e cientistas, alguns políticos baianos também estiveram presentes no ato, como os deputados federais Alice Portugal (PCdoB) e Nelson Pelegrino (PT); os deputados estaduais Marcelino Galo (PT) e Hilton Coelho (PSOL); e os vereadores de Salvador Marcos Mendes (PSOL) e Ana Rita Tavares (PMB).

Para Alice Portugal, o Grito dos Excluídos é o lado no qual todos os brasileiros deveriam estar neste 7 de Setembro. “Deveríamos estar comemorando a Independência, mas esse governo que se apropriou dos nossos símbolos e se enrolou na bandeira verde-amarela é o mais entreguista da história do país”, avalia. “Mais do que nunca, o lado certo é esse, é o lado do Brasil”, finaliza.

Belo Horizonte

Estudantes, religiosos e representantes de ONGs, associações e sindicatos também participaram de protesto em Belo Horizonte contra o governo do presidente Jair Bolsonaro. A Polícia Militar não repassou estimativa de presentes. O ato foi realizado embaixo do viaduto Santa Tereza, na Região Central da capital e integrou o Grito dos Excluídos, realizado nesta data. As tragédias da Vale em Brumadinho e Mariana também foram lembradas.

Os manifestantes, a maior parte vestindo roupas pretas, protestaram sobretudo contra a gestão ambiental do governo na Amazônia e os cortes na área da educação.

"Estamos lutando pelo direito dos estudantes. Na semana passada, por falta de recursos, foi cortada uma das quatro linhas de ônibus que atendem o campus e os arredores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É um exemplo concreto do governo Bolsonaro", afirmou o doutorando em Sociologia da escola, Gustavo Martins do Carmo Miranda.

Tags: 7 de Setembro Dia da Independência Protesto
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