Jornalista Cecilia Thompson morre aos 82 anos em São Paulo

Repórter trabalhou no 'Estado' entre 1975 e 2008, foi tradutora e esteve à frente, nos últimos anos, das colunas 'São Paulo Reclama' e 'Seus Direitos'.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Milton Michida/Arquivo/Estadão
A jornalista Cecilia Thompson morreu no início da manhã desta quinta-feira, 18, aos 82 anos. Ela trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo entre 1975 e 2008 e nos últimos anos esteve à frente de colunas como "São Paulo Reclama" e "Seus Direitos". A causa da morte não foi divulgada.

Cecilia foi casada com o ator Gianfrancesco Guarnieri (de 1958 a 1965), que conheceu no Teatro Arena. Com ele teve os filhos Flávio (que morreu em 2016) e Paulo Guarnieri, também atores.

Além de jornalista, ela foi escritora, tradutora e atriz. Participou, além do Arena, também do teatro Oficina. Com Guarnieri participou do filme O Grande Momento, de 1958. Participou da militância de esquerda durante a ditadura e chegou a ser presa e torturada.

Para Cecilia, o jornalismo era a "melhor profissão do mundo", como gostava de dizer aos "focas" - como são chamados os novatos no jargão da área - no Curso Estado de Jornalismo. Ela também sempre deixava uma mensagem importante para eles: "Não se esqueçam de se indignar aos menos uma vez por dia", citando o jornalista Cláudio Abramo.

O jornalista Jotabê Medeiros, que foi colega de Cecília no jornal O Estado de S. Paulo, contou em sua página no Facebook que, quando ela deixou o jornal, em 2008, ele pensou: "Um personagem desse tamanho, Jesus, não pode... Algo tem que ser feito". Ele, então, resolveu escrever um texto sobre o último dia dela na redação e perguntou se ela podia ler antes de ele publicar. "Depois que enviei o texto pronto a ela, Cecília ficou sem ação por um tempo. Entreguei a Deus: 'Se ela não quer. . Adeus, texto!'", ele recorda. "Pouco depois, ela me ligou: 'Publique-se!', sentenciou."

Jotabê compartilhou nesta quinta o texto que publicou naquele 12 de setembro de 2008. "Muitos creem que Cecilia inventa a maioria das histórias que conta, inclusive eu. Sou sincero: é muito protagonismo para ser tudo verdade", começava ele.

"Mas um dia eu caí do cavalo: ela me contou que tinha dado uma canção para Jorge Mautner, Sapo Cururu, e eu duvidei. Um dia, fui cobrir um show de Mautner no CEU Cidade AE Carvalho, durante a Virada Cultural, e ele tocou Sapo Cururu. Quando terminou, Jorge disse: 'Essa música quem me apresentou foi a Cecilia G. em 1959'", contou.

No texto, Jotabê lembrava grandes acontecimentos da história do País e do próprio jornal que Cecilia testemunhou: "Estava no jornal no dia da mudança da Rua Major Quedinho para o bairro do Limão. Estava na redação quando saiu o famigerado Pacote de Abril do ditador Geisel. Trinta e quatro anos. É uma vida inteira."

O escritor lembra também que ela iniciou sua carreira no jornal como tradutora da editoria de internacional, fazendo traduções de inglês, italiano, espanhol e francês. "Eu não traduzia, já fazia textos jornalísticos 'no tamanho', e, modéstia à parte, era tão boa que fiquei nisso uns anos, até me deixarem escrever 'de verdade'", dizia ela, segundo Jotabê.

O repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo José Maria Mayrink, contemporâneo de Cecilia desde o início da carreira - ele entrou no jornal em 77 e ela, em 75 -, afirma que ela teve duas paixões na sua vida: Gianfrancesco Guarnieri e o O Estado de S. Paulo. "Eles se separaram, ele teve outra família, mas ela teve uma paixão por ele até morrer", conta.

Mayrink entrou no jornal como editor de internacional, sendo, portanto, chefe de Cecilia. "Ela era uma excelente tradutora. Conhecia muito história, entrava no espírito do texto e o adaptava", afirma.

O jornalista Alberto Villas, que conheceu Cecilia logo que ele começou a trabalhar no O Estado de S. Paulo, em abril de 1980, também fez um relato sobre a amiga no Facebook junto a uma foto dela no meio da redação, deitada no chão, com o quadril e as pernas pra cima.

"Não existia outra Cecilia Thompson. Durante todos esses anos, injetávamos jornalismo na nossa veia e não parávamos mais de falar. Ela me mostrava os seus diários que nunca parou de escrever e que hoje são um tesouro."

Ele conta que guarda da amiga o folheto original da primeira apresentação de Eles Não usam Black Tie, talvez a mais importante obra de Guarnieri, e coleção completa da revista Bondinho - "me deu de presente recentemente, sabendo que já estava indo embora".

De acordo com a família, o velório e cremação serão nesta quinta, na Vila Alpina, por volta das 16h.
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