Centro de Referência e Casa Abrigo acolhem mulheres em situação de violência

Equipamentos públicos prestam serviço de apoio jurídico, social e moradia sigilosa às vítimas.

Kyberli Gois,
Divulgação
Centro de Referência Elizabeth Nasser (CREN) oferta serviços de acolhimento e assistência jurídica e psicossocial às mulheres vítimas de violência.

Um levantamento divulgado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), no início deste mês, mostrou dados alarmantes nos primeiros três meses do ano. Foram126 feminicídios e outras 67 tentativas no país. Apenas 52% das vítimas procuram ajuda e menor ainda são as que formalizam a denúncia, somente 10%. Trazendo para o cenário regional, o Rio Grande do Note ocupa a 11ª posição no ranking de mortes por feminicídio no Brasil.

Buscando mudar essa realidade, pelo menos em Natal, o Centro de Referência Elizabeth Nasser (CREN) oferta serviços de acolhimento e assistência jurídica e psicossocial às mulheres vítimas de violência na capital potiguar. O espaço é administrado pela Prefeitura do Natal, por meio da Secretaria Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres (Semul).

Com uma estrutura física composta por recepção, salão multiuso, salas para acolhimento, uma sala para atendimento jurídico, uma para atendimento de serviço social, outra para acompanhamento psicossocial e mais uma para atendimento psicológico, o Centro conta ainda com brinquedoteca, espaço da mamãe – com estrutura para mães com bebês, copa, cozinha, coordenação, sala de reuniões, além de banheiros para usuárias e servidores.

O primeiro atendimento é o psicossocial, e ele é o mais recorrente. Através dele é feito um plano de atendimento, como explica Mayara Miranda, coordenadora do Centro. “Então ela precisa do quê? Ser encaminhada para defensoria pública, ela precisa ser encaminhada para algum órgão de saúde, ela precisa ir à delegacia, ela precisa ser acolhida na Casa Abrigo, tudo isso dentro desse plano de atendimento. Posterior a isso, se for identificado a necessidade de atendimentos psicológicos, ele é feito também”.

Mayara diz que não há um perfil exato sobre as mulheres que procuram o Centro. Ainda segundo ela, a agressão física é a violência que mais se destaca entre as mulheres que procuram o espaço. “O que eu avaliei enquanto coordenadora é que os outros tipos de violência elas não conseguem entender que é uma violência, só quando chega ao extremo”, pontua ela.

“A ameaça e a violência física que fazem com que de fato elas rompam o ciclo e tomem a primeira atitude que é a de procurar um serviço, de denunciar. Não necessariamente quer dizer que ela vai romper o ciclo”, reforça a coordenadora do CREN.

Choque
“Muitos me chocam. Dói muito ver”, contou Mayara ao ser questionada sobre algum episódio de violência que mais chocou a profissional. “A primeira vez que fiquei impressionada foi quando vi a mulher de fato com o rosto todo machucado. Isso me chocou muito. Eu fiquei de fato muito triste”, complementou.

Outra situação que a deixou reflexiva em meio aos casos diários que surgem no centro foi envolvendo uma criança. “Ela estava acompanhada da mãe, ameaçada de morte pelo companheiro. A mulher passava por toda essa questão de violência, mas para a criança o pai era o super-herói dela. Aquilo me deixou sem palavras, porque eu não entendo como um homem pode ser o agressor para aquela mulher e o super-herói para aquela filha”, recorda.

Coragem

Mayara Miranda ressalta que as mulheres em situação de risco precisam ter coragem de dar o primeiro passo e denunciar. “Porque é uma questão de coragem mesmo, de dar aquele primeiro passo. Muitas mulheres evitam a decisão da denúncia ou de procurar um serviço com medo de oficializar e a repercussão disso ser muito pior, então as mulheres precisam desse primeiro passo para que as políticas possam trabalhar em conjunto auxiliando ela a superar o ciclo da violência. O mais importante é isso, é superar”.

A coordenadora do CREN ainda reforçou que “aqui a gente tem profissional de serviço social e psicologia para auxiliar essa mulher para que ela consiga romper esse ciclo da violência, então quando ela não adere ao acompanhamento ela está mais vulnerável, como se ela fosse lutar sozinha, tendo uma rede a serviço dela”.

O Centro de Referência Elizabeth Nasser funciona na Avenida Bernardo Vieira 2280, bairro de Dix-Sept Rosado. Além dos atendimentos, o Centro também dispõe de estrutura para oferecer capacitações e formações profissionais para mulheres.

No vídeo abaixo, a coordenadora do Centro de Referência Elizabeth Nasser, Myara Miranda, fala sobre o trabalho que é desenvolvida na casa. Confira:



Casa abrigo

Já citada por Mayara, a Casa Abrigo Clara Camarão é a única do tipo no Rio Grande do Norte. A opção por abrigamento existe quando há risco eminente de morte. “Digamos que ela (mulher) venha para o Centro e durante o atendimento a equipe veja que de fato o risco, então geralmente levamos para a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) para que ela faça o Boletim de Ocorrência. Lá ela é ouvida e a delegada também sugere esse abrigamento. É tanto que a gente fala que a delegada envia o indicativo de abrigamento, a gente concorda e leva a mulher para a Casa abrigo”.

A coordenadora do Departamento de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher da Semul, Ana Cláudia Mendes, explica qual a função da Casa. “O fluxo é muito pelo CREN e pelas duas Deams da capital (zona Sul e Norte). A partir da avaliação desse grupo de segurança, a mulher é encaminhada para abrigamento. Ana Cláudia falou, ainda, sobre o tempo que as mulheres ficam no abrigamento. “Esse tempo tem que ser baseado no abrigamento seguro, poder Judiciário colaborando com a gente para que as medidas protetivas sejam deferidas, condições seguras e relações familiares também sejam reconstituídas. A partir disso, ela pode ser desabrigada”, explicou.

A representante da Semul destacou que a violência não tem hora para acontecer, apesar de se fazer presente no cotidiano dessas mulheres. Segundo ela, há uma fragilidade muito grande no que diz respeito a violência psicológica, emocional e física. “Infelizmente as pessoas só percebem que estão no ciclo de violência quando a violência física acontece, mas isso não segue uma linha cronológica. A violência pode está acontecendo, mas é sempre a física, o risco eminente de morte que encoraja a mulher a procurar ajuda”.

Atualmente o espaço tem 23 pessoas abrigadas, entre mulheres e dependentes. A Casa Abrigo Clara Camarão (CACC) dispõe dos serviços de moradia protegida e atendimento integral às mulheres em situação de risco de morte iminente, em razão da violência doméstica e familiar.

Trata-se de um serviço de caráter sigiloso e temporário, onde as usuárias e seus dependentes menores poderão permanecer por um período determinado, durante o qual deverão reunir condições necessárias para retomar o curso de suas vidas.

Enquanto permanecem na Casa, a mulher e seus filhos recebem acompanhamento psicossocial e jurídico, que acompanha a garantia, pela Justiça, das medidas protetivas necessária para que possam retomar suas rotinas com segurança.

Andreia Souza

No vídeo abaixo você vai conhecer um pouco de Andreia Souza. Professora, escritora e ativista, ela foi vítima de violência doméstica e familiar. Vindo de 
uma linhagem de quatro gerações de mulheres que sofreram agressão, Andreia é atendida no Centro de Referência Elizabeth Nasser. Confira mais sobre essa história:



Tags: Casa Abrigo Centro de Referência
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