Um desafio do século: o que fazer do plástico

No Dia Mundial do Meio Ambiente, Nações Unidas chamam a atenção para a crise do lixo.

Da redação, Estadão Conteúdo,

Uma baleia-piloto morreu no domingo (3) na Tailândia com 80 sacos plásticos entalados em seu estômago. O jovem cetáceo, não muito maior do que um golfinho comum, foi mais uma vítima daquilo que muitos especialistas consideram ser um dos maiores desafios de desenvolvimento sustentável do século 21: a poluição plástica – tema do Dia Mundial do Meio Ambiente 2018, celebrado nesta terça-feira (5).

O problema é global e onipresente. Cerca de 75% das 8,3 bilhões de toneladas de plástico produzidas pelo ser humano desde a invenção do plástico já viraram lixo; e só 20% desses resíduos foram incinerados ou reciclados de algum modo, segundo um estudo publicado em 2017.

Os outros 80% (cerca de 5 bilhões de toneladas) estão espalhados por aí, contaminando o solo, os rios, os oceanos, a atmosfera e até a água mineral que compramos no supermercado – ironicamente, embalada em garrafas plásticas que, um dia, seguirão o mesmo caminho.

“Estamos acumulando plástico no planeta de tal forma que essa ficará conhecida como a era geológica do plástico”, disse ao Estado a gerente de campanhas da ONU Meio Ambiente no Brasil, Fernanda Daltro. “O impacto é colossal.”

Derivado do petróleo, o plástico nunca se degrada por completo na natureza. O material apenas se quebra em pedaços cada vez menores, em um processo de decomposição que pode levar centenas de anos. Mesmo os plásticos chamados biodegradáveis não “desaparecem”; apenas se quebram mais rapidamente.

O ambiente mais afetado são os oceanos. Cientistas estimam que há mais de 5 trilhões de pedaços de plástico flutuando nos mares, e outras 8 milhões de toneladas do material são despejadas no oceano todos os anos, na forma de garrafas, embalagens e outros resíduos plásticos carregados pelos rios e pela chuva. Uma grande parte é arrastada para alto-mar e fica circulando durante anos, até encalhar em alguma praia ou se juntar a uma das seis gigantescas “manchas de lixo” que existem nas regiões centrais dos Oceanos Pacífico, Atlântico e Índico.

As vítimas mais óbvias são milhares de tartarugas, baleias, golfinhos, aves e outros animais marinhos que morrem pela ingestão de plástico ou presas em redes de pesca descartadas – as chamadas “redes fantasmas”, que também são feitas de plástico e levam centenas de anos para se decompor.

Mas essa é só a ponta do iceberg. A parte mais problemática do lixo plástico é invisível a olho nu: são as partículas microscópicas, conhecidas como “microplástico”, que se misturam ao plâncton e contaminam a cadeia alimentar marinha, podendo chegar ao homem, com efeitos ainda desconhecidos sobre a saúde humana. Estão misturadas à água e à areia de todas as praias do mundo.

As pesquisas sobre o tema no Brasil são pontuais, mas uma coisa é certa: “Em qualquer lugar que você procurar, você vai encontrar”, diz a pesquisadora Monica Costa, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), especialista em oceanografia química e poluição marinha. “O microplástico está literalmente em todo lugar.”

Soluções

O problema precisa ser atacado em várias frentes, dizem os pesquisadores; tanto na produção quanto no consumo, no reaproveitamento e no gerenciamento de resíduos. Cerca de 40% do plástico produzido hoje é descartável – ou seja, feito para ser usado uma única vez, como copinhos, canudos, embalagens e sacolas.

O primeiro passo, segundo Fernanda, é eliminar os excessos, substituindo o que pode ser substituído e deixando de consumir aquilo que é desnecessário. “Precisamos rever o uso desse material que é tão importante nas nossas vidas”, diz.

A União Europeia está discutindo neste momento uma série de medidas legais de combate ao lixo plástico, entre elas o banimento de produtos descartáveis para os quais há uma alternativa viável, como canudos e cotonetes plásticos.

“O problema do lixo no mar é extremamente complexo”, destaca o pesquisador Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP). “Não há uma solução única para tudo.” A mudança nos padrões de consumo, segundo ele, é uma ação necessária de longo prazo, mas que não resolve a crise imediata, relacionada principalmente à má gestão dos resíduos sólidos.

No Brasil, o governo federal aderiu à campanha Mares Limpos, da ONU, e assumiu um compromisso voluntário de redução da poluição marinha. Nesta terça (5) deve ser publicada uma portaria do Ministério do Meio Ambiente, criando uma comissão multissetorial que será encarregada de coordenar a elaboração de um Plano Nacional de Combate ao Lixo nos Mares – do qual até 90% é plástico.

Tags: Dia Mundial do Meio Ambiente meio ambiente poluição plástica
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