Carvoeiros em situação semelhante à de escravidão são resgatados na Bahia

A maioria não tem carteira assinada e tem descontado do salário até as botinas usadas para proteção contra o calor dos fornos

Redação,
 Fiscais do Ministério do Trabalho resgataram nesta quinta-feira (6) 35 carvoeiros trabalhando em situação comparável à de escravidão em uma fazenda da cidade de Riachão das Neves, no noroeste da Bahia.

De acordo com o auditor do Trabalho Eduardo Santos da Costa, a maioria não tem carteira assinada e tem descontado do salário até as botinas usadas para proteção contra o calor dos fornos.

“Já pude avaliar que há desconto dos salários para comprar cigarros, gasolina e tudo para uma motoserra funcionar. Isso significa servidão por trabalho”, disse.

Paulo Francisco da Silva é carvoeiro da fazenda há quatro anos. Ele lamenta as próprias condições de trabalho e acusa o patrão de cobrar, inclusive, o sabonete e a pasta de dente.

“Eles descontam o que nós usarmos da propriedade. Sabonete, pasta de dente e até a botina. Ganho R$ 450, mas no final do mês fica cerca de R$ 300”, denunciou.

O trabalho semelhante à escravidão é apenas uma das irregularidades na fazenda, segundo o auditor. O proprietário tem autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para fazer queimadas. No entanto, os fiscais encontraram os fornos lotados com madeira de lei, como aroeira, protegida pela legislação ambiental.

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, acompanhou a fiscalização de perto e demonstrou indignação. “É um duplo crime. Crime de escravidão e crime ambiental. Nós vamos punir com todo o rigor da lei”, afirmou.

O proprietário da fazenda, Waldemar Gertlen, disse que foi surpreendido pela fiscalização. Segundo ele, a fazenda está arrendada e ele não é responsável pelos crimes.

“Quando nós fazemos o arrendamento, a responsabilidade é do chefe da carvoaria. Eu tenho uma atividade produtiva e não tenho nada pra esconder”, disse.

O responsável pela carvoaria não estava presente no momento da fiscalização.

O prejuízo ao Cerrado se estende até o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba. Lá, em plena área de preservação ambiental, foi instalada a fazenda Mauá. São 2.200 hectares de plantações de soja e milho irregulares, segundo o ministro Minc.

“Isso é completamente irregular. Isto é um parque nacional, uma das principais áreas de conservação”, afirmou.

O plantio dentro do parque já tinha sido embargado pelo Ibama em 2003. O proprietário, Haroldo Uemura, contesta o próprio decreto que criou o parque. Ele disse que jamais foi indenizado para sair da região.

“Estou aqui desde 2001. Estamos na Justiça contestando a existência do parque. Nunca recebi nada de indenização”, garantiu.

Como tinha duas espingardas de caça, sem registro, Uemura foi detido. Ele recebeu duas multas por crime ambiental, cada uma de R$ 440 mil. O proprietário disse que também vai contestar as autuações na Justiça.

Agência Brasil


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