Itália apela por máscaras do Brasil: 'Começamos a contar médicos mortos'

Carta foi direcionada ao ministro da Economia, Paulo Guedes, mas também chegou às mãos do responsável pela Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Reuters
Hospitais da Itália já trabalham sem máscaras e profissionais de saúde estão entre os mortos no país.

SELO-CORONA-100"Os hospitais trabalham há dois dias sem, repito, sem máscaras e começamos a contar mortos entre as heróicas equipes médicas de todas as categorias que trabalham contra a epidemia.”

A fala em tom dramático retrata o cenário com o avanço do novo coronavírus na Itália, país que lidera mortes pela doença – são mais de 6 mil – e possui cerca de 64 mil infectados. Em Bergamo, província italiana mais afetada pela pandemia, rodaram o mundo imagens de caixões que se acumulam em funerárias e igrejas. O quadro de devastação e colapso do sistema de saúde foi descrito pelo embaixador italiano Francesco Azzerello a ministros do governo brasileiro, como forma de apelo pela liberação de máscaras que estavam bloqueadas no aeroporto de Guarulhos (SP). O pedido deu resultado, e o material seguiu viagem.

A carta foi obtida com exclusividade pelo Estado e estava direcionada ao ministro da Economia, Paulo Guedes, mas também chegou na última semana às mãos do responsável pela Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O governo italiano pedia a liberação de 2 milhões de máscaras para uso de profissionais da saúde. O produto serve para apenas um dia, diz a carta, mas Azzerello recorre ao "senso de humanidade" e cita cooperação com o “irmão amigo e povo do Brasil”. 

O diplomata argumenta que o governo brasileiro estava impedindo o envio à Itália das máscaras por uma interpretação errada, retroativa, de decreto para bloquear exportação de equipamentos para saúde. Os equipamentos de segurança comprados pelo país da Europa são feitos na China. Seriam entregues por uma empresa com filial em São Paulo, segundo Azzerello.

“Senhor ministro, o governo e o povo da Itália confiam no senso de humanidade e na indispensável e vital cooperação entre países amigos e irmãos, para encarar os desafios atuais e futuros que estamos enfrentando e que iremos enfrentar”, encerra a carta.

Segundo balanço divulgado na noite de segunda-feira (23), foram mais de 4.700 infecções novas na Itália nas últimas 24h. Apesar de o número ser inferior ao computado no dia anterior, as autoridades pediram para a população "não se iludir".

Cristão

O chanceler italiano, Luigi Di Maio, anunciou na última segunda-feira, 23, que o Brasil liberou uma carga de máscaras e ventiladores pulmonares – a carta do embaixador citava apenas o equipamento de proteção individual. No Twitter, Di Maio disse que os produtos serão usados especialmente em regiões com mais mortos, como a Lombardia, por quem está “lutando na linha de frente”.

Mandetta já havia sinalizado que liberaria as exportações. Na última sexta-feira, 20, ele afirmou que havia pedido ao presidente Jair Bolsonaro para “segurar” a carga, mas reconheceu que a Itália estava em situação de “pós-calamidade” e que era preciso ser solidário. “Eu imagino que quando a Itália estiver caindo (em número de casos), a gente estará subindo. Pode ser que a gente fale ‘te entrego e ali na frente você me devolve”’, disse Mandetta. No domingo passado, afirmando ser “cristão”, o ministro reforçou que liberaria as máscaras. “Antes de mais nada somos cristãos. Não dormiríamos com a consciência no lugar. Por mais que seja duro, nós autorizamos. É o que temos de fazer.”

Tags: apelo da Itália coronavírus falta de máscaras
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