"Eu não decidi ser prostituta. Comecei aos 8, pedindo esmola", disse Marinalva

A presidente da da Associação das Profissionais do Sexo e Congêneres do RN concedeu entrevista ao portal no dia 2 deste mês.

Marinalva Ferreira, presidente da Associação das Profissionais do Sexo e Congêneres do Rio Grande do Norte, morreu nesta sexta-feira (29). Prostituta há 30 anos, ela estava internada desde quarta-feira (27) no Hospital Walfredo Gurgel. Marinalva foi vítima de um AVC e faleceu aos 39 anos.

No último dia 2 de junho, quando foi comemorado o Dia Internacional da Prostituta, a Associação promoveu em Natal um movimento em comemoração à data. Na ocasião, Marinalva concedeu entrevista ao Nominuto ( clique aqui e ouça ), que apesar de não ter sido lançado naquela data, já vinha realizando algumas atividades.

Em homenagem à Marinalva Ferreira, o Nominuto publica a entrevista nesta sexta.


Nominuto - Em qual momento da sua vida a senhora decidiu ser prostituta?

Marinalva Ferreira - Eu não decidi ser prostituta. Comecei inocentemente, com oito anos, pedindo esmola para dar de comer à minha mãe, e com nove anos me vendendo, saindo com velhos de carro, na Praça André de Albuquerque. Foi aí que eu perdi minha virgindade. Eu não sei o que foi namorar, brincar, ter amigos e ir à escola. Quando comecei a me vender mesmo e a ganhar dinheiro, eu decidi seguir nessa vida.

NM - Mas aos oito anos? Alguém a influenciou?

MF - Não. Eu comecei pedindo esmola, aí me juntei com outras meninas pequenas que estavam na rua também. A gente, pedindo esmola, ganhava umas pratinhas, e fazendo programa, a gente ganhava uma nota de Cr$ 10 ou de Cr$ 50. E comecei por aí. Mas se nós tivéssemos os direitos que existem hoje, como Bolsa-Escola, Bolsa-Família, acho que não teria passado por isso. Eu teria estudado e hoje poderia ser uma médica ou advogada.

NM - A senhora acha que a maioria dessas mulheres entra na prostituição por opção ou é por necessidade?

MF - As que eu trabalho, que são de baixa renda, estão por necessidade. Porque muitas delas têm seus filhos para dar de comer, umas têm aluguel para pagar. E como não tem emprego nem outra opção, elas vão fazer o quê? Vão roubar? Então, vão fazer programa para ganhar R$10, R$20, R$30 ou até menos. Essa que é a realidade.

NM - Em relação à Associação dos Profissionais do Sexo e Congêneres do Rio Grande do Norte, como surgiu a idéia de criar um órgão desse aqui no Estado?

MF - A idéia surgiu no momento em que eu fui fazer um exame, há uns cinco anos atrás, no Centro Reprodutivo Leide Morais, e não tinha o dinheiro para pagar. Então, eu me revoltei e fui atrás dos meus direitos. Depois de três meses que eu já estava fazendo os exames, eles abriram espaço pra eu levar as conhecidas que tivessem dificuldades. Dentro de um ano e três meses eu levei 145. Deu soro positivo em duas e Sífilis em 59. Por aí começou o trabalho da Associação.

NM - E como ela funciona hoje? Como está estruturada?

MF - Hoje, a gente tem 1.050 associados e trabalhamos em parceria com as secretarias municipal e estadual de Saúde, que nos fornecem material como preservativos e panfletos. A associação já conseguiu 31 mil preservativos garantidos. Já conseguimos médicos sem enfrentar filas, advogados, escolas. A gente já pode pagar o nosso INSS, que é R$ 41. Agora, vamos correr atrás de cursos e empregos.

NM - Como vocês lidam com a AIDS e demais doenças sexualmente transmissíveis?

MF - Nós sempre passamos informações para que esse pessoal use preservativo, que faça seus exames para saber como está a saúde. Para que as profissionais do sexo continuem seu trabalho e que tenham seus exames em dia.

NM - Quais são os maiores problemas enfrentados por vocês?

MF - Os grandes problemas que a gente enfrenta no dia-a-dia são o preconceito, a discriminação e a violência. E isso não é fácil. A sociedade ainda discrimina muito, pois pensa que é porque a gente quer. Mas não é porque a gente quer.

NM - A senhora já entrou em confronto ou agrediu algum homem por ele ter lhe desrespeitado?
MF - (Risos...) Quando eu tinha meus 13, 14 anos eu não agüentava levar um ‘xêxo’ [calote]. O cliente que me passasse um ‘xêxo’, ficava com uma cicatriz. É por isso que hoje em dia eu sou marcada, cheia de acidente de trabalho, porque eu também não fui de levar desaforo para casa.

NM - Aos 39 anos, com 30 de profissão, a senhora já pensa em se aposentar?
MF - Meu filho, enquanto eu tiver com saúde, fé em Deus, e meus clientes ainda tiverem me atendendo. Como eu vou me aposentar agora? Ainda tenho 39 anos, paguei pouco tempo o INSS. Então, eu vou me aposentar por onde? Queria eu ter uma aposentadoria para poupar mais minhas ‘peças’ (risos...).
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