Autor verseja a inutilidade prática da poesia

Theo G. Alves lança seu “Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis” nesta terça-feira (3).

Isabela Santos,
Reprodução
Capa do livro é de Breno Xavier.

Na capa, uma escultura de Hélio Oiticica sob o projeto gráfico de Breno Xavier sugere o que não tem dentro do livro de prosa e versos: praticidade. "Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis" (120 páginas, R$ 20), de Theo G. Alves, será lançado pelo selo Flor do Sal na próxima terça-feira (3), no Nalva Melo Café Salão, às 18h, e é um divertido livro sobre coisas que, de acordo com o autor, "têm grande utilidade para a poesia".

 

A começar pelo índice, que não indica nenhum dos textos, o manual, segundo o poeta, "por mais prático que seja, não é assim tão prático". De acordo com Theo Alves, sua literatura anda na contramão desse conceito.

 

"A poesia não tem obrigação de explicar nada e o livro não tem um objetivo prático. O objetivo do livro - se houver um - é a transformação; da linguagem, do leitor, da poesia e até do próprio escritor", explica.

 

O livro é dividido em três partes: Coisas Inúteis, que apresenta "pessoas, momentos e outras coisas como coisas"; Pequeno Manual Prático, apresentando instruções das coisas ditas inúteis e Memórias inventadas (ou outras coisas inúteis), em que foram reunidas prosas que "transformam eventos vividos", segundo o autor. Um dos pequenos textos desta última parte do livro, fala de quando morreu Dom Quixote.

 

"De todas as figuras da ficção, Dom Quixote é o meu preferido. É o personagem que eu mais tenho inveja de não ter inventado. O texto brinca com a loucura dele", comenta Theo. Mas as referências a grandes figuras da literatura não se restringem ao cavaleiro andante.

 

"Eu sou acima de tudo um leitor. Personagens como Quixote, de Cervantes, e Gregor Samsa, de Kafka [do conto A Metamorfose] fazem parte da minha vida pessoal e profissional e são freqüentes na minha obra", disse.

 

Theo Alves além de poeta é professor de língua inglesa, literatura e redação, porque afinal "não dá para viver só como escritor", como ele próprio brinca. Já havia publicado dois livros artesanais na cidade de Currais Novos, onde reside. "A Casa Miúda", de contos, e "Loa de Pedra", com poemas. Ambos foram realizados enquanto Theo trabalhava no novo livro. Seu pequeno manual foi idealizado há dez anos e, segundo o autor, não possui quase nada da primeira versão.

 

A parceria com o selo Flor do Sal surgiu virtualmente. "Foi uma surpresa fantástica quando recebi um comentário no meu blog do Adriano de Sousa, que é editor da Flor do Sal, perguntando se eu queria publicar algo", lembra. Em entrevista ao Nominuto, Adriano disse que escolhe as próximas publicações de acordo com o gosto pessoal dos editores, como fez com a obra do currais-novense.

 

"A Flor do Sal trabalha basicamente com autores inéditos e usa critérios de leitor para escolher as próximas publicações. Não pensamos muito em quantos livros aquela edição vai vender ou se o assunto está em pauta", disse Adriano.

uma palavra/pedra

 

despida
entre aspas
a bruteza
de sua anatomia
me comove

crua
e pétrea
sua musculatura
e espinha
me enternecem

grossa
tessitura de pele
densa
pluma metálica
me toca

seu/meu
o corpo rígido
o ventre mineral
da palavra
pedra

A+ A-