"Esporte de alto rendimento não está vinculado à saúde"

Fisioterapeuta do Comite Paraolímpico Brasileiro e organizador do encontro de saúde do esporte, Ronnie Peterson, fala sobre a nova realidade dos atletas.

Artur Dantas,
Foto: Artur Dantas
Ronnie Peterson, fisioterapeuta do Comitê Paraolímpico Brasileiro
No pain, no gain. A frase traduzida para o português significa que se não há dor, não existe ganho. A máxima poderia ser sinônimo de esforço, mas vem ampliando a discussão no mundo esportivo, principalmente, na última década, já que é cada vez mais comum casos de atletas de alto rendimento que se afastam das atividades por problemas de lesões. Os motivos variam e vão desde excessivas cargas de trabalhos até a busca por superação de limites, expandindo a atuação – e evolução - da medicina esportiva. Para apresentar as mais novas convenções sobre o assunto, Natal sediou nesta semana o 2º Encontro Nordestino de Profissionais e Estudantes da Saúde no Esporte. Sobre o assunto, o Nominuto.com entrevistou o fisioterapeuta do Comitê Paraolímpico Brasileiro e organizador do evento, Ronnie Peterson.


Nominuto.com – Qual o objetivo do 2º Encontro Nordestino de saúde no esporte?
Ronnie Peterson – O evento é voltado mais propriamente para atletas e paraatletas profissionais de alto rendimento, mas que contempla a participação de estudantes e profissionais da área esportiva que estão envolvidos. No encontro serão mostrados o que é mito e verdade na medicina do esporte. Nós mostramos às pessoas que por trás da nossa profissão existe um respaldo científico, estudos comprovando o que é melhor. Existem comparações de casos e nada é feito de forma aleatória. Foram 32 palestras ao longo de três dias e a participação de 200 profissionais, além da realização de três minicursos.

Nominuto.com – No últimos 20 anos surgiram vários superatletas que superaram recordes e os limites que muitos pensavam impossíveis de serem alcançados. Mas ao mesmo tempo que isso acontece, as lesões parecem mais frequentes. Isso é verdade?
Ronnie Peterson – Surgiram os superatletas, mas também as supercobranças. Hoje, o esportista trabalha com uma série de fatores fora das atividades normais. O que vem acontecendo é que existe sobre o atleta uma cobrança exagerada para que eles superem os limites. Mas, embora sejam esportistas de alto desempenho, existe um limite. O que acontece é que a sobrecarga de treinamentos em busca do resultado é que vem aumentando o número de lesões. Hoje, um atleta tem uma sobrecarga física e psicológica. E o que isso vem trazer para o atleta? Muitas vezes eles não conseguem efetuar suas atividades como deveriam. O esporte de alto rendimento requer que você ultrapasse limites e quando isso acontece surgem as lesões. O que nós profissionais chamávamos antes de “esporte saúde” mudou a partir de um certo momento. Atualmente, consideramos o esporte de alto rendimento não vinculado à saúde. As cobranças excessivas não são benéficas aos esportistas. Em artigos científicos atuais é possível ver como causa de lesão a presença de empresários e administradores do esporte nas competições. Ai vem o problema: ou se esconde uma lesão e vai praticar ou as conseqüências podem ser outras.

NM – A dor é algo muito comum para os atletas hoje?
RP – Hoje é muito mais freqüente. A lógica para nós que trabalhamos na área esportiva é que sem dor não existe lesão. Se tem dor é um sinal de alerta. Algo está errado. Então quando o atleta começa a sair do estágio cômodo do corpo, já entra na parte irritativa e são lesionais.

NMPor motivos das lesões recorrentes, a vida útil profissional dos atletas pode se tornar menor?
RP – Não temos, na prática, trabalhos direcionados a comprovar isso, da longevidade profissional dos atletas. Mas fica bem claro isso que eles estão dispostos a exceder os limites quando dizem que têm pouco tempo para ganhar dinheiro. As pessoas se preocupam muito com rendimento e se desgastam mais rápido, sinal que a carreira pode terminar mais rápido tamém.

NMNo passado, poucos profissionais trabalhavam dentro de clubes ou para o esporte. Hoje, é praticamente impossível um clube ou atleta que não adote um corpo de profissionais para isso. A medicina evoluiu para o esporte?
RP – Assim como em outras profissões, um único profissional não dava conta de tudo. Mas o que se notou é que se faziam necessário profissionais de outras áreas para cuidar da saúde do atleta. O médico trabalha com avaliação e diagnósticos; o fisioterapeuta é responsável por fazer a reabilitação e prevenção. E ainda temos os nutricionista, fisiologistas, massagistas, radiologistas e muitos outros. Uma só pessoa não daria conta de tudo. Somado a isso tivemos um “boom” do esporte de uma hora para outra e começaram a surgir interesses profissionais. Quanto mais especializados, mais eficiente. Cada clube tem uma estrutura própria para abarcar todos os problemas que podem ser encontrados dentro de um clube de futebol, vôlei, basquete, etc.


NM- São comuns casos de atletas querendo jogar machucados por pressão?
RP – Fica complicado para o atleta entrar machucado, porque é necessário graduar o nível da lesão para saber se ele pode ou não participar. Muitos procedimentos realizados por clubes são paliativos, como medicamentos em spray, por exemplo. Mas nos casos em que os atletas competem por premiação dos patrocinadores, aí sim é complicado. É um dilema. Se ele parar, perde posições no ranking e dinheiro. Se continuar, corre o risco de agravar a lesão. E é a isso que alguns se submetem.

NM – A medicina esportiva pode ser usada pela população que não é praticamente de esportes de alto rendimento?
RP – Hoje, a medicina evoluiu a ponto que não apenas cuida do esporte, mas também da população em geral. Um idoso pode ter acesso a uma musculação diferenciada. Isso acontece em decorrência da evolução. Começa a surgir um pensamento diferenciado porque cada pessoa foi e sempre será diferente. Existe uma fisiologia diferente e existe uma forma diferente como o idoso, a criança e o adolescente podem praticar esportes. A medicina evoluiu muito e pode ser aplicada no dia-a-dia desde a avaliação satisfatória do idoso, que deseja iniciar uma atividade, como pode ser usada para definir qual a carga de trabalho para cada indivíduo. O primeiro objetivo é que ela traga saúde. A gente diz que não tem uma idade para o esporte ser iniciado. Mas que existem cargas que devem ser específicas para cada caso. É preciso cargas leves para quem está em formação porque a parte tendínea ainda está se fortalecendo, se formando. O que indicamos para que ele não venha a ter um prejuízo no futuro é que tratamos pessoas por grupo, cada uma com uma carga específica.
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