Decisões nas próximas semanas podem mudar os rumos do futebol mundial

No debate, reeleição do presidente Gianni Infantino e proposta de venda da Copa para investidores.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Khaled Desouki
Atual presidente da Fifa, Gianni Infantino, vai tentar se reeleger em eleição que acontece no mês de junho.

O ano de 2019 pode entrar para a história como o que mudou para sempre o futebol mundial. A partir das próximas semanas, a Fifa, clubes, patrocinadores e federações, um batalhão de lobistas, advogados e investidores multibilionários tomarão decisões que determinarão o futuro da modalidade e, para observadores, a organização do futebol como se conhece hoje pode desaparecer para sempre.

Para o atual presidente da Fifa, Gianni Infantino, há algo mais em jogo que a estrutura do futebol mundial: sua própria reeleição.

No centro do debate está a proposta de vender a Copa do Mundo para investidores privados, liderados por um consórcio obscuro que propôs um retorno para os dirigentes de US$ 25 bilhões, cinco vezes a receita atual do Mundial.

O plano prevê abrir o monopólio hoje mantido pela Fifa para abrir a Copa para fundos de investimentos, com 50% das ações nas mãos de bancos e outras entidades. A suspeita é de que o projeto conte, acima de tudo, com recursos do fundo soberano saudita. Apenas em 2018, Infantino se reuniu três vezes com a realeza do país árabe.

Diante da resistência de dirigentes europeus à possibilidade de um controle saudita no futebol, Infantino foi obrigado a dar garantias de que o dinheiro não viria do fundo de Riad e adiou o debate sobre sua aprovação.

Ainda assim, cartolas mantém a suspeita de que as várias camadas de investidores apresentados estejam servindo para camuflar a verdadeira origem dos recursos sauditas. A decisão ocorre em um momento em que o príncipe herdeiro saudita, Mohamed Bin Salman, tem sua imagem no exterior duramente afetada por conta da morte de um jornalista crítico ao regime.

Além da Copa do Mundo, o pacote marcado pela pouca transparência incluiria a criação de um Mundial de Clubes a cada quatro anos, no lugar do atual modelo falido do torneio no final de cada ano e substituto também da Copa das Confederações.

Fontes na Uefa confirmaram ao Estado que existe uma coincidência de interesses: clubes se recusam a aceitar o projeto de um Mundial a cada quatro anos, sem uma clara garantia financeira. Já a Uefa vê a aliança com os clubes como uma manobra para derrubar projetos de Infantino e, assim, o enfraquecer.

Infantino voltou a pressionar o Catar para ampliar o Mundial de 2022 de 32 para 48 seleções. A mudança já está garantida para 2026. Mas não o daria os votos necessários para 2019.

Ali, o desafio vai muito além das quatro linhas. Menor sede da história das Copas, o Catar precisaria ampliar o Mundial para outros países para que o projeto seja viável. O problema é que o minúsculo estado do Oriente Médio vive um embargo por parte de seus vizinhos, que o acusam de financiar o terrorismo e tentar desestabilizar a região.

Nesta semana, em um evento em Dubai, Infantino afirmou que a possibilidade de levar o Mundial para outros países árabes estava sendo debatida. “Se podemos aumentar a Copa para 48 seleções e fazer o mundo mais feliz, deveríamos tentar”, disse.

Se o projeto incluindo sauditas e os governos dos Emirados Árabes Unidas e Bahrein não for consolidado, não se exclui levar algumas das partidas para Omã, Irã ou Turquia.

Em duas semanas, a Fifa começará a tomar decisões. Uma reunião no Marrocos tem como objetivo apresentar desenho inicial do que seria um acordo. Já em março, num encontro planeado para ocorrer nos EUA, a Fifa espera bater o martelo sobre o que será o futuro do futebol.

Mas um dos dirigentes convocados para o encontro confirmou à reportagem que não prevê uma decisão fácil. “O que está em jogo é o futuro do esporte mais popular do planeta.”

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