Casemiro: quero ser grande!

Campeão sul-americano sub-20, o jogador do São Paulo não é casado, nem tem filhos, mas afirma com orgulho que é quem cuida da mãe e dos dois irmãos mais novos.

Redação, Fifa.com,
Divulgação/Fifa
Caemiro ganhou a posição de volante titular do São Paulo com Carpegianni
O volante Casemiro ainda demonstra certa timidez diante das luzes e jornalistas em entrevistas coletivas. Em uma sala reservada, com apenas um gravador à frente, sua fala também segue baixa, pausada. Até que, nos minutos finais da entrevista exclusiva ao FIFA.com, tudo muda repentinamente quando ele, aos 19 anos, estufa o peito e conta: “Hoje sou o pai da família”. E sorri.

Campeão sul-americano sub-20, o jogador do São Paulo não é casado, nem tem filhos, mas afirma com orgulho que é quem cuida da mãe e dos dois irmãos mais novos. “Mesmo novo, sou eu que coloco o dinheiro em casa. A palavra final é minha.”

Assumir a responsabilidade, posto isso, não é nenhum fardo para o talentoso volante. Conquistando aos poucos seu lugar no time titular do técnico Paulo César Carpegiani, o garoto caminha resoluto para o segundo campeonato mundial da FIFA de sua carreira. Depois de campanha frustrada na Copa do Mundo Sub-17 Nigéria 2009, confia em um desfecho bem diferente no Mundial Sub-20 da Colômbia. “Agora nosso time é muito melhor. Tem muito talento, nossa! Vamos chegar para jogar pelo título.”

Criado em alojamento
Casemiro não vê problemas em falar sobre quando seu pai saiu de casa, em São José dos Campos (a 97 km de São Paulo), quando tinha “três ou quatro anos”. “Ele se separou da minha mãe e eu nunca mais o vi. Depois teve alguma chance de nos revermos, mas não quis me aproximar, não. Tenho minha mãe, que me deixa muito feliz; que eu amo. Meus dois irmãos, um de 17 anos e uma de dez. Toda vez que entro em campo, sei que tenho de correr por ela, pensando nas dificuldades que tivemos. Só a gente sabe como foi difícil.”

O jogador deixou o Vale do Paraíba aos 11 anos, para ingressar nas categorias de base do São Paulo. Passou quatro anos no complexo construído em Cotia e, já integrado ao time principal, de contrato assinado, mais seis meses com conforto no Centro de Treinamento do clube, na capital. Para ele, essa experiência toda foi fundamental para moldar seu caráter, para além das quatro linhas “Sem dúvida, me ajudou a ser um jogador melhor. Mas também me ajudou muito a crescer como homem. Ainda mais no meu caso, que não tive um pai. Isso a gente carrega para dentro de campo. Em toda a base do São Paulo, eu sempre fui capitão.”

No Sul-Americano Sub-20, vencido pelo Brasil no Peru, a tarja de capitão foi entregue apenas nas vésperas da competição ao zagueiro Bruno Uvini, seu companheiro de clube, um ano mais velho que Casemiro e uma figura também habituada à braçadeira. No final, porém, foi o volante quem acabou erguendo a taça, devido a uma fratura na perna sofrida pelo defensor no hexagonal decisivo. Para quem seguiu o campeonato de perto, a foto do levantamento do troféu não causou estranhamento.

Só volante é pouco
É natural que os dribles e arrancadas dos atacantes Neymar e Lucas tenham canalizado as manchetes no Sul-Americano. Afinal, são os que geralmente decidem o jogo e bancam o espetáculo. Mas, em determinados momentos, a atuação de Casemiro foi tão importante quanto, como uma presença estabilizadora para a Seleçãozinha, graças à sua polivalência – tendo desempenhado o papéis de terceiro zagueiro, ou mesmo de meia ofensivo, dependendo das circunstâncias da partida. Sempre com a cabeça erguida e categoria.

Meia de origem, Casemiro foi recuado aos poucos até chegar à posição de primeiro volante na base são-paulina, preservando a técnica. “Mas sempre com a liberdade de sair para o ataque”, ressalta. “O pessoal sempre falava que o jogador hoje em dia tem de atuar em duas ou três funções, e a frase ficou na minha cabeça. Acho que posso fazer isso bem.” Seus anos como morador nos alojamentos do clube lhe renderam também mais tempo de trabalhar suas habilidades. “Nisso, o clube está de parabéns. Tudo fica mais fácil. Sempre depois dos treinos, aprimorava chute de fora da área, cabeceio, pênaltis. Mandava os goleiros irem para o gol para eu ficar chutando bola”, afirma o jogador, cujos olhos brilham ao apontar Zinédine Zidane como uma referência, ao lado do ex-são-paulino Hernanes, hoje na Lazio.

O resultado é um protótipo de um volante completo, que agora vem sendo trabalhado pelo técnico Paulo César Carpegiani, renomado meio-campista dos anos 70. “O professor fala comigo e me elogia bastante. Agora ele fala que eu preciso aprimorar um pouco a marcação, ter mais pegada na minha posição. E quem manda aqui é ele. Se ele pede, é para aprimorar isso mesmo."

Outra vida, outro Mundial
O São Paulo está na briga por dois títulos no primeiro semestre do ano – o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil –, que poderiam ser os segundo e terceiro de Casemiro. Ele também está de olho em um quarto, na Colômbia 2011, e só espera por outro desfecho em relação ao último Mundial da FIFA, o Sub-17 de dois anos atrás, no qual o Brasil caiu na primeira fase.

“Lá não deu nada certo para nós”, resume. “Só joguei uma partida, também. Mas tenho certeza de que agora será totalmente diferente. É uma Copa do Mundo da nossa idade: todo jogador quer disputar, e pode dar uma repercussão muito boa. Nossa equipe está em um nível muito alto, dos titulares aos reservas. Com 18, 19, 20 anos, tem gente no nosso time que já disputou muita coisa. É uma experiência de gente velha.”

Como no caso do volante. Ele ainda pode ser um garoto à frente de câmeras e microfones. Em casa e no campo, porém, joga como gente grande.
A+ A-