Bira Rocha: “Isso é um protocolo de más intenções”

Empresário critica termo assinado pela Petrobras para compensar o RN por perdas de investimentos e critica veementemente governos Lula e Wilma.

Elaine Vládia e Karla Larissa,
Vlademir Alexandre
Bira Rocha diz que se tornou muito religioso e que agora só acredita vendo.
Ele é criador de caprinos e ovinos, mas foi na sua atuação pública que ele ficou conhecido no Rio Grande do Norte. Com personalidade forte e ferrenho crítico de políticas públicas, Abelírio Rocha, o Bira Rocha, não poupa ninguém quando avalia o que está emperrando o desenvolvimento do estado.

Mesmo afastado de cargos públicos – foi presidente da Fiern, secretário nacional de Irrigação e estadual de Agricultura – ele acompanha o desenrolar do cenário político e econômico e se mostra insatisfeito com o comportamento dos governos federal e estadual. Em entrevista ao Nominuto.com, Bira Rocha diz porque se afastou totalmente da disputa pela Fiern e como vê a demora para a concretização de obras importantes.

Com frases de efeito, ele declara que o protocolo assinado entre Governo do Estado e Petrobras, logo após perda de refinaria, na verdade é um “protocolo de más intenções”. E diz ainda que o aeroporto de São Gonçalo e anúncio de que o Estado será considerado área livre de aftosa são traillers de filmes que nunca são lançados de fato.

O empresário também critica fortemente a parceria política de Wilma com Lula. Porém, elogia o presidente ter seguido a política de Fernando Henrique Cardoso e também seus programas sociais. O resultado dessa entrevista é um verdadeiro balanço de como a política está influenciando positiva ou negativamente para o desenvolvimento da região.

Nominuto.com - O senhor já ocupou diversos cargos importantes no cenário político e econômico do Rio Grande do Norte e neste momento acompanha, pelo menos, aparentemente de longe, disputas como a da Fiern, da política, nessa guerra de pré-candidaturas para as próximas eleições e também o anúncio de obras que demoram a ser concretizadas, como duplicação da BR 101 e aeroporto de São Gonçalo, ou também a perda de outras, como a refinaria, transnordestina. Como é para um homem conhecido por ter posicionamento crítico não estar mais à frente nas lutas por melhorias para o seu Estado?

Bira Rocha – Bom aí isso é uma pergunta muito longa, mas sabidamente há os lugares que ocupei tanto no campo político quanto econômico nós sempre deixamos alguma coisa que poderia ser aproveitada por quem vinha atrás e sempre pensando que aquilo era feito para o futuro. Tanto quando ocupei lugares de secretário nacional de Irrigação, elaborando a transposição do São Francisco, com o primeiro projeto elaborado, como secretário de Estado de Agricultura, iniciamos as barragens, como as grandes barragens de Parelhas, iniciamos o que chamamos o sistema de irrigação do Estado. Esse projeto junto, como os que quando estive na Fiern, no governo de Garibaldi, o Natal terceiro milênio, o pólo gás-sal, e tantos outros que ficaram aí iniciadas, eu hoje sinto frustração ao ver que a seqüência que foi dada a eles não foi uma seqüência desejável. Talvez eu tenha feito esse projeto para o Estado, não para mim que ocupava um cargo político correto. Mas hoje vejo que as pessoas estão nos cargos muito mais para ter um cargo político, pensando na eleição seguinte e não na geração seguinte, o Rio Grande do Norte tem sido patente isso, principalmente nossos governantes. Daí, você fala, vem a perda da refinaria, da transnordestina, perdemos a fábrica de PVC, o pólo químico, o aeroporto, eu diria que está mais para perder do que para ser realizado, porque os dirigentes que eram para estar pensando no povo, não pensam. Eles estão pensando na eleição seguinte e não na geração seguinte e chega um certo ponto que você vê que você está ficando um Dom Quixote, lutando sozinho. Eu vejo que dei minha contribuição e vejo que, entre aspas, é a hora de me aposentar.

NM– Isso significa realmente se aposentar? Porque em uma entrevista passada ao portal Nominuto.com o senhor falou que ia se aposentar, mas tocaria outros projetos. Quer dizer que está se aposentando tanto do cenário político, quanto econômico?

BR- Veja estamos falando de aposentadoria no que se refere a cargos públicos ou mesmo que não seja de cargo público, privados, mas que são coletivos. Me aposentei para isso. Pensando em aposentadoria em cargos públicos. Em outras palavras, eu não desejo nenhum cargo político, nenhum cargo de nomeação política, eu não desejo disputar nenhum cargo de federação ou sindicato. Para isto é que eu estou aposentado, mas para novos negócios sempre estou ativo isso me atrai e faz com que até mesmo eu reviva. Agora mesmo estou com um projeto pioneiro para transformar a ovinocultura em um negócio.

NM - O senhor se filiou ao PFL no final de 2005, mas declarando que o fazia, mas sem o compromisso de um dia se candidatar. Na ocasião chegou até mesmo a dizer que sua contribuição política era com debates, idéias, nos bastidores mesmo. Mas, como todo cenário muda e o ser humano também, diante de tantas insatisfações declaradas por você com relação às conjunturas econômica e política, o senhor não mudou de idéia? Não pensa em influenciar mais diretamente na sociedade, seja através do poder executivo ou legislativo?

BR - Não existe essa possibilidade. Filiado a partido eu sempre fui. Me pediam, um amigo pedia, alguém solicitava para eu participar. E acho que fazer política não é só disputar o cargo, disputar o voto. Pode-se fazer política dentro do partido, propondo, debatendo, formulando propostas, sem precisar ser eleito. Nunca me vi uma pessoa competente para pedir voto a ninguém. É um dom que nunca tive.

NM - Já no cenário econômico, vivemos uma última semana bastante conturbada com a eleição da Fiern. E mesmo diante de tanta briga judicial, o senhor não emitiu posicionamentos, como se esperava. Na eleição passada o senhor não conseguiu eleger um sucessor e a Justiça foi determinante para o resultado desfavorável à sua chapa. Agora, a eleição acabou, mas a guerra judicial continua. Você acredita ainda que Flávio Azevedo pode ser retirado da cadeira de presidente? Como avalia o comportamento da Justiça na avaliação de ações e recursos?

BR – Entender a Justiça brasileira é muito difícil. Você está falando da Fiern e eu sempre falo que na minha sucessão na Fiern, eu disse que uma área do judiciário fez com que 11 fosse menor do que 10 e que chegue sem fundo vale, nessa situação foi que doutor Flávio assumiu. E o que eu posso dizer, valeu, 11 foi menor do que 10 e cheque sem fundo valeu. Quando eu comuniquei aos amigos que me seguiaram, que eu pretendia me aposentar, que foi o que fiz e quando todo mundo que vinha me perguntando sobre sucessão da fiern eu sempre dizia: eu desliguei o transponder. E ainda continua desligado.

NM - Mas sobre essa eleição, você acredita que Flávio pode ser cassado?

BR- Eu não tenho a menor idéia. Eu não estava acompanhando, não me interessei. Eu apenas lastimo que há quatro anos a Fiern perdeu uma coisa fantástica: a sua liberdade, a sua autonomia, a sua independência. Isso é que é lastimável, hoje ela é comandada de fora pelo governo do estado. Isso é lastimável, ela não contesta, ela não propõe, apenas se omite. Nem de economia, nem faz nenhuma crítica construtiva ao governo.

NM- Esta semana um grupo de representantes do governo federal esteve em Natal para avaliar o andamento da obra do Aeroporto de São Gonçalo, uma obra tida como impulsionadora do turismo e da economia em geral. O governo federal informa que aplicou 100 milhões de reais e deve gastar mais 115 milhões para concluir pistas. No entanto, o terminal não está garantido. Ele só deve vir através de uma concessão pública comum ou uma PPP. Como o senhor está acompanhando as notícias sobre esse assunto?

BR – É como sempre tenho dito. É trailler que passa, mas não passa o filme. Várias vezes a governadora se reúne com o presidente Lula, várias vezes ela se reúne com a Petrobras, mas é sempre o trailer. Para mim é novamente um trailler de um filme que não existe.

NM - PPP ou concessão publica, como está sendo visto isso pelo senhor?

BR- É uma desculpa para dizer que a parceria que o governo do estado tem com Lula não é só política, é administrativa. Nenhum governante teve uma parceria tão forte com o governo federal como dona Wilma, mas não conseguiu transformar essa parceria política em administrativa. Afinal, o que teve essa parceria política de Wilma com Lula trouxe para o Estado? Mas eu digo: tirou transnordestina, a refinaria, o pólo petroquímico não fez o aeroporto. O ganho em desenvolvimento na parceria. Aí agora diz que vai para uma PPP para uma PPI. Uma PPI que é parceria privada imoral. Tenho muito medo disso.

NM - Ainda sobre o aeroporto, o representante da Infraero informa agora que final de 2010 ainda é uma data a se perseguir. Ainda acontecerá uma licitação para um estudo que identificará o modelo da concessão pública, para depois acontecer a licitação para contratar a empresa que quer construir para depois explorar o terminal. Como o senhor vê essa declaração? Acha que existe como agilizar a obra?

BR - Já é um mote de campanha para alguém tentar se eleger senador em 2010, dizendo que está lutando por isso.


NM - Ainda nesse mesmo campo, outra coisa que vem sendo divulgada pelo Governo do Estado é que a área em torno pode ser uma ZPE. O senhor acredita que finalmente a lei federal que regulamenta as ZPEs no Brasil (para 19 estados) vai sair? E o melhor lugar é São Gonçalo mesmo – antes seria em Macaíba?

BR – Faz 30 anos que falam em ZPE. Onde está o projeto? Cadê o projeto? Me mostre o projeto. Me mostre o estudo de viabilidade. Vai produzir o que? Vai ser uma ZPE para aproveitar matérias-primas locais ou vai importar para poder processar e depois exportar? Qual é a lógica da ZPE ? Em que aeroporto, porque esse aeroporto sai quando? Ou seja, são falácias e mais falácias para se fazer um mote de campanha. É mais uma.

NM- O senhor não acredita então?

BR - Eu não diria que é não acreditar. É que nos últimos anos passei a ser muito religioso, muito devoto de São Tomé. Acredito na palavra de São Tomé. Preciso ver para crer.


NM - Estamos em vias de ter a Ponte forte-redinha concluída. Segundo o secretário Adalberto Pessoa em novembro a governadora deve inaugurar a obra. No entanto, o empreendimento é cercado de críticas e ainda é alvo de questionamentos sobre superfaturamento. Como o senhor avalia a importância da Ponte e considera que a economia dará um salto após sua conclusão? 

BR – A ponte é sumamente importante. Ela é um elo de uma corrente fantástica que é o turismo que começa em Pipa, passa pela Rota do Sol, Ponta Negra, Via Costeira, e essa ponte agora que passaria para o litoral norte até o Ceará. É evidente que a ponte não foi pensada dentro desse projeto maior. Foi feita com a ponte em si como um projeto de eleição para governador, para prefeito. Mas tudo bem porque ela é valida. Mas a partir daí se utilizou a ponte para fazer isso que o Ministério Público está em cima, superfaturamento etc. E o secretário fala que vai ser inaugurada em novembro, ele não sabe de que ano. Tem já uns três novembros que ela está para ser inaugurada. Com relação a um superfaturamento se for, ela passa a ser Ponte de Todos para ser Ponte de Alguns.


NM – A planta de PVC também foi um dos projetos que o senhor lutou muito quando estava à frente da Fiern. E a maioria dos estudos apontou inviabilidade e o mais recente confirmou isso, ficando esse empreendimento descartado. Mas vai ser avaliada a viabilidade para outro material que o governo alega que é até melhor. No entanto, ainda depende de mais estudo. Como você considera isso?

BR- O projeto de PVC na verdade o que existe são projetos. Um feito pela Fiern, que é viável e a Petrobras questionou. Então o governo do Estado, à época Garibalde juntamente com a Petrobras fez estudo e deu viável a Petrobras agora diz que está inviável, por outro lado a Petrobras diz que pode produzir outra resina petroquímica. Mas nada garante que também pode ser produzida. E eu vi alguns discursos que tem que engrossar com a Petrobras, mas fica no discurso, fica na retórica. Ninguém toma uma atitude. Eu volto a lastimar porque estamos em uma péssima década, de péssima geração, de péssimos governantes, estamos com saudades dos governantes, como José Augusto, Aluisio Alves, apareceram que realmente lutavam com o espírito publico.

NM - Já que o senhor tocou nesse assunto, há muita discussão com relação ao retorno que a Petrobras dá ao RN pela extração de riquezas. Inclusive em certo momento, há alguns anos, o presidente da AL, Robinson Faria queria aprovar um projeto de lei para endurecer com a empresa no que diz respeito à carga tributária. E, no entanto, se voltou atrás quando foi assinado um protocolo de intenções entre o Governo e a Petrobras. Como o senhor avalia esse termo?

BR – Eu avalio da seguinte maneira: alguém coloca isso na mídia, faz um discurso dizendo que vai endurecer com a Petrobras, mas fica na retórica, não fica na prática.

NM - O senhor acha que realmente deveria haver endurecimento com a Petrobras?

Mas é lógico que deveria fazer. Eu sempre venho defendendo isso. Mas o que é que está havendo que não faz isso, todo mundo recuou. O estado do Rio Grande do Norte é um estado de acomodados.

NM - Como o senhor considera esse protocolo que o governo assinou?

BR – Considero um protocolo de más intenções. E está provado isso, porque não sai nada dele.

NM - O RN está prestes a ser considerado Área livre de Aftosa, algo que o senhor e toda a classe agropecuária vem lutando há anos. Quais as perspectivas que o senhor tem com essa mudança de classificação. Pode haver um salto nos negócios?

BR – Ver para crer. Faz seis anos que esse trailler passa e não passa o filme. Faz seis anos que dizem a mesma coisa. É a mesma historia do trailler que eu disse antes. Faz seis anos que dizem vai ser classificada como área livre na próxima festa do boi. Faz seis anos que falaram que ia criar o instituto. Alguém tem que ter um discurso na festa do boi dizendo que está quase tudo pronto. É mais uma pegadinha.

NM - No âmbito federal, acaba de ser prorrogada a CPMF. Como o senhor viu essa aprovação pelo Congresso?

BR – Eu pediria que as pessoas vissem o Lula candidato, dizendo que ia baixar a carga tributária e pegar o que aconteceu com a carga tributária de Lula presidente. Um crescimento da carga tributária anual fantástica.

NM – Como é que o senhor está vendo essas costuras políticas em torno das próximas eleições, com o surgimento, inclusive, de algumas pré-candidaturas?

BR – O que estou vendo até agora nessas conversas que estou vendo aí. Não estou vendo a construção de nenhum projeto para o Rio Grande do Norte. É um projeto para si próprio. Isso é que é lastimável.

NM – O senhor foi autor do primeiro projeto da Transposição e agora está se falando muito que finalmente vai sair. O senhor acredita que o projeto vai sair e que vai beneficiar o Rio Grande do Norte?

BR - O projeto que eu participei que eu fui o coordenador e que Rômulo foi o coordenador técnico é praticamente o mesmo que está sendo executado. Se ele for executar, acredito que até foi dado um passo importante, ele beneficiará muito o Rio Grande do Norte. É a segurança hídrica para o desenvolvimento econômico, principalmente a região de Mossoró, de Apodi. É sumamente importante. Eu agora passo a acreditar que vai sair porque já começou a sair alguma coisa de obra lá no Cabroró.

NM- Mas, diante então de tantas criticas ao governo federal, esse seria um ponto em que o senhor elogiaria?

BR - É um ponto altamente positivo do governo Lula, como é um ponto positivo do governo Lula ter seguido a política econômica do governo Fernando Henrique. A moeda nossa não foi valorizada, a inflação não voltou, ele seguiu o plano real.

NM - Qual o balanço do Governo Lula?

BR - Como se ele criasse um programa de desenvolvimento para o pessoal sair da Bolsa Família para o emprego. O Bolsa Família é positivo, mas o povo não pode ficar um eterno dependente. Há muitos pontos positivos, menos com relação a carga tributária e a questão ética.

NM - E qual o balanço do Governo Wilma?

BR- O governo Wilma foi um atraso grande. Comparo ao governo de Miguel Arraes, em Pernambuo. Eu pergunto qual o grande projeto do governo. Acho uma ponte válida, mas com mil questionamentos do MP. Eu que pergunto qual é o outro grande projeto do governo Wilma.
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