"Agora é a economia que vai pautar a política", diz consultor americano

Para o cientista político Christopher Garman, Congresso poderá adotar uma agenda populista, em vez de apoiar o ajuste fiscal e as reformas, se a economia continuar a patinar em 2020.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Richard Jopson/Eurasia
Cientista político Christopher Garman, da consultoria de risco Eurasia, disse que “agora é a economia que vai pautar a política”.

O cientista político americano Christopher Garman, responsável pela área de Américas da Eurasia, uma consultoria internacional de avaliação de riscos, tem um retrospecto notável em suas previsões sobre o Brasil. 

Em 2014, logo depois das eleições, Garman antecipou a formação de uma “tempestade perfeita” contra Dilma Rousseff, com a combinação de vários fatores negativos: um governo com sustentação política limitada e baixa credibilidade perante o mercado, um escândalo de corrupção “já contratado”, como o petrolão, e um cenário econômico complicado no exterior. Deu no que deu.

Em maio de 2018, quando os principais analistas do País apostavam na repetição do embate entre o PSDB e o PT ou numa disputa entre o PSDB e o PDT de Ciro Gomes, que subia nas pesquisas, ele acertou mais uma vez, ao afirmar que Jair Bolsonaro tinha grandes chances de chegar ao segundo turno e que sua candidatura deveria ser levada “mais a sério”, por representar o sentimento anti-establishment predominante na população de baixa renda e na classe média. 

Garman diz que, ao contrário do que aconteceu nos últimos cinco anos, “agora é a economia que vai pautar a política”. Segundo ele, a “retórica belicosa” de Bolsonaro “não é o principal motivo” de retração dos investidores internacionais. O cenário externo nebuloso, também não. Em sua visão, o que mais afeta hoje a percepção dos estrangeiros em relação ao Brasil é a lenta recuperação da economia.

Quanto à percepção de investidores e empresas internacionais acerca do Brasil, Garman afirmou que tanto as empresas multinacionais como o mercado financeiro reconhecem que, diante da grave crise macroeconômica do País, com forte desequilíbrio fiscal, a reforma da Previdência era necessária para haver qualquer recuperação da economia. "Passada essa etapa, que deve ser concluída até meados de outubro, com a aprovação da reforma pelo Senado, é claro que você tira um risco do horizonte. Mas a pergunta é: isso vai ser suficiente para voltar a atrair investimentos externos? A resposta provavelmente é não", disse.

Ele comentou ainda que o que mais atrapalha é o fato de a economia não estar se recuperando. "A recuperação ainda é bem modesta. O investidor de fora vê com bons olhos a ampla agenda de reformas que a equipe econômica e o próprio Congresso estão articulando. Vai de reforma tributária à abertura comercial e à reforma administrativa, passando por uma série medidas microeconômicas, como a autonomia do Banco Central e a liberalização do mercado de petróleo e gás", explica. 

Mas os detalhes dessas reformas, segundo Christopher Garman, ainda não foram apresentados e não se sabe a profundidade que elas terão. "Então, há um reconhecimento de que o Brasil está tendo alguns avanços, mas com pouca clareza se essa agenda de reformas, que têm mais impacto na produtividade, vai levar a um crescimento mais robusto nos próximos anos", destacou.

Tags: Christopher Garman Economia investidores internacionais retração
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