‘Personagens têm que ser crianças normais’, diz Mauricio de Sousa

Nos 60 anos da Turma da Mônica, desenhista defende inclusão mas rechaça mudanças por ‘modismos’ políticos e ideológicos.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Reprodução/Guia da Semana
Turma da Mônica se torna sexagenária neste ano e seu criador, o desenhista Maurício de Sousa, passa dos 83.

Assim que Mauricio de Sousa entra na sala onde ficam os redatores, desenhistas e roteiristas da Mauricio de Sousa Produções, um cachorro vem ao seu encontro. Não se trata de Bidu, o cãozinho azul eternizado em seus quadrinhos. É Maria da Penha, a vira-lata que pertence à sua filha Marina. “O Bidu é aquele ali”, diz ele, apontando para um schnauzer preto. Assim como Bidu, a Turma da Mônica se torna sexagenária neste ano e Maurício passa dos 83. “Eu procuro colocar muita gente jovem no meu estúdio, reforçando, reformando, religando, rejuvenescendo”, explica ele à repórter Marcela Paes, apontando uma das razões para a longevidade dos gibis que atravessam gerações sendo um dos maiores sucessos editoriais infantis do Brasil.

Apesar de ter alterado situações que não respeitam o politicamente correto – o caipira Chico Bento, por exemplo, hoje não é mais perseguido com uma espingarda quando quer roubar goiabas do vizinho – o desenhista é enfático em afirmar que não quer levantar bandeiras em suas histórias. A não ser que sejam plenamente aceitas pela sociedade: “Quando há uma mudança nos hábitos e costumes do povo acho que é normal o personagem seguir. Se é uma linha política ou então ideológica sugerindo coisas, aí não dá. Não dá porque são coisas temporárias ou fora do normal, forçadas às vezes por modismos. Nós não podemos fazer isso. Os personagens têm que ser crianças normais”, afirma.

Isso não significa que Mauricio não seja crítico a afirmações categóricas como a da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, segundo a qual no governo do presidente Jair Bolsonaro “meninas usam rosa e meninos usam azul”. Para ele, o governo precisa entender melhor o que a população está sentindo e querendo. “É um aprendizado, até, talvez, para os novos ministros seja um aprendizado, então, se precisar, mando umas cartilhas pra eles também. Com todo respeito, eles vão gostar”. Abaixo os principais trechos da entrevista.

A Turma da Mônica faz 60 anos neste ano. E em julho sai Laços, o primeiro filme em live action inspirado nos personagens. Como foi acompanhar a criação do longa?

Minha especialidade é desenho. Então, eu não tinha ainda cultura pra isso. Além disso, eu sempre achei que ia ser muito difícil achar figuras ao vivo, crianças, com as características dos personagens. Mais uma vez o Daniel Rezende (diretor do longa) me provou o contrário. Eles fizeram uma pesquisa entre milhares e milhares de crianças e escolheram quatro pequenos atores maravilhosos, eles vieram Turma da Mônica.

Como fazer com que as histórias se mantenham atuais para diferentes gerações de leitores?

Contratando gente jovem. Contratando artistas em crescimento e também, lógico, gente que conheça bem a Turma da Mônica. O pessoal chega pronto. Gente jovem no meu estúdio, reforçando, reformando, religando, rejuvenescendo. Não obstante, eu tenho uma equipe aqui de veteranos que estão com 50 anos de casa.

As história foram adaptadas em certos aspectos que não eram considerados politicamente corretos. O Chico Bento, por exemplo, não é mais perseguido com uma espingarda. Como você enxerga isso?

Quando há uma mudança nos hábitos e costumes do povo, acho que é normal o personagem seguir. Quando há uma linha ou política ou ideológica sugerindo coisas, aí não dá. Porque são coisas temporárias ou fora do normal, forçadas às vezes por modismos… Nós não podemos fazer isso. Os personagens têm que ser crianças normais. Criança briga, brinca, dá coelhada, mas depois faz as pazes. Então os nossos personagens têm que continuar crianças, como todas as crianças do mundo.

Você sente que as pessoas querem ver os personagens se adaptando, levantando novas bandeiras? Isso é cobrado?

De vozes esparsas sim, mas eu acompanho o que a maioria, o que a sociedade está falando, sugerindo. Tem que ser desse jeito porque a Turma da Mônica toda é classe média, não baixa, mas também não alta, e tem que seguir esse público. Tem personagens que representam a inclusão, mas não são bandeiras…

Como é o processo de criação de um novo personagem como esses?

Estava faltando isso. Eu me dei conta uma vez e comecei a estudar pra colocar os personagens com algum tipo de deficiência e tudo mais. Estudei muito junto com atletas, os paralímpicos, estudei lá na Dorina Nowill.

Como foi a elaboração da Milena, primeira protagonista negra da Turma?

Estudamos bastante também. Porque senão a gente pode errar por alguma bobagem, ter preconceito. A gente tem que vivenciar a coisa, e, de preferência, botar na equipe criativa pessoas de diferentes etnias e extratos também. A revista tem que atender ao público geral, ela não pode ser feita para um bloco só.

Em uma entrevista você declarou que seus personagens não levantariam bandeiras como a da identidade de gênero.

Não vão. Absolutamente. Numa história de criança? Não tem por quê. Agora, quando a Mônica e o Cebolinha crescerem, a próxima revista que podemos fazer será Turma da Mônica adulta, aí nós vamos conversar. E provavelmente vamos conversar com a sociedade. Não vamos conversar com uma só pessoa, com um guru, com um filósofo.

O que você achou da frase da ministra Damares Alves que afirmou que o Brasil está em uma nova era em que “meninos vestem azul e menina veste rosa”?

Eu acho que esse negócio tá meio antigo, né? A pessoa tem que ler um pouquinho mais, entender mais o que está acontecendo. Com todo respeito ao pessoal aí do governo, mas acho que tá na hora de entenderem melhor o que a população, o que a sociedade está achando, falando, vendo, sentindo. É um aprendizado. Talvez até para os novos ministros seja um aprendizado, então, se precisar, mando umas cartilhas pra eles também. Com todo respeito, eles vão gostar.

Os gibis são a primeira leitura de muitas crianças, mas mesmo assim o brasileiro é um povo que lê relativamente muito pouco. Como mudar isso?

Eu acho que o gibi ajuda bastante a criançada a se interessar pela leitura, e depois de algum tempo, como aconteceu comigo, o gibi não basta mais, você quer uma coisa mais sólida, mais forte. Talvez o brasileiro leia pouco por falta de revista ou livros de fácil aquisição, de fácil distribuição.

Acha que o preço dos livros e das revistas dificulta?

Eu acho que os meus gibis atualmente estão um pouquinho caros pro nível econômico normal do leitor, mas eu não posso fazer nada, são os custos da editora, da distribuidora, do papel que sobe e tudo mais. Não é comigo isso, mas eu fico torcendo pra não ser muito caro pra gente poder chegar mais longe.

A obra de Monteiro Lobato entrou em domínio público e a Maurício de Sousa Produções vai lançar um livro do autor com novas ilustrações e personagens da Turma da Mônica. Você acha que trechos da obra dele devem ser adaptados?

Depende do leitor que você pretende atingir. Se é criança, o texto tem que ser adequado a hoje. Se for para o público adulto, intelectualizado e tudo mais, deve ser original. Aí a editora que escolhe o caminho. O Monteiro Lobato foi o primeiro autor que eu descobri na leitura de livros. Até ler Lobato, eu só lia gibis.

A Turma da Mônica está se expandindo para vários países. Vocês adaptam as historinhas?

Não. A história que sai nos países em que nós estamos publicando,sai do jeito que a gente cria aqui. Há uma pequena exceção, aqui e ali. Por exemplo, nos países islâmicos a Mônica e a Magali não podem tomar banho de biquíni, têm que ter maiô inteiriço, então nós temos que retocar e fazer o maiô ficar inteirão. Em alguns países, nos Estados Unidos e Japão, por exemplo, é proibido cachorro solto na rua ou cachorro fazer xixi no poste. Mas nossas histórias são universais. Os personagens não mudam suas características para se adequar aos países.

O Horácio é o único personagem que você continua desenhando. Dizem que ele é seu alter ego. Isso é verdade?

Eu não consegui ainda fazer com que os meus roteiristas criassem uma história com a filosofia que eu gosto, que eu espero do Horácio. Então eu sou o escravo do Horácio até o fim da minha vida. Dizem mesmo que ele é meu alter ego. Talvez eu tenha que concordar, porque muita coisa que eu ponho do Horácio eu o faço sem planejar, sem pensar.

Recentemente você mandou personagens da Turma para uma escola em Minas depois de ter visto que eles fizeram uma apresentação com bonecos improvisados que eram muito feios. O que você acha desse tipo de reprodução?

Às vezes eu passo na frente dos lugares e vejo  aquelas pinturas dos personagens desenhadas nos muros, uma coisa meio rupestre (risos). Lá em Porto Alegre, por exemplo, eu desci do carro, toquei a campainha e chamei a diretora da escola. Tinha aquele muro cheio de monstruosidades. ‘Eu disse: Vocês que pintaram aí? ‘É’. ‘Uma homenagem, né?’ Você sabe quem eu sou?’ ‘Mauricio de Sousa? ‘Ai, seu Mauricio…’(risos).

E o que você fez?

Eu disse que tinha gostado muito da homenagem, mas não da execução. O que eu fiz? Peguei a medida do muro e mandei um desenho certinho pra eles pintarem. Já fiz isso várias vezes. A experiência de mandar personagens da Turma para uma escola também foi legal. Os professores gostaram tanto ou mais que os alunos. Pretendo repetir.

Tags: Cultura Lazer Mauricio de Sousa
A+ A-