Kazuo Ishiguro é o Prêmio Nobel de Literatura de 2017

Academia atribuiu distinção a escritor nipo-britânico que é autor de sete romances.

Da redação, Estadão Conteúdo,
Andrew Testa/The News York Times
Segundo a academia, romances de Kazuo Ishiguro revelam o abismo sob a nossa 'ilusória noção de conexão com o mundo'.

Kazuo Ishiguro é o Prêmio Nobel de Literatura de 2017. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (5) em Estocolmo. A Academia atribuiu a distinção a ele "que, em seus romances de grande força emocional, revelou o abismo sob a nossa ilusória noção de conexão com o mundo". Depois da escolha pouco ortodoxa em 2016, com Bob Dylan, a premiação voltou a escolher um escritor mais tradicional: Ishiguro é conhecido por seus sete romances, lançados entre 1982 e 2015 (quatro deles, e um livro de contos, publicados no Brasil pela Companhia das Letras).

"Se você misturar Jane Austen e Franz Kafka, e adicionar um pouco de Marcel Proust, e aí misturar, mas não muito, pode-se ter uma ideia do trabalho de Ishiguro", disse a secretária permanente da Academia Sueca, Sara Danius, logo após a divulgação. "Ele desenvolveu um universo estético muito próprio."

Questionada sobre a obra pouco numerosa de Ishiguro (são sete romances desde 1982), Danius disse que a Academia recompensa um corpo de trabalho, "mas esse conceito pode significar muitas coisas".

"Ele é muito interessado em entender o passado, não para redimi-lo, mas para explorar o que deve ser esquecido, para sobreviver, em primeiro lugar, como indivíduo ou sociedade", concluiu.

Em entrevista ao jornal Estado de São Paulo, em 2015, Ishiguro explorou suas preocupações com a memória (particular e social). "Escrever é minha única forma de preservar a memória – não de uma forma científica, mas de como o homem consegue preservar sua dignidade ao longo dos tempos", disse na ocasião. "É o que me faz voltar ao conflito central do romance: é melhor preservar alguma lembrança que ponha em risco aquela sociedade ou seria mais prudente esquecê-la para preservar a paz?"

O Gigante Enterrado, seu romance mais recente lançado em 2015, é uma curiosa incursão por uma Inglaterra medieval, cuja população sofre com ameaças que vão de uma invasão de ogros até uma misteriosa névoa que estimula o esquecimento. Ele disse, porém, ter evitado influências externas como a de Game of Thrones, por exemplo.

"Toda sociedade tem algo enterrado na memória graças à ação de uma força bruta. Em meu romance, questiono se essas lembranças não estão de fato enterradas e se elas, ao ressurgirem, não podem provocar um novo ciclo de violência. Isso leva a um novo dilema, pois não sabemos se é melhor provocar mesmo um conflito para então recomeçar ou se seria melhor manter essa memória enterrada e esquecida", disse.

Na entrevista, ele também se revelou fã de Bossa Nova: "adoro João Gilberto e Roberto Menescal".

Ishiguro nasceu em Nagasaki, no Japão, em 8 de novembro de 1954, mas sua família se mudou para o Reino Unido quando ele tinha cinco anos. Ele só voltaria ao Japão depois de adulto.

Depois de se graduar em filosofia e escrita criativa no fim dos anos 1970, ele lançou seu primeiro romance, A Pale View of Hills, em 1982, e desde então se dedica totalmente à literatura.

Seu livro seguinte foi An Artist of the Floating World (1986). Esses dois primeiros romances se passam em Nagasaki, poucos anos após a Segunda Guerra, e os temas aos quais a escrita de Ishiguro é associada já estão presentes aqui: tempo, memória e desilusão.

O romance seguinte, Vestígios do Dia (1989), recebeu o Man Booker Prize daquele ano e é provavelmente seu trabalho mais conhecido (um filme com Anthony Hopkins fez sucesso em Hollywood).

Tags: Mundo Nobel de Literatura
A+ A-