Sidarta Ribeiro trata sobre sono, sonho e neurociência na Festa Literária de Paraty

Neurocientista lançou recentemente "O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho" pela Companhia das Letras.

Da redação, Estadão Conteúdo com Flip,

sidarta_oraculo_370Convidado para substituir o americano Stuart Firestein, que cancelou sua participação na última hora, o neurocientista Sidarta Ribeiro participou pela segunda vez da Festa Literária Internacional de Paraty ontem (13) dessa vez para falar sobre os temas de seu recente livro O Oráculo da Noite: A História e a Ciência do Sonho (Companhia das Letras). 

No livro, com base em dados históricos, antropológicos e de diversos campos das ciências médicas, o pesquisador investiga a história do sono e dos sonhos, e a relaciona com outras áreas do conhecimento, das teorias da evolução à psicanálise e às artes criativas.

Segundo o autor, o sonho só aparece depois que os animais passam a jogar. Isso fica claro com os mamíferos. “Um tigre não nasce sabendo caçar, ele vai aprendendo conforme brinca com seus irmãos”, disse. É no sonho, assim como acontece com os humanos, que os tigres terminarão de apreender o conhecimento necessário para caçar. “Jogar é sonhar acordado”, continuou. A diferença entre o sonho de um tigre e o de um humano é a quantidade de coisas que podem ser sonhadas. Para os homens, tudo começou a mudar quando o luto, identificado em outros animais, transformou-se em rituais pós-morte.

"O livro convida o leitor a reaprender a lembrar o que sonhou", explicou o professor.

Na opinião dele, os humanos precisam reaver a capacidade primitiva de "prever o futuro" utilizando sonhos. Uma possível teoria da evolução apresentada na palestra diz que a saída dos primeiros homens das cavernas pode ter sido fruto do acúmulo cultural propiciado pela crença de que os mortos estão vivos em outro local - crença derivada de "aparições" de entes queridos em sonhos.

Ao comentar as necessidades de iluminação da humanidade, ele disse: "Temos de nos libertar do instinto antigo do ‘farinha é pouca, quero meu pirão primeiro’. Esse é um pensamento paleolítico. Já existe riqueza para todo mundo, estamos a um passo para ficar muito bem - mas a um também para ficar muito mal. Se a gente permitir que os robôs façam os trabalhos das pessoas e elas fiquem sem dinheiro, acabou. A hora que um robô comer o primeiro hambúrguer, é o fim", disse. "Nós trocamos a sabedoria milenar por outros conhecimentos. Ou integramos, ou… é evidente que esse negócio está dando errado."

A relação entre sonho e morte, de acordo com Ribeiro, pode explicar a saída do homem da caverna, ou seja, o início da evolução cultural. Para demonstrar isso, o cientista pediu que o público se imaginasse em uma caverna pré-histórica. “Se vocês sonhassem com a avó falecida dizendo que era melhor fechar uma das saídas da caverna porque os leões iriam atacar, o que vocês fariam?”, indagou. A caverna seria fechada, o ataque não aconteceria e o conselho seria visto como uma premonição.

oraculo_livro_370O mais simples seria acreditar que a avó existia em um outro plano. “Daí vem a saída do homem da caverna: é a procura por outro plano, o que daria na crença em deuses e nas religiões”, explicou. “Muitos anos se passaram até Freud falar do inconsciente, antecipando uma série de descobertas da neurociência”, continuou. “O que vivemos no dia a dia reflete-se no sonho, e quando sonhamos com alguma coisa, fazemos ela melhor depois.”

Um dos estudos a que o cientista se propõe é o consumo de substâncias para alteração de estados de consciência. "A integração pode ocorrer bebendo na fonte ou desenvolvendo métodos contemporâneos de consumo."

Fundador e neurocientista do Instituto do Cérebro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Ribeiro foi questionado pelo público sobre o impacto do uso contínuo de aparelhos celulares sobre o sono.

"O led azul das telas de computador impede a formação de melatonina e o cérebro não fica sabendo que você tem de dormir. Se você vai dormir às 4h da manhã, você vai contra a maré, porque o corpo inteiro quer acordar. Costuma-se falar em expropriar terras, mas às vezes expropriamos a nós mesmos nesse sentido", explicou. 

Segundo o pesquisador, a privação do sono pode gerar doenças como obesidade, depressão, mal de Alzheimer. "A ciência biomédica já apoia muito o fato de se alimentar e dormir bem e fazer exercícios. É o suficiente para muitos tratamentos. Mas queremos fazer tudo errado e compensar com remédio".

“Foi o sonho que nos trouxe até aqui, que noz fez sair daquela caverna, mas estamos esquecendo da importância premonitória que ele sempre teve. Trocamos nossa sabedoria milenar por outros conhecimentos e isso não está dando certo. Que dê tempo de voltar a sonhar e mudar esse futuro”, concluiu.

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