Malabaristas do asfalto

Anônimos transformam semáforo em picadeiro e mostram na rua a essência da arte circense.

Itaércio Porpino,
Itaércio Porpino
Artistas anônimos ganham a vida equilibrando-se em monociclos e fazendo malabarismo nos sinais.
A mudança de cor do farol é a deixa para o artista entrar em cena: o sinal passa de verde a vermelho e ele ganha o meio da rua equilibrando-se em um monociclo; ou então fazendo malabarismo — ora jogando facas ao ar, ora clavas de fogo. Não se cobra nada pelo espetáculo, mas é bom se o distinto cidadão que passa de carro contribuir com um trocado em reconhecimento ao trabalho. Também é de grande valor um aplauso, um sorriso, um gesto de incentivo.

Os malabaristas que os natalenses têm se habituado a ver nos cruzamentos da cidade não buscam muito mais que isso. Eles fazem arte pela arte. Vivem da rua (não confundir com "na rua") e têm como maior patrimônio a liberdade. A grande maioria é de fora do Rio Grande do Norte - talvez todos. Gente que leva uma vida itinerante, rodando o Brasil e até países vizinhos.

Breno Siqueira, 22 anos, e Michele Magalhães, 23, são de Belém do Pará; Sinomar José do Nascimento, 30, de Pernambuco. Os dois primeiros vivem juntos e chegaram há pouco menos de um mês. Antes, passaram por Fortaleza. Já Sinomar está na cidade há mais de mês e é na casa que ele alugou que os outros estão hospedados.

"Nós vivemos da rua, o que é diferente de viver na rua, embora muita gente faça essa confusão e nos discrimine", diz Breno.

Também, ao contrário do que se possa pensar, nenhum deles é egresso de circo. Todos aprenderam a arte do malabarismo com outros artistas de rua. "Aprendi com uma galera que viajava. Passando por Belém, essa turma ficou hospedada lá em casa. Aí fui começando a treinar e também a fazer os materiais", conta Michele. 

 
Breno e Michele: "Vivemos da rua e não na rua". 
Não demorou muito para que ela botasse o pé na estrada e deixasse para trás a vida comum que levava. "Trabalhava como caixa de shopping, emprego muito chato", lembra.

Breno interessou-se pelo malabarismo incentivado pela namorada. "Fui pegando gosto aos poucos e descobri que o que eu queria para a minha vida era isso. Não consigo ficar muito tempo no mesmo canto, acho monótono", diz o artista, que em Belém trabalhava como motorista. Ele, então, largou tudo e, ao lado de Michele, partiu sem destino.

Parando numa e noutra cidade, os dois vieram cortando o Norte-Nordeste até chegar em Natal. Eles se apresentam sempre juntos nos semáforos. Ela no monociclo pequeno e ele no grande (a "girafa").

Impressiona principalmente a desenvoltura de Breno em números considerados muito difíceis, levando-se em consideração o pouco tempo que ele tem como malabarista. Ao mesmo tempo em que se equilibra sobre o monociclo, o artista faz malabarismo com facas. E também utiliza clavas com fogo.

Sinomar José do Nascimento, cuja especialidade é a faca, diz que no Brasil tem poucos malabaristas de rua comparado a países como Chile e Argentina, mas, segundo ele, os nossos têm muita qualidade. "Os argentinos não conseguem fazer o mesmo que Breno com apenas dois anos de treinamento. Para chegar no nível dele, é preciso muita dedicação, coisa que o brasileiro tem".

Sinomar é pernambucano, mas sua história como artista de rua começou em Belém, onde morou por seis anos e conheceu Breno, Michele e outras pessoas que faziam malabarismo. Decidido a entrar nessa vida de saltimbanco, passou a praticar sem parar. Em dois anos, viajou quase todo o Norte e Nordeste. Já esteve na Bolívia, Peru, Guiana Inglesa e Venezuela. Tudo com o dinheiro que ganha nas ruas e em festas.

Sim, porque a apresentação nos semáforos dá algum dinheiro, mas é muito mais para ser visto e conseguir um contrato para eventos. Fora isso, o artista não tem nenhuma ambição. "Gostamos dessa vida simples, de 'viajeiro', sem conta, carro, bens. O bom é estar no mundo, livre, aprendendo sempre. A rua tem muito o que ensinar. Foi nela que a arte do circo nasceu".

Malabarista, pallhaço, saltimbanco

Argemiro Andrelino da Silva Júnior, pernambucano, 33 anos, malabarista, palhaço, artista de rua. Ele está há quatro anos nessa vida, depois de se encantar com uma trupe de artistas de rua que viu passando por Cabrobró, sertão pernambucano. 

Itaércio Porpino
Argemiro aprendeu malabarismo com uma trupe de artistas de rua.
"Fui vendedor de tecidos, autônomo, fiz de tudo nessa vida até me achar no malabarismo. Olhando os outros fazerem, comecei a praticar e aprendi. No começo, fabricava as clavas artesanalmente, de garrafa de refrigerante, mas depois que comecei a ganhar dinheiro com o malabarismo e comprei clavas profissionais", diz.

A dedicação e disciplina exigidas para se aprender a arte do malabarismo só fizeram bem a Argemiro. "Eu bebia muito e parei, passei a dormir mais cedo e a acordar mais cedo, e também a me alimentar melhor". Argemiro está em Natal há quatro meses. Ele achou a cidade boa de se viver e alugou uma casa na Cidade da Esperança, que usa praticamente apenas para dormir e para guardar suas coisas e material de trabalho, que é muito.

"Ando em monociclo, faço malabarismo com fogo, com espadas. Vivo viajando. Esse é o melhor trabalho do mundo, porque a gente viaja, conhece outras culturas, comidas e costumes. E não tem preocupação com nada", diz o artista, já botando o nariz de palhaço e se aprontando pra mais um espetáculo que começa quando o farol vermelho acende.
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