Abalos sísmicos: o Nominuto tira suas dúvidas a respeito do tema

Por que e como a terra tremeu em locais diversos, como Poço Branco e Haiti?

Rogério Torquato,

Há algum tempo não se dava notícia de duas ocasiões praticamente seguidas em que a terra ficou agitada - há alguns dias a região de Poço Branco e Taipu se viu às voltas com um tremor de 4,1 graus na escala Richter,e os mais velhos lembraram de pronto do terremoto de João Câmara de 1986 e de outro mais antigo na região, na década de 1950.

 

Menos de dois dias depois, o Haiti foi devastado por um abalo de pouco mais de 7 graus, com muitas mortes. Mais recentemente, a Venezuela também sentiu o chão tremer. Não deu outra: muitas dúvidas sobre o assunto voltaram a povoar as mentes das pessoas - e a reportagem foi a campo em busca de explicações.

 

 

01. O que vem a ser um abalo sísmico?

Um abalo sísmico - também conhecido por sismo ou, mais popularmente, terremoto - é quando ocorre uma vibração busca e rápida da superfície terrestre em uma determinada região. Essa vibração (o popular "tremor") é causada pelo movimento de placas tectônicas, mas também pode ser causada por alguma atividade vulcânica, ou ainda outros fatores. Esse movimento nas profundezas libera uma grande energia, que é sentida na forma de ondas, que podem ser medidas.

 

02. Placas tectônicas? Dá para explicar?

Para começo de conversa, a Terra não é um planeta com uma constituição compacta, "por igual", como uma biloca de ferro. A grosso modo, os continentes e o piso dos oceanos são formados por peças, a lembrar um quebra-cabeças ou uma bola de futebol profissional - cada "peça" é denominada placa tectônica. E essas placas não são exatamente fixas, elas têm um movimento lentíssimo que só é notado ao longo de milhares de anos. Quando ocorre algum movimento entre duas placas ou em algum setor de uma placa, o efeito é um sismo, que pode ser tão fraco que sequer seja notado, ou tão forte que devaste grandes regiões.

 

03. A imprensa adora falar sobre um tal de "epicentro", quando divulga um terremoto em algum lugar. Que bicho é esse?

O epicentro de um sismo é o local da superfície onde a onda transmitida pelo tremor gerado nas profundezas chega primeiro. Nesse ponto os abalos são mais violentos e desastrosos, que vão se atenuando à medida que dele se afastam.

 

04. Também já ouvi falar num tal de hipocentro...ele existe ou é só conversa?

Ele existe, sim. Hipocentro é o nome dado ao ponto profundo da crosta terrestre de onde parte o terremoto.

 

05. E a igualmente lembrada escala Richter? O que que dizer?

É uma escala usada para calcular a intensidade ou amplitude de um sismo. É uma escala logarítmica - cada grau corresponde a um abalo dez vezes mais intenso (e que libera cerca de 31 vezes mais energia) que o grau anterior; um abalo de escala 5, por exemplo, é 10 vezes mais intenso que um de grau 4, e 100 vezes mais que um de grau 3. A escala Richter começa do valor zero, e em tese não há limite - se bem que não há notícia de abalo algum que tenha alcançado 10 graus.

 

06. E o grau zero da escala, é zero mesmo?

É um fato curioso: o grau zero da escala Richter não vale zero! Na verdade, o zero da escala corresponde a cerca de 800 joules - valor correspondente ao choque produzido por uma pessoa pulando de cima de uma mesa - e era o menor valor que podia ser registrado em um sismógrafo da década de 1930, época que os pesquisadores Charles Richter e Beno Gutenberg criaram a escala. Hoje, dada a sofisticação dos sismógrafos, é possível até se registrar valores negativos nessa escala (!). Apesar de existirem escalas mais recentes e precisas, a Richter ainda é bastante empregada.

 

07. Joules? Dá para trocar em miúdos?

É uma medida de energia ou de trabalho bastante usada em Física. Um joule corresponde ao esforço exigido para arrastar uma massa de um quilo por um percurso de um metro, com uma aceleração de 1 metro por segundo quadrado. Para mais detalhes, pode-se consultar algum aluno mais curioso em Física no ensino Médio ou um bom professor da disciplina.

 

08. Por que, no caso recente de Poço Branco, inicialmente se divulgou que o abalo foi de 3,8 graus e depois foi informado que o mesmo foi de 4,1 graus?

Segundo professores de sismologia da UFRN, são tomados os valores em vários pontos onde o tremor pôde ser captado por sismógrafos, tirando-se a partir daí uma média. A média que a UFRN tinha com os pontos disponíveis num primeiro instante era de 3,8; mais tarde, com a adição de outros pontos, o valor subiu.

 

09. O que é um sismógrafo?

Sismógrafo é o nome do equipamento usado para medir a duração, intensidade e direção dos movimentos causados pelos sismos.

 

10. Já vi umas tirinhas riscadas que dizem serem registros de terremoto. Elas têm um nome? Para que servem?

Sim. O registro gerado pelo sismógrafo, em papel ou por meio eletrônico, é denominado sismograma, e além de permitir conhecer a intensidade do sismo, funciona como uma espécie de "impressão digital": os sismos registrados em uma determinada região guardam certas semelhanças entre si, permitindo saber com alguma exatidão a origem de alguns abalos, ou mesmo detectar novas áreas.

 

11. Meu professor de Geografia me disse certa vez que há lugares bem mais agitados que o Rio Grande do Norte e o Haiti em termos de abalos...

Um dos lugares mais agitados, nesse sentido, é o chamado Cinturão de Fogo do Pacífico - um setor que envolve vários países, como o Japão (onde alguns edifícios têm "amortecedores" por conta das instabilidades do terreno), as Filipinas e a Indonésia. A Cordilheira dos Andes, a costa Oeste da América do Norte, locais com montanhas bem altas - consideradas de constituição geológica "recente" - e pontos onde placas tectônicas se encontram são sujeitos a instabilidades consideráveis.

 

12. Por que quando se fala em tremores de terra no RN, a região de João Câmara, Poço Branco, Taipu e arredores está sempre nas bocas?

É que, desde longa data, a região é conhecida dos sismólogos, por haver ali uma falha geológica, e portanto sujeita a tremores eventuais. Aliás, para quem pensa que "não há terremoto no Brasil", é bom saber: o Nordeste é uma das principais regiões de atividade de sismos no país, com registros de tremores desde o século XVIII. Aos mais novos: João Câmara ficou conhecida em fins de 1986 por ter sido lá registrado um abalo de 5,3 graus Richter, um dos maiores do país na ocasião.

 

13. O que vem a ser uma falha geológica?

É uma extensão de rocha onde se observam deslocamentos paralelos de blocos em relação a uma extensão vizinha que não se move (denominada "fratura").

 

14. Dá para explicar essa história de falha geológica de João Câmara e arredores?

Não é exatamente "a falha", mas as falhas. Uma detectada na localidade de Samambaia, no município de João Câmara; outra, no município de Poço Branco. Não está descartada a possibilidade de existir uma terceira falha geológica na região - o que está sendo pesquisado no momento.

 

15. E no Haiti, o que aconteceu?

No Haiti a situação é mais complicada que em João Câmara: o país está muito próximo a um encontro de duas placas tectônicas continentais; e houve atrito entre elas, o que foi sentido naquele país.

 

16. Pergunta meio boba: existe alguma relação entre os tremores de Poço Branco e do Haiti?

Nenhuma. As origens são diferentes. No Haiti a causa do tremor foi o atrito entre duas placas tectônicas principais, onde qualquer pequeno movimento libera uma energia descomunal; já a da região de Poço Branco foi um movimento milimétrico de "acomodação" da falha geológica, que fica dentro de uma placa (a da América do Sul, no caso) - que também libera bastante energia, mas bem menos que o que ocorreu no Haiti.

 

17. Já ocorreu algum terremoto mais devastador que o do Haiti?

Já. Abalos que alcancem 8 graus na escala Richter são tremendamente devastadores. Um abalo dessa natureza tem quase um milhão de vezes mais força que os tremores sentidos em Poço Branco. Alguns abalos mais violentos chegaram a 8,9 pontos na escala (como no Japão, em 1933, e no Equador, em 1906). Há notícia histórica de um terremoto terrível em Portugal, em 1755, que destruiu Lisboa - acredita-se que o terremoto tenha atingido absurdos 9 graus (uma força aproximadamente um bilhão de vezes maior que a do abalo de Poço Branco).

 

18. Qual é a sucessão de acontecimentos antes e após um abalo sísmico?

O primeiro abalo costuma ser o mais forte, e dura alguns segundos. Em terras potiguares, alguns descrevem esse abalo mais forte começando com um "ruído surdo, distante e fofo" ou mesmo parecendo "um grande caminhão ou carreta passando bem ao lado", e aí sente-se a terra tremer. Depois do primeiro abalo mais forte costumam seguir-se outros, com menor intensidade, algo que pode durar de dias a meses (neste último caso, caracterizando o chamado "enxame sísmico", que deixa as populações apreensivas e a Defesa Civil local em alerta; há relatos de enxames sísmicos no Nordeste com duração de até dez anos).

 

19. Os terremotos ocorrem apenas em regiões de terra "seca"?

Não. Tanto podem acontecer sob as regiões continentais - a terra "seca" - quanto sob as regiões oceânicas. A um terremoto em região oceânica (também denominado maremoto) podem seguir-se ondas e massas de água de tamanho e força consideráveis, destruindo o que estiver em seu caminho - os chamados "tsunamis".

 

20. Tsunami e maremoto são a mesma coisa?

Pode parecer a mesma coisa que o maremoto, nas não é. O tsunami - que em terras ocidentais parece ter se tornado uma palavra "da moda" - se refere apenas à(s) grande(s) onda(s) gerada(s) após alguma perturbação repentina que agite para cima e para baixo uma coluna de água, perturbação essa que pode ser causada por um sismo, uma movimentação abrupta de trechos de terra ou de gelo, atividade vulcânica ou mesmo por efeito de queda de meteoritos. Já o maremoto é especificamente um terremoto no fundo do mar, e que pode originar um tsunami.

 

 

* Foram consultados livros de Geologia, Geografia e Física, entrevistas de professores de sismologia da UFRN, o Almanaque Abril, memória de moradores da região de Poço Branco, e os arquivos do Nominuto.com

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