20 Perguntas sobre células-tronco

Nominuto.com esclarece as principais dúvidas sobre o polêmico assunto.

Karla Larissa,
Considerada esperança para o tratamento de muitas doenças, como leucemias, diabetes, distrofia muscular e doenças neurodegenerativas, as pesquisas com células-tronco são também alvo de muita polêmica, principalmente, quando se trata de células embrionárias.

No Brasil, a decisão de permitir este tipo de pesquisa estava nas mãos do Supremo Tribunal Federal que no julgamento encerrado esta semana decidiu autorizar as pesquisas com as células-tronco embrionárias.

O Nominuto.com divulga as 20 perguntas sobre células-tronco publicadas no NaSemana de 5 de abril. Foram consultados o Departamento de Ciências Biológicas da UFRN, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o Supremo Tribunal Federal e entrevistas concedidas pela geneticista Mayana Zatz à revista Veja.

1- O que são células-tronco?

As células-tronco ou estaminais são aquelas capazes de se diferenciar e assim estruturar diferentes tecidos do organismo. Estas células têm como principais características à capacidade de auto-replicação, alto potencial de diferenciação e proliferação durante toda a vida do organismo.

2- Quais os tipos de células-tronco?

Existem diferentes tipos de células-tronco, mas a principal diferença está na existência. Dessa forma, podem ser definidas como células-tronco embrionárias e células precursoras do organismo já desenvolvido, chamadas células-tronco adultas.

3- Que tipos de células-tronco são mais utilizadas em pesquisas? Por quê?

As células-tronco mais utilizadas em pesquisas são as adultas por serem de mais fácil acesso, inclusive podendo ser extraídas do cordão umbilical. Porém, as células-tronco adultas têm resultados limitados com relação às células-tronco embrionárias, que podem dar origem a qualquer um dos 216 tipos de tecidos que formam o corpo humano.

4- Que tipos de tecidos e órgãos podem ser produzidos com o uso das células-tronco?

As células-tronco podem dar origem a tecidos muscular, nervoso, sangüíneo, cartilaginoso e ósseo. Sobre a diferenciação em órgãos ainda tem poucas pesquisas e que estão em fase inicial.

5- As pesquisas com células-tronco podem ajudar no tratamento de quais doenças?

As pesquisas realizadas apontam que as células-tronco podem ser importantes para o tratamento de doenças como leucemias, diabetes, distrofia muscular, doenças neurodegenerativas, como mal de Parkinson, cirroses hepáticas, hepatite, e acidentes com complicação da medula espinhal.

6- Na prática, que pessoas podem ser beneficiadas por essas pesquisas em um prazo mais curto?

A leucemia é uma das doenças que o tratamento já faz uso das células-tronco, que é retirada da medula óssea de um doador compatível. Para outras doenças existem muitos estudos, mas que não devem ter resultado em um prazo curto.

7- As células-tronco poderão curar o câncer?

Não há ainda estudos com células-tronco que levem à cura de câncer, como prostático, de pulmão ou renal. Contudo, como as células-tronco podem se diferenciar, é possível que no futuro possa originar uma cura para outros tipos de câncer, além da leucemia.

8 – Qual a diferença entre clonagem e pesquisas com células-tronco?

A clonagem é a geração de uma célula idêntica a gerada. As células-tronco são um clone da antecessora até o momento em que se diferencia.

9 - O que é clonagem terapêutica?

A clonagem terapêutica consiste na transferência de núcleos de uma célula para um óvulo sem núcleo. Este óvulo dará origem a um embrião, do qual se retiram as células-tronco. Este tipo de clonagem é diferente da clonagem reprodutiva, que é quando um embrião clonado é implantado em um útero, com o objetivo de reprodução de pessoas.

10- Quais os grupos de pesquisas mais avançados? 

As pesquisas com células-tronco embrionárias são mais avançadas na Inglaterra, Austrália e Israel, onde a lei permite esse tipo de pesquisa há muito tempo. Nesses países existe um ambiente mais favorável como recursos para as pesquisas e cientistas de ponta. 

11- Como o Brasil se insere nesse contexto das pesquisas?


No Brasil, existem alguns centros de excelência, mas o número de cientistas que dominam a técnica e são capazes de fazer o que se faz nos países desenvolvidos ainda são insuficientes. Uma das principais pesquisadoras de células-tronco do país é a geneticista e diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano (USP), Mayana Zatz. Na Bahia, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz estão tratando com sucesso cardiopatias causadas pela doença de Chagas. No Hospital Pró-Cardíaco do Rio de Janeiro e no Instituto do Coração de São Paulo, células-tronco são usadas em pacientes que sofreram infarto.

12- No Rio Grande do Norte existe algum grupo que pesquise células-tronco?

Em Natal há um grupo formado por profissionais de várias áreas, ligados a UFRN. A pesquisa é voltada para regeneração óssea e interação com implantes de titânio ortodônticos e ortopédicos. O estudo visa observar a proliferação e diferenciação das células-tronco em superfícies de titânio. Isso porque em implantes geralmente se forma um vácuo e com as células-tronco há uma possibilidade de integração.

13- Qual a técnica para extração das células-tronco embrionárias?

As células-tronco embrionárias devem ser extraídas entre o 12º e o 14º dia do desenvolvimento do embrião, ou seja, antes de desenvolver o sistema nervoso. Para isso, são utilizados embriões descartados de experiências de inseminação artificial.

14- Que tipo de embrião é utilizado?

A legislação brasileira permite apenas a utilização de embriões inviáveis e congelados há mais de três anos. Mas, para que o estudo seja feito, os pais devem autorizar a pesquisa expressamente.

15- Qual o questionamento ético e religioso a respeito das células-tronco?

O principal questionamento a respeito das pesquisas com células-tronco é com relação ao uso de embriões. A discussão gira em torno de quando começa a vida humana. Os cientistas defendem que a vida humana começa com a formação do sistema nervoso e, portanto, os embriões usados não seriam ainda um ser humano. Já os opositores acreditam que a vida humana começa com a fecundação e, com isso, o uso de embriões seria ferir o direito à vida.

16- Que setores são contrários as pesquisas?

Os principais opositores das pesquisas com células-tronco embrionárias são grupos religiosos. Porém, um pequeno grupo de cientistas também se opõe às pesquisas, alegando que as células-tronco adultas podem ser usadas em substituição às células embrionárias nas pesquisas científicas. Eles ainda defendem que existe vida humana a partir da fecundação.

17- Qual a posição da Igreja Católica?

A Igreja Católica é a principal opositora das pesquisas com células-tronco embrionárias. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realizou várias campanhas contra esse tipo de pesquisa no país. Um dos objetivos do movimento é evitar que as pesquisas com células-tronco embrionárias abram precedentes para a legalização do aborto.

18- Existe uma legislação que regulamente as pesquisas de células-tronco no Brasil?

No Brasil, a Lei de Biossegurança, sancionada pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva em 24 de março de 2005, estabelece normas e mecanismos de fiscalização que regulamentem qualquer atividade que envolva organismos geneticamente modificados e seus derivados. O artigo 5º permite as pesquisas com células-tronco embrionárias. Este artigo foi alvo de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade do ex-procurador da República, Cláudio Fonteles, que alegou “inviolabilidade do direito à vida”, que dependia da decisão do Supremo Tribunal Federal.

19- Como está o julgamento no STF?

A Ação Direta de Inconstitucionalidade está no Supremo Tribunal Federal desde maio de 2005. No último dia 05 de março foi iniciado o julgamento, suspenso em razão de um pedido de vistas do ministro Alberto Menezes Direito. O julgamento foi retomado nesta quarta-feira (28) e encerrado nesta quinta-feira (29). A decisão por seis votos a cinco foi pela a autorização das pesquisas com células-tronco embrionárias sem restrições, além das determinadas pela lei.

20 - O que diz a legislação sobre células-tronco em outros países?

O Reino Unido, África do Sul, Rússia, China, Cingapura, Coréia do Sul, Israel e Japão, permitem todas as pesquisas com embriões, inclusive a clonagem terapêutica. A Alemanha permite a pesquisa com linhagens de células-tronco existentes e sua importação, mas proíbe a destruição de embriões. A Itália proíbe completamente qualquer tipo de pesquisa com células-tronco embrionárias humanas, inclusive sua importação. A França não tem legislação específica, mas permite a pesquisa com linhagens existentes de células-tronco embrionárias e com embriões de descarte. Os Estados Unidos proíbe a aplicação de verbas do governo federal a qualquer pesquisa envolvendo embriões humanos, exceto no caso de 19 linhagens de células-tronco já derivadas quando a lei foi aprovada. O México é o único país latino-americano além do Brasil que possui lei permitindo o uso de embriões.
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