Iberê Ferreira: "Não converso sobre candidatura ao Governo"

Vice-governador alega que projetar cenários eleitorais futuros é "desserviço" para a administração.

Marcos Alexandre,
Um dos políticos mais experientes em atividade no Rio Grande do Norte, o vice-governador Iberê Ferreira (PSB) é tido como peça fundamental no tabuleiro xadrez político. Caso assuma o comando do governo, com o provável afastamento da governadora Wilma de Faria do cargo no início de 2010, para concorrer ao Senado, Iberê terá condições de concorrer à reeleição.

Ele, no entanto, não alimenta as especulações nesse sentido, apresentando a mesma alegação dos que evitam traçar possibilidades de cenários futuros: o de que isso seria um desserviço para a administração estadual.

Iberê Ferreira é mais incisivo em relação a outros temas. Ao ser questionado sobre as chances de reaproximação política do PSB com o DEM, por exemplo, ele externa sua opinião de que, pelos fatores decorrentes do plano político federal, seria mais fácil um entendimento do seu partido com o PMDB.

Outros assuntos de destaque no noticiário político e também no âmbito administrativo são abordados com o vice-governador e secretário estadual de Meio-Ambiente e Recursos Hídricos na entrevista que segue.
 

Nominuto — Com a morte do deputado Nélio Dias, surgiram notícias de que alguns líderes políticos poderiam assumir a presidência do PP no Estado. Um dos nomes citados é o seu. Qual a possibilidade de o senhor ser presidente do PP estadual?
Iberê Ferreira — Como eu tenho um bom relacionamento com pessoas ligadas a Nélio, no PP, me perguntaram se não haveria essa possibilidade. Respondi que não tenho motivo nenhum para deixar o PSB. Estou muito bem no PSB, onde sou prestigiado e bem tratado.

NM — Então, houve a sondagem?
IF — É, mas não foi nada oferecido. Foi uma conversa sobre o PP e, nessa conversa, me perguntaram sobre a possibilidade de, no futuro, me filiar ao PP. Sem que fosse oferecida a presidência. Acredito que ainda não há nem clima para discutir esse assunto agora.

NM — O seu nome também é cotado como candidato a governador em 2010, considerando-se o cenário de que o senhor estará exercendo o cargo, por conta da provável desincompatibilização da governadora Wilma de Faria, que deixaria a função para concorrer a uma cadeira no Senado. Afinal, o senhor pensa em concorrer ao Governo do Estado?
IF — Acho que falar de 2010 em 2007 é um desserviço para a administração da governadora Wilma de Faria. A eleição de 2010 passa por 2008. Não se pode falar de 2010 se ainda temos 2008 para discutir.

NM — Mas, sendo o senhor governador em exercício em 2010, não seria um caminho natural concorrer à reeleição?
IF — Está ainda para ser votado no Congresso a reforma eleitoral e pode ser que se inclua nela o fim da reeleição. Então, conversar agora sobre hipóteses futuras é gastar energia. E a minha energia está toda voltada para ajudar a administração, aqui na Secretaria e nas outras atribuições que a governadora me dá. Estou com muito trabalho no governo e estou feliz com isso.

NM — É, mas o senhor já disse que não dá para desperdiçar o cavalo passando selado...
IF — O cavalo selado pode passar para levar você para casa (risos).

NM — Pode ser também para levar ao governo.
IF — Realmente, eu não estou pensando nisso agora, porque estamos no primeiro ano de governo e acho um desserviço falar agora em sucessão. Então, não converso sobre isso. Acho que temos que organizar o governo, que ainda está em seu início, e politicamente, partir primeiro para 2008, para fazer uma boa base para o partido.

NM — Outras lideranças também disseram enxergar como natural uma candidatura sua ao governo. Entre elas, os deputados João Maia e Robinson Faria, também cotados para disputar o governo. Como o senhor analisa essas declarações?
IF — Vejo isso mais como um gesto de amizade e até agradeço a lembrança. Não levo isso ao pé-da-letra. Faço, inclusive, a mesma análise que fiz em relação a mim: da mesma forma que não quero falar sobre possibilidade de uma candidatura minha, não posso falar sobre outras. Esse é um assunto que será decidido na hora certa e esse momento vai chegar.

NM — Vamos falar, então, sobre um cenário mais próximo. Como o PSB está se preparando para disputar a eleição em Natal?
IF — O PSB participa de uma coligação que venceu as eleições, inclusive em Natal. A sucessão em Natal será conduzida pelo próprio prefeito, que é nosso correligionário, e pela governadora, que é a grande eleitora da capital. A eleição em Natal passa pela governadora. Temos aí, na nossa coligação, alguns candidatos, mas temos também candidatos no nosso partido. Lógico que, como membro do PSB, ficaria muito feliz com um candidato do meu partido, mas acima dos partidos temos a coligação. Afinal, quem ganhou a eleição foi a coligação e não o partido isolado.

NM — O senhor é partidário da idéia de que a coligação deve ter um único candidato ou de que cada partido pode lançar o seu, desde que haja um pré-acordo para a reunião do grupo num segundo turno?
IF — Eu defendo, se for possível e viável, que se lance uma única candidatura na coligação. Essa seria a situação ideal. Agora, se vai ser possível, aí nós vamos ver. Quem deve conduzir esse processo é a governadora e o prefeito. O importante é que temos bons nomes, o que mostra vitalidade da coligação em Natal. Mas espero que possamos compor sem nenhum problema.

NM — O PSB pode não ter candidato próprio em Natal e apoiar o de um outro partido?
IF — O PSB tem todas as condições de ter candidato, mas a legislação não obriga o partido a lançar um.

NM — Mas o senhor é favorável a que o partido lance candidato próprio?
IF — Em primeiro lugar, sou favorável a que a coligação se arrume. Dizer que cada um terá um candidato no primeiro turno e que se unirão no segundo é uma coisa muito fácil de dizer na mesa de negociação. Quando vai para a rua a história é outra. Os ânimos se acirram e acaba um ou outro magoado, talvez nem tanto pelos candidatos, mas pela estrutura, pela militância. Tudo isso vai refletir na hora de juntar no segundo turno. Por isso é que eu defendo um candidato único da coligação. Se puder ser do PSB, melhor ainda. 

Vlademir Alexandre
NM — Há quem defenda, nos dois lados, uma reaproximação política entre PSB e DEM. O senhor acha viável essa reaproximação?
IF — Eu acho que tanto pode ser viável uma reaproximação com o DEM quanto com o PMDB. A dificuldade que eu vejo no DEM é a posição do partido em nível nacional. Não é só pelo fato de o partido ser oposição ao governo, mas porque ele comanda a oposição, e de uma forma muito forte. E aqui nós somos aliados ao PT e apoiamos o governo Lula.

NM — Então, o senhor acha mais fácil uma reaproximação com o PMDB?
IF — Hoje, eu acho que é menos problemático fazer uma composição com o PMDB, que apóia o governo Lula. Se a gente for juntar o DEM e o PMDB, é menos traumático, é mais fácil um entendimento com o PMDB.

NM — Isso seria possível?
IF — Aí, não tenho como falar. Só estou fazendo uma avaliação política. Eu não acredito em composição que seja feita somente a portas fechadas. Para ter eficácia, qualquer composição tem que ser discutida. É como casamento: você tem que ter flerte, namoro e noivado antes.

NM — E já houve flerte com o PMDB?
IF — Não sei. Pergunto isso a você.

NM — Mas a pergunta é dirigida ao senhor, como líder do PSB.
IF — Acho que há flerte dos dois lados. Pelo menos, os espíritos estão desarmados, o que é muito bom para o Estado. Aquele radicalismo da campanha diminuiu bastante.

NM — E isso pode facilitar um entendimento?
IF — Acho que pode, mas depende muito dos entendimentos que serão mantidos e do apoio das bases. A eleição do ano que vem será muito importante para avaliarmos isso com mais clareza, pois, na realidade, a política mesmo está lá na outra ponta, nos municípios. Para fazer qualquer composição, é preciso ter essa visão e ouvir as bases. Fazer o contrário está errado.

NM — Qual a sua avaliação sobre esse início de governo? O ritmo das ações está dentro do esperado ou caminham a passos lentos?
IF — O governo não está ainda na velocidade que a governadora gostaria que estivesse. É ela mesma quem diz isso. O mais importante, porém, é que o governo está se preparando para recuperar mais adiante o ciclo que está sofrendo um atraso agora nesse início.

NM — Há notícias de que suas atribuições no governo teriam inicialmente causado insatisfação em alguns setores da administração ligados à governadora. Isso já foi superado?
IF — Não tenho enfrentado nenhuma limitação dentro do governo. Pelo contrário, tenho o melhor relacionamento possível com a governadora. Desde o primeiro momento, resolvemos que, em qualquer coisa em que haja necessidade de um esclarecimento, eu não ouça ninguém e vá diretamente a ela. E que ela faria o mesmo. Isso tem feito com que tenhamos um relacionamento perfeito. Não tenho tido absolutamente nenhum problema no governo. Até porque, quando você está bem com a chefe do governo, não tem problemas com mais ninguém (risos).

NM — O que a população pode esperar deste segundo Governo Wilma de Faria?
IF — Teremos aí muita coisa importante. Na área de saneamento, por exemplo, o governo está investindo maciçamente. Esperamos terminar o governo dobrando a área saneada em Natal. Vamos também fazer novas adutoras, como a do Alto Oeste, que foi inclusive anunciada aqui pelo presidente Lula. Também implementaremos um programa de convivência com a seca que levará água para pequenas comunidades. Estamos fazendo ainda um levantamento sobre a emissão de gás carbônico no Estado, de modo a que possamos tomar medidas para anulá-la. Queremos que o Rio Grande do Norte seja o primeiro Estado a anular a emissão de gás carbônico. São medidas importantes, inclusive, para a área turística, por gerar qualidade de vida. Na área de energia, temos muita perspectivas. Temos a melhor localização do mundo para a geração de energia eólica, já temos o gás e a perspectiva de produção de biodiesel. Acho que o Estado está começando a se preparar para o futuro, cuidando da infra-estrutura de energia, da inclusão digital, do meio-ambiente, da pesquisa científica e de setores econômicos importantes, como a mineração e a fruticultura. Nos preocupamos com o desenvolvimento, mas com o desenvolvimento auto-sustentável.
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