Garibaldi: “Prefiro que o PMDB reproduza em 2008 a aliança de 2006”

Senador revela sua preferência pela manutenção dos atuais aliados - ao invés de uma composição com o PT - e admite que o seu partido mais uma vez poderá não ter candidato em Natal.

Marcos Alexandre,
Vlademir Alexandre
Garibaldi: “Não queremos candidatura própria apenas para cumprir tabela”.
O senador Garibaldi Filho é claro: posiciona-se entre os que defendem uma candidatura própria do seu partido, o PMDB, à Prefeitura de Natal, em 2008. Mas desde que seja uma candidatura competitiva, condiciona. Por ter esse pensamento, Garibaldi não descarta a hipótese de o PMDB mais uma vez ficar fora da linha de frente da corrida pelo Palácio Felipe Camarão para apoiar a candidatura de um partido aliado. "Não queremos uma candidatura própria apenas para cumprir tabela", afirma, nesta entrevista exclusiva ao portal Nominuto.com.

Sobre alianças, ele também manifesta sua preferência - no caso, manter em 2008 a atual configuração, com PMDB, DEM, PP e PDT, ao invés de fazer uma composição com o PT. Assim como explicita seu desejo de contar novamente com o prefeito Carlos Eduardo (PSB) nos quadros do seu partido. Em relação à crise no Senado, o senador evita falar em afastamento do presidente da Casa, o alagoano Renan Calheiros, seu correligionário. Argumenta que os desdobramentos da crise são "imprevisíveis". Mas nem por isso deixa de criticar Calheiros por conduzir mal o processo.


Nominuto.com — Como o senhor avalia toda essa crise no Senado, envolvendo o presidente da Casa, Renan Calheiros?

Garibaldi Filho — A situação do Senado é muito difícil e o desfecho é imprevisível, porque pode ter desdobramentos. O que no início parecia uma crise focada no julgamento do presidente do Congresso pelo Conselho de Ética pode se tornar uma crise institucional, atingindo uma Casa como o Senado Federal.

NM — O senhor considera que o senador Renan Calheiros deveria se afastar do cargo? E qual a tendência de desfecho para o caso?

GF — Creio que essa questão do afastamento foi mal discutida e mal encaminhada. Houve uma radicalização muito grande. Não houve diálogo, pediu-se o afastamento do presidente da tribuna da Casa, quando isso deveria ter acontecido de uma maneira que o deixasse mais à vontade para tomar essa decisão. Creio que hoje o presidente já não aceita de maneira nenhuma ser (afastado)... ele tem dito isso. Então, nós poderemos ter aquilo que eu falei no início: desdobramentos imprevisíveis.

NM — Mas o senhor não acha que ele deveria se afastar espontaneamente?

GF — O que acho é que não há mais clima para isso. Que se deveria ter dialogado mais, com mais serenidade e mais cautela, para permitir que, se ele se afastasse, não saísse da Presidência diminuído de tal maneira que o deixaria numa situação, como ele disse, moralmente impossível de se colocar.

NM — Não foi a própria posição dele que criou esse impasse?

GF — Quando falo nesse acirramento, e apesar de correligionário e companheiro de bancada do senador Renan Calheiros, eu confesso que a questão não foi só mal conduzida pela bancada da oposição e por outros senadores, mas também pelo próprio presidente. Então, criou-se esse clima de grande apreensão, não apenas no Senado Federal. Quando você me pergunta no que isso vai dar, é uma pergunta que ouço constantemente quando caminho pelas ruas de Natal, pelo interior e lá mesmo, em Brasília.

NM — Falando agora do quadro político local, qual a estratégia do PMDB em Natal, no próximo ano? O partido lançará mesmo candidato próprio?

GF — Há no PMDB quem reivindique a candidatura própria com muito entusiasmo. O PMDB tem uma certa responsabilidade pois fechou a aliança (em 2006) sem uma consulta mais aprofundada às bases e hoje se sente no dever de resgatar essa candidatura própria. O que acontece é que a candidatura própria não pode levar apenas os nossos correligionários às ruas. Tem que mobilizar também outras correntes partidárias, outros partidos. Teremos que ter um candidato que não empolgue apenas as nossas bases, mas que possa ganhar a eleição. Hoje, o PMDB sozinho não ganha a eleição. Um candidato próprio (lançado) isoladamente não ganha a eleição.

NM — Hoje, o PMDB de Natal tem grandes dificuldades em apontar um candidato com densidade eleitoral para disputar a Prefeitura, sem contar o senhor, que já descartou por completo essa possibilidade. Como o partido está tentando solucionar essa questão?

GF — Precisamos ter cuidado também com as chamadas candidaturas naturais. É óbvio que eu também torço por uma candidatura natural, mas o que se sabe é que nem sempre as candidaturas naturais são vitoriosas. Eu, por exemplo, fui considerado um candidato natural, mas depois de determinadas circunstâncias - que eu não vou analisar aqui porque deixaria esta entrevista numa situação em que teríamos que conversar demais, porque haveria muitos fatores a serem analisados, como o fator econômico. Então, sobre essa questão, eu digo que nomes como o meu e o de Henrique estão fora. Agora, posso dizer que não queremos uma candidatura própria apenas para cumprir tabela, assim como não queremos um candidato que já saia “vitorioso” desde o início, porque ninguém sai. Nós queremos um candidato que apresente condições competitivas. Vamos atrás dele, mas se vamos encontrá-lo só as pesquisas dirão.

NM — O senhor admite, então, a possibilidade de o PMDB mais uma vez não apresentar candidato próprio e optar por apoiar um aliado?

GF — Eu admito a possibilidade de o PMDB não ter candidato próprio, porque, a essa altura, se eu não admitisse, ninguém acreditaria nas minhas palavras. Não podemos agredir os fatos, isso é elementar. Então, o candidato próprio é o nosso objetivo, mas para que ele aconteça - e não quero ser repetitivo - é preciso que ele reúna condições de competitividade. Por isso mesmo é que eu digo que vamos ao encontro do candidato próprio, mas se ele não significar uma clara perspectiva de vitória, vamos ter que admitir a possibilidade de apoiarmos um outro candidato e chocarmos assim, pelo menos no início, as nossas bases, que não agüentam mais apoiar candidatos de outras legendas.

NM — Nesse contexto, uma aliança com o PT seria analisada?

GF — Partindo da premissa de que ninguém vence isoladamente essa eleição, claro que eu não poderia deixar de admitir uma aliança com o PT ou com qualquer outra legenda. Apenas faço questão de enfatizar que para nós é preferível, é mais verossímil a possibilidade de uma aliança que reproduza na eleição de 2008 o que aconteceu na eleição de 2006. Porque a eleição de 2006 não foi esse insucesso todo para nós. Ela trouxe a vitória de Rosalba Ciarlini para o Senado e nos mostrou uma diferença de 0,9% no primeiro turno, em relação à nossa adversária (a governadora Wilma de Faria).

NM — Sobre essa possibilidade de aliança com o PT, o senhor já chegou a consultar o senador José Agripino (DEM) a respeito. O que há de concreto entre o PMDB e o PT? Já houve alguma conversa entre vocês?

GF — Eu converso sempre com o senador José Agripino e a senadora Rosalba Ciarlini. Não estamos conversando mais, agora, por conta desse problema no Senado, que não deixa de preocupar e de ser o centro de todas as conversas. Mas nós conversamos muito, e claro que vem à tona o cenário de 2008. Nós vemos nele a possibilidade de que tenhamos uma aliança com o PT, o que não seria apoiado pelo Democratas. O senador José Agripino deixou bem claro que não estaria numa aliança com o PT. A preferência, então, é pelo próprio entendimento que existe hoje, em torno de nossa aliança não apenas com o Democratas, mas também com o PP de Nélio Dias, o PDT de Álvaro Dias e outros partidos que possamos somar.

NM — Há, hoje, algum estremecimento na relação com o DEM no Estado, em função da composição do PMDB com o PT em âmbito nacional?

GF — Não. Se houvesse estremecimento, não haveria nem as conversas que temos tido. Havendo um desentendimento dessa natureza, a primeira conseqüência seria o encerramento das conversas. E nós temos conversado à vontade.

NM — E quanto à possibilidade de composição com o PSB da governadora Wilma de Faria, ela existe?

GF — Não vejo essa possibilidade como muito provável, pois ela macularia e inviabilizaria um recado muito claro que o eleitorado nos deu quando nos colocou nessa situação, perdendo por apenas 0,9% no primeiro turno. Diante disso, é nosso dever ficarmos na oposição. Se o nosso desempenho tivesse sido pífio, nos sentiríamos mais à vontade, mas o povo nos mandou para a oposição.

NM — Houve alguma tentativa de aproximação do deputado Henrique Eduardo em relação ao grupo da governadora?

GF — O fato de Henrique estar liderando o PMDB - o que lhe dá um trânsito muito grande entre lideranças de todos os partidos da base do governo - pode ter levado alguma dessas lideranças a tê-lo abordado sobre a possibilidade de essa aliança nacional se refletir no plano estadual. Mas eu tenho conversado com Henrique e lido também as suas entrevistas e ele tem dito que não há, agora, possibilidade de entendimento com o PSB.

NM — É verdade que o senhor teria vetado uma conversa dele com a governadora?

GF — Não, não vetei conversa nenhuma. Hoje, no Rio Grande do Norte, quem quiser conversar, conversa. Houve um tempo - que não volta mais - em que, no interior do Estado principalmente, o radicalismo era tão grande que um político não passava sequer na calçada do adversário. Agora, não. O que não quer dizer que estejamos abrindo mão de nossas convicções, de nossas coerências. Pois, aí, seríamos punidos pelo povo.

NM — Mas a conversa, pelo que o deputado Henrique alegou, teria caráter administrativo...

GF — É, a conversa pode ficar somente no plano administrativo, embora digam muito que quando a conversa começa pelo plano administrativo termina derivando pelo plano político. Mas eu não sou adivinhão para dizer que determinada conversa que venha a acontecer no plano administrativo possa ter desdobramentos políticos. Agora, para discutir o aeroporto de São Gonçalo, o pólo de PVC, a transnordestina e a transposição do rio São Francisco, temos que sentar na mesa com a governadora e com quem realmente necessitarmos.

NM — Em relação ao prefeito Carlos Eduardo, há interesse do PMDB em tê-lo de novo nos quadros do partido?

GF — Já coloquei isso outras vezes e vou reiterar aqui: já se ouviu a palavra de membros do PMDB, entre eles membros da família, e todos estão desejosos de voltar a contar com a participação do prefeito.

NM — Já houve alguma conversa com o prefeito nessa direção?

GF — Conversa com o próprio prefeito, não. O prefeito ainda não decidiu e estamos respeitando o momento da decisão dele, se ele realmente vai atender aos nossos apelos.

NM — Então, há abertura para uma conversa como essa?

GF — Eu acho que há. Isso não é impossível de acontecer. Como disse, no Rio Grande do Norte o diálogo (entre os políticos) tem sido a marca dos últimos anos. Sendo assim, por que não conversar com o prefeito Carlos Eduardo? Mas isso não pode representar que ele esteja adotando uma nova opção política.

NM — Sobre a integração do PMDB à base do presidente Lula no Congresso, o senhor mostrou-se resistente no início e depois acabou seguindo seu partido. Que balanço o senhor faz dessa aliança?

GF — O balanço que eu posso fazer é o de quem tem ouvido manifestações favoráveis de peemedebistas e de compreensão quando se trata de pessoas que não têm filiação partidária ou militância no partido. O fato é que estou realmente à vontade nessa nova posição. Durante algum tempo, eu relutei muito, mas, na hora em que o deputado Henrique Eduardo Alves tornou-se o PMDB na Câmara, dadas as nossas ligações e afinidades, achei que era o momento de me reintegrar a essa base.

NM — Hoje, o senhor considera que essa decisão do partido foi acertada?

GF — Acho que o PMDB, hoje, é que dá sustentabilidade ao governo, a chamada governabilidade. Na Câmara, a base governista até tem uma maioria muito ampla, esmagadora, mas no Senado, não. Mesmo com o PMDB, aqui e acolá há votações apertadas (em favor do governo).
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