"Eu poderia ter matado um dos assaltantes", diz delegado

Na véspera de deixar a superintendência da PF, o delegado Luís Fernando Ayres faz balanço de sua administração e fala pela primeira vez sobre o assalto ao condomínio Casablanca

Fred Carvalho,
"Eu tive chance de matar um dos assaltantes. Só não fiz isso porque meus familiares ainda estavam sendo mantidos reféns do restante da quadrilha e temi pela vida deles". Essa é a primeira declaração pública dada pelo delegado Luís Fernando Ayres Machado, ainda superintendente da Polícia Federal no Rio Grande do Norte, sobre o assalto ao condomínio Casablanca, no qual foi uma das vítimas. Em entrevista exclusiva ao Nominuto, o delegado fez um balanço de sua administração à frente da PF no Estado e aconselhou melhorias na gestão da Segurança Pública potiguar.

Fernando Ayres deixa a Superintendência da PF nesta terça-feira (19/6) para assumir a chefia do Núcleo de Combate ao Crime Organizado e Lavagem de Dinheiro do Departamento de Polícia Federal, em Brasília/DF. Essa transferência estava marcada para agosto, mas foi antecipada a pedido da própria família do delegado, que ficou "psicologicamente abalada" após o assalto ao Casablanca, ocorrido no dia 29 de abril deste ano.

Nominuto - Qual balanço o senhor faz de sua gestão à frente da PF no Rio Grande do Norte?
Luís Fernando Ayres - Cheguei aqui em dezembro de 2005. Desde então começamos um trabalho de valorização do nosso pessoal, de busca pela melhoria de nossos equipamentos. E isso surtiu resultado mais rápido do que esperava. Para se ter uma idéia, fizemos mais de 30 grandes operações. Deixo a Superintendência da PF no Rio Grande do Norte com um sentimento de dever cumprido.

Nominuto - Quais foram as principais dessas operações?
LFA - Na verdade, todas tiveram a sua importância. Até porque é nosso ofício. A prisão de integrantes do MST (Movimento dos Sem-Terra), a detenção de uma quadrilha que assaltou a agência do Banco do Brasil de Lages e as diversas apreensões de droga, como os 20 mil comprimidos de ecstasy, foram muito importantes. Mas não posso deixar de destacar as operações Testamento e Paraíso como sendo as mais importantes de minha gestão.

Nominuto - Detalhe essas duas operações.
LFA - As duas foram neste ano. Foram ações bem planejadas, com um trabalho de inteligência muito grande. A Testamento, desencadeada no dia 27 de março, teve como objetivo desarticular uma quadrilha acusada de crimes contra o sistema financeiro nacional, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e câmbio ilegal. Já a Paraíso foi deflagrada em conjunto com a polícia da Noruega. Visamos combater a lavagem de dinheiro de grupo criminoso, de origem principalmente norueguesa, através de investimentos no mercado imobiliário do Rio Grande do Norte. Foram cumpridos no Brasil mandados de prisão e de busca e apreensão no Rio Grande Norte e Paraíba, contando com a participação de 230 policiais federais. Diversas prisões também foram efetuadas na Noruega.

Nominuto - Na sua gestão, aconteceram três ou quatro greves ou paralisações de servidores. O que foi feito para melhorar a situação do policial federal no nosso Estado?
LFA - Na verdade, as paralisações que aconteceram aqui foram motivadas por um movimento nacional. O que posso dizer é que sempre busquei o melhor tanto no lado humano, quanto no lado funcional para os nossos servidores. As vezes que não pude atender a alguma reivindicação, chamei os funcionários e expliquei o porquê de não fazê-lo.

Nominuto - Mas houve melhorias?
LFA - Sim. Melhoramos o nosso armamento, as nossas viaturas, compramos mais coletes. Além disso, adquirimos um equipamento muito importante que auxilia nas investigações. Mas a principal melhoria foi a inauguração da nova sede da Superintendência. Antigamente ficávamos em galpão, que já havia sido garagem de ônibus. Agora ficamos em um prédio inteligente, que oferece condições dignas de trabalho. Isso foi um marco.

Nominuto - O número de policias federais no Rio Grande do Norte é suficiente?
LFA - Não. Hoje somos 119 agentes, 21 delegados, cinco papiloscopistas, sete peritos e 32 escrivães. A Superintendência tem que pedir junto ao departamento a contratação de pelo menos mais três peritos e, principalmente, brigar para dobrar o efetivo de agentes. Isso iria melhor o atendimento à sociedade como um todo.

Nominuto - O senhor e sua família foram vítimas de um dos assaltos mais ousados já registrados no Rio Grande do Norte, quando uma quadrilha invadiu o condomínio Casablanca e fez um verdadeiro "arrastão" nos apartamentos. O que o senhor "aprendeu" com esse fato?
LFA - "Hoje eu admito que o que aconteceu comigo foi um descuido meu. Eu tive como detectar que havia algo de errado acontecendo, como, por exemplo, o portão de entrada estar aberto e eu não ter visto o porteiro na guarita. Isso nunca tinha acontecido antes. Quando entrei no condomínio com minha mulher foi que notei do que se tratava. Mesmo assim mantive a tranqüilidade e auxiliei o assaltante no que ele me pedia. Acho que fui até o menos prejudicado, porque só me foram levados R$ 400".

Nominuto - Em algum momento o senhor pensou em reagir?
LFA - "Quando subi para o meu apartamento com um dos assaltantes, houve uma hora em que ele se descuidou e tive acesso à minha pistola. Ainda quis pegá-la. Poderia ter matado aquele assaltante. Mas pensei no fato de a minha família ainda estar sendo mantida refém pelos outros criminosos. Temi pela vida deles e dos outros moradores do prédio".

Nominuto - O assalto ao Casablanca é um dos motivos de sua saída de Natal?
LFA - O assalto não é determinante, mas influencia sim. Na verdade, essa minha transferência para Brasília já está marcada para agosto, mas resolvi antecipá-la.

Nominuto - Por que?
LFA - É difícil falar disso. Por mim, continuaria aqui. Vocês têm os melhores policiais federais com quem trabalhei. São pessoas competentes, que vestem realmente a camisa da PF. Mas tive que atender a um pedido da minha família e voltar para Brasília logo. Eles ficaram psicologicamente abalados com o assalto.

Nominuto - O nome do senhor chegou a ser cogitado para assumir a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Estado. Houve algum convite? E o senhor o atenderia?
LFA - Não passou de especulação. Não fui convidado por ninguém. Mas posso dizer que não o atenderia. Isso porque eu sei que não me sentiria à vontade tendo que suportar alguma possível ingerência política. Isso nunca ocorreu, pelo menos comigo, dentro da Polícia Federal. E não sei como reagiria se tivesse que atender a um pedido de algum político em desfavor da sociedade e da lei.

Nominuto - E como o senhor analisa a segurança pública no Rio Grande do Norte?
LFA - Ainda está em um nível suportável. Mas é preciso uma união maior, mais interação, mais inteligência na gestão. É preciso acabar com possíveis vaidades existentes. E isso não é uma crítica a ninguém. É apenas um conselho. O Rio Grande do Norte ainda é sim um paraíso, mas tudo isso pode mudar caso esse conselho não seja seguido o mais breve possível.
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