Retrospectiva do MMA 2016 - Lesões que marcaram o ano

Artur Dantas,

por Artur Dantas

Não é clichê: 2016 foi muito movimentado para as artes marciais, sobretudo para o UFC, maior liga de mixed martial arts do mundo, e o Bellator, evento concorrente. Teve de tudo um pouco nesse ano. Quase aposentadorias, atletas envolvidos em escândalos fora dos tatames, prisão, retorno de atletas que estavam quase com as luvas penduradas.

Os fãs viram os campeões caírem e novas promessas surgirem; viu o maior evento de MMA do mundo ser vendido quando parecia improvável; viu evento ser realizado em estádio de futebol no Brasil; se frustrou com lesões, prisões, e com o fato do país que idealizou o confronto interestilos, que mais tarde seria conhecido como vale-tudo e depois como MMA, ficar sem nenhum campeão.

Viu as artes marciais ficarem desacreditadas, porém também se alegrou quando o esporte foi enfim liberado em Nova York após 19 anos.

Neste ano, foi possível ver lutadores conquistando não só vitórias, mas alcançarem cifras milionárias. O esporte atingiu um novo patamar, mas também foi protagonista de episódios infelizes, quando o esporte deu, muitas vezes, lugares ao show business.

 Enfim, para relembrar esses e outros temas, acompanhe a retrospectiva do blog. 

LESÕES QUE MUDARAM OS PLANOS DO UFC E BELLATOR

Talvez esse seja o tópico que poderia ser alterado. “Lesões que mudaram os planos do UFC e Bellator” poderia ser substituído por “ações de lutadores que mudaram o curso do MMA”, e um desses caras foi Jon Jones.

Se teve um lutador que deu trabalho de verdade ao UFC - e vem dando desde 2014 - foi ele. Depois de anunciado em janeiro de 2015 que o norte-americano testou positivo para metabólitos da cocaína fora do período de competição, quando defendeu o cinturão dos meio-pesados contra Daniel Cormier, no UFC 182, o Ultimate viu uma das galinhas dos ovos de ouro ruir em uma sequência de episódios decadentes. Após o caso, em 2015, “Bones” se envolveu em um acidente de carro no Novo México, deixando para trás uma mulher grávida com um braço fraturado e o seu carro com vestígios de maconha.

Superados os problemas com a justiça, o UFC anuncia o retorno de Jon Jones, mas dessa vez Daniel Cormier, que havia conquistado o cinturão linear após derrotar Anthony Johnson, se lesionou e a revanche teve de ser remarcada, dando ao ex-campeão a chance de garantir o cinturão interino após derrotar Ovince St.Preux no UFC 187.

Assim, uma nova data para o confronto entre Cormier e Jones foi agendada, para o grandioso UFC 200, evento recheado de estrelas. Porém, a organização não contava com um novo caso de doping de Jon Jones, novamente fora do período de competição. A luta caiu restando três dias para o evento, o Ultimate perdeu milhões em promoção, mas Anderson Silva assumiu a luta contra Cormier. Como era esperado, o brasileiro perdeu já que estava fora de ritmo de treinos uma vez ainda se recuperava da cirurgia para retirada da vesícula dois dias antes do UFC 198, em Curitiba. Já Jones, considerado culpado pelo doping, recebeu suspensão da Usada, Agência Antidoping dos Estados Unidos, até julho de 2017, e teve o cinturão interino retirado. 

Jon Jones preso novamente

Se a fuga do local do acidente envolvendo uma mulher grávida resultou na prisão de Jon Jones dias depois, o americano voltaria à detenção pouco mais de um ano depois do episódio. O lutador foi flagrado violando os termos da liberdade condicional ao supostamente participar de um racha em Albuquerque, Novo México, em março. Em sua defesa, Jones alegou que arrancou com o veículo e atingiu apenas 56 quilômetros a fim de animar alguns fãs que o reconheceram em um semáforo.

Desconfiança de Dana White

As estripulias de Jones fora do octógono deixaram o presidente do UFC, Dana White, totalmente desacreditado em relação ao ex-campeão linear dos meio-pesados. Em várias entrevistas, o mandatário deixou claro que não confiava mais no lutador para vender a luta principal de qualquer evento.  Ao Jim Rome Show, White disse: “Na minha opinião, nunca correria o risco de ter o Jon Jones como principal lutador de um show novamente”, afirmou. “Eu o colocaria no card, mas não faria a luta principal com ele a menos que consistentemente volte à linha. Milhões de dólares são gastos nisso. E para um card ser desfeito – quantos cards tem sido desfeitos por que Jon Jones se envolve em problema? Então, não, não estou nessa com ele”.

E continuou…

“Lutadores de MMA têm janela curta de oportunidade. Quem sabe onde ele poderia estar; poderia estar lutando nos pesados agora. Provavelmente ele perdeu de 15 a 20 milhões de dólares. Ele provavelmente é o maior talento que já vimos no esporte. É triste ver isso dessa forma”, completou.

Thriller in Manilla

Se algumas lesões ocasionaram o cancelamento de lutas, o que dizer então da contusão de BJ Penn, que resultou na suspensão da edição do UFC que ocorreria nas Filipinas? O UFC Fight Night 97 estava agendado para o dia 15 de outubro, em Manilla, quando “The Prodigy” enfrentaria Ricardo Lamas, que sem adversário teve que ver o card inteiro ser transferido para 2017. Todos os lutadores do evento receberam a bolsa integral. 

Uma curiosidade é que o cancelamento do card foi o segundo da história do UFC em 23 anos de existência. A anterior foi em 2012, quando Dan Henderson se lesionou antes do UFC 151, no qual enfrentaria Jon Jones.

Calma, jovem!

Para muitos lutadores do UFC o simples fato de estar no maior evento de MMA do mundo não significa dinheiro no bolso. Foi o caso de Derrick Lewis, que ficou um pouco irritado pelo cancelamento do evento nas Filipinas. O peso pesado já estava na Ásia quando foi informado que o card tinha caído. 

Possuído, ele deu uma entrevista dizendo à porta de quem bateria para receber o valor integral da sua bolsa. 

Em entrevista ao “The MMA Hour”, Lewis bradou: "Não gosto dessa coisa de compensar as coisas. Estou achando que eles só vão me reembolsar por todas as pequenas corridas de táxi que tive que fazer e o hotel. E provavelmente as passagens aéreas. Isso não é o suficiente. Eu cortei muito peso. Cortei 13kg para este combate. Eu estava machucado. Eu queria comer e não podia. Estava sofrendo. Deem minha bolsa da luta ou ao menos me deem metade dela. É isso que eu exijo. Vou ficar ficar satisfeito. Eu vou ligar para ele [Dana White]. Não tenho nenhum contato com Dana White, mas meu empresário tem. Eu faria alguém me dar o número dele e vou ligar para ele, ou então vou aparecer na porta dele. Alguém vai me pagar”.

Ele recebeu a bolsa. E passa bem.  Próxima!

“Volta aqui, Rockhold. Só quero conversar, nunca te pedi nada”

A fase de Ronaldo Jacaré no UFC não é das melhores. Não, não são os resultados no octógono que preocupam o lutador e o seu time, mas a forma como o UFC vem cozinhando o peso médio em banho-maria, dificultando uma disputa de cinturão do brasileiro. Depois da passada de carro sobre Vitor Belfort, Jacaré se viu envolto em um imbróglio após o nocaute conseguido por Dan Henderson sobre Hector Lombard e o consequente credenciamento para uma revanche contra Michael Bisping. Mas isso é assunto para um outro capítulo da retrospectiva. 

O assunto agora é Luke Rockhold, contra quem Jacaré tem uma rixa antiga por não ter engolido a derrota sofrida no extinto Strikeforce, por decisão unânime, em 2011, fazendo o capixaba perder o cinturão dos médios da organização. 

Os dois se enfrentariam no dia 26 de novembro, em Melbourne, na Austrália, mas o americano teve que deixar o combate porque um fragmento de osso afetou o ligamento cruzado anterior do joelho. Caso fosse submetido a uma cirurgia, o lutador poderia passar 12 meses parado. Em caso de de cura natural, apenas dois meses. 

Rafael dos Anjos vs McGregor cancelado 

A contar das cifras milionárias movimentadas nos eventos que Conor McGregor está presente, Rafael dos Anjos pode ser considerado um dos principais perdedores de dinheiro em 2016. E o motivo? Lesão, claro. Tudo se encaminhava bem para o combate que ocorreria no UFC 196, em março. A troca de farpas estava ok, as provocações também, Rafael dizendo que “seria um dinheiro fácil” lutar com o irlandês, mas… no dia 23 de fevereiro o então campeão dos leves foi obrigado a desistir da luta. O motivo foi um uma fratura no pé esquerdo, mais precisamente uma fissura no quinto metatarso, após uma sessão de sparring. 

Wanderlei Silva atropelado

As lesões são comuns nas artes marciais, sobretudo na preparação para as lutas. Mas, fora das competições, não são tão recorrentes. E se for atropelamento, então… Foi o caso de Wanderlei Silva, ex-UFC e atual lutador do Rizin. O Cachorro Louco voltava de bicicleta de um treino em Curitiba, em maio, quando foi atingido por um veículo e teve que passar por uma cirurgia no ombro direito, que teve o ligamento rompido. 


O Reis frustrado

Não é todo dia que nem todos os lutadores que se credenciam nas suas respectivas divisões para encarar o campeão da categoria, mas Wilson Reis conseguiu. Aliás, não conseguiu. O brasileiro estava programado para encarar o dono da cinta dos moscas, Demetrious Johnson, mas uma lesão afastou o “Mighty Mouse” do combate que ocorreria no dia 30 de julho. Sem adversário, Wilson Reis teve que duelar contra o estreante Hector Sandoval e viu a luta que seria o co-evento principal da noite cair para o card preliminar. Wilson Reis venceu por finalização no primeiro round. Ele conseguiu o famoso “tem mas tá faltando”.

De novo, Velásquez?

Janeiro já dava provas que o ano do UFC seria difícil em relação às lesões. Fabrício Werdum, então campeão dos pesados, enfrentaria Cain Velasquez em uma revanche programada para o dia 6 de fevereiro, em Las Vegas, mas aí o lutador de raízes mexicanas já gritou de lá que não poderia lutar em razão de uma lesão nas costas. O brasileiro, então, recebeu Stipe Miocic como novo adversário, mas um dia depois também acusou uma contusão no dedão do pé direito e um estiramento nas costas.

Agora, com um novo cenário, já sem Werdum como campeão, o UFC remarcou a luta entre o “Vai Cavalo” e Velasquez, que ocorreria no dia 30 de dezembro próximo. Ocorreria porque uma nova lesão nas costas tirou Cain de combate uma semana antes do evento. Inclusive, o lutador já tinha cirurgia marcada para o próximo dia 4 de janeiro para eliminar esporões ósseos que afetam a perna esquerda como consequência da pressão do nervo ciático. 

Educado, Velasquez fez questão de ligar pra Werdum para se desculpar pelo ocorrido. 

Patrício Pitbull vs Ben Henderson 

Depois da trilhar carreira internacional, Patrício Pitbull não competiu por outra divisão que não fosse a dos penas até este ano. Em agosto, o potiguar teve a chance de se testar na categoria dos leves contra o ex-campeão da divisão até 70 quilos do UFC e do extinto WEC, Ben Henderson, no Bellator 160. Patrício vinha bem, fazia uma luta parelha, e mantinha vantagem diante do norte-americano. Porém, no segundo assalto, ao desferir mais um chute, o ex-campeão da organização sentiu a perna e sinalizou que não tinha mais condições de combater, sendo declarado o nocaute técnico (lesão), o primeiro da carreira. O golpe resultou em em uma fratura em um dos ossos da canela direita. 


Lesões bizarras e graves

Por falar em lesões nas lutas, quatro chamaram atenção neste ano. No início de 2016, no UFC Boston, Matt Mitrione e Travis Browne travaram um combate entre os pesados. Browne acabou acertando o dedo no olho direito do adversário algumas vezes. MItrione acabou derrotado por nocaute técnico (socos) no terceiro round, mas creditou a derrota à antidesportividade de Travis, que se defendeu dizendo que não é um lutador sujo. Bem, limpo ou não, a foto mostra a lesão que chamou atenção do público. 

Evangelista Cyborg 

Talvez Evangelista não seja propriamente um cabeça-dura e provou isso ao enfrentar Michael “Venom” Page e ter tido uma das piores lesões desde que o MMA surgiu. Esqueça o que aconteceu com Anderson Silva vs Weidman e Minotauro vs Frank Mir.  Em julho, durante o Bellator 158, em Londres, Cyborg sofreu uma joelhada voadora que entrou em cheio na testa causando o afundamento de crânio do que a gente conhece como testa. Imediatamente, o brasileiro caiu em agonia. 

No dia seguinte, a ex-esposa do lutador, Cris Cyborg, foi às redes sociais para externar a gravidade do ferimento e pedindo apoio dos fãs para custearem a cirurgia e o tratamento. Evangelista, que permaneceu consciente o tempo todo, chegou a chamar a ex-mulher de”louca” por causa do alarme. Bem, veja abaixo se ela tinha motivos para preocupação. 

Ah, o Bellator custeou todas as despesas médicas e recebeu o bônus pela vitória, em virtude do ocorrido. 

Ah, talvez sem saber da gravidade, Michael Page ainda teve tempo de “capturar” Cyborg como promoção do jogo Pokémon Go. Mais inusitado impossível. 


Na órbita de Nicolas Dalby 

Também no segundo semestre, o lutador Nicolas Dalby não ficou pra trás em termos de gravidade de uma lesão. Derrota por Peter Sobotta por decisão unânime no UFC Hamburgo, Dalby sofreu uma fratura no osso da cavidade orbital e mostrou o estrago. Feio, hein? 

É osso, Browne

A revanche entre Travis Browne e Fabrício Werdum não teve um final muito tranquilo para o havaiano (e namorado de Ronda Rousey, só pra lembrar). Ainda no primeiro round, já no final, “Vai Cavalo” desferiu um overhand que acabou acertando em cheio a mão do adversário, resultando em uma fratura exposta no dedo indicador da mão direita. Browne chegou a gesticular para o árbitro Gary Copeland sinalizando o ocorrido, mas o central não interrompeu o combate e deixou correr, não se dando conta do que tinha ocorrido. De toda forma, uma fratura quem nem toda audiência tem estômago para ver.

Tags: lesões retrospectiva 2016 MMA Travis Browne Wanderlei Silva
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