E finalmente deram a Cris o que era de Cris

Artur Dantas,
Getty Images

por Helliny França

O UFC 214 sem dúvidas foi uma edição memorável, tínhamos ali várias questões a serem resolvidas, começando pela luta principal, Jon Jones versus Daniel Cormier, o final de uma novela mexicana que se arrastava desde janeiro de 2015, quando D.C perdeu sua invencibilidade. O embate principal do UFC 214 envolvia uma rivalidade e uma tensão tamanha que foi comparado por Joe Rogan, narrador do UFC da tv americana, ao clássico do boxe Ali versus Frazier. E como era de ser esperar, Jones levou o cinto para casa.

 Ainda tivemos a volta de Renan Barão ao octógono, um retorno cheio de expectativas, Renan fez o camp nos EUA, estava com um shape diferente. O RN estava na torcida, mas Sterling acabou se impondo, e no jogo de estratégias foi a do americano que venceu.

Vimos Demian Maia lutar pelo seu lugar ao sol, durante 5 rounds, de forma corajosa, desafiou o tanque de guerra que é o dono do título dos meio-médios Tyron Woodley. Demian perdeu, mas não desistiu, lutou os 5 longos rounds com um olho comprometido devido a golpes do adversário.

Porém nenhum desses combates me despertou mais interesse do que a disputa do título feminino da divisão dos penas, não foi porque Cris é brasileira, e também não foi empatia porque sou mulher, me interessei porque já sabia do potencial e do quanto Cyborg merecia estar ali.

Antes de começar o embate o ex-lutador do UFC Rodrigo Minotauro, que estava comentando o evento no canal Combate, disse algo que eu havia repetido para todos que falavam sobre o MMA feminino comigo, que Cris Cyborg é, e sempre foi a melhor lutadora de MMA de todos os tempos.

Mas muita gente deve se perguntar: afinal quem é Cristiane Justino? Um Brasil que é fã declarado de Ronda Rousey, pouco sabe de Cyborg. Não foi por acaso que a paraibana Bethe Correia foi vaiada quando foi enfrentar a americana no UFC 190, em agosto de 2015, em pleno Rio de Janeiro.

Cris até hoje é criticada por ter sido pega no doping no passado, sim isso aconteceu em 2011 quando ela ainda lutava no extinto Strike Force, ela errou, e não estou querendo justificar. No entanto, vários nomes de peso foram pegos neste mesmo erro e não possuem uma carreira marcada por isso. Anderson “Spider” Silva continua sendo o ídolo de milhares, assim como o protagonista do UFC 214, Jon “Bones” Jones, e também o gigante dos pesados Brock Lesnar.

Quando Ronda ganhou fama internacional em 2013 por suas vitórias relâmpago dentro do UFC, Cyborg já estava a 8 anos sendo dominante no esporte. O que também poucos sabem é que por muitos anos Cris tentou enfrentar Ronda, em seu auge no Ultimate. A curitbana fez diversas propostas, inclusive de lutar sem colocar o título da campeã em jogo, mas Dana White, por motivos que depois deste sábado estão bem claros, nunca deixou sua pupila se arriscar em frente a Cyborg.

Enquanto todas procuravam treinar defesa de quedas para não ser finalizada por Ronda, Cris do alto de sua experiência disse que a chave para vencer Rowdy era acertar seu rosto. Parece que Holly Holm ouviu, e fez direitinho o dever de casa. Não foi Cris, infelizmente, que destronou a queridinha do UFC, mas a queda de Ronda fez com que começasse a dança de cinturão na categoria, que foi durante tantos anos dominada por uma só. A falta de uma campeã definitiva nos galos, fez Dana White dar o braço a torcer e abrir a divisão feminina dos penas

Mais uma vez Cyborg foi injustiçada, Dana White quis abrir a divisão logo após a curitibana ter feito um corte de peso brusco para uma luta em peso combinado contra Lina Lansberg no UFC Fight Night 95, em setembro de 2016. Cris ficou com a saúde debilitada, mas Dana queria que a categoria fosse inaugurada a todo custo, foi aí que a holandesa Germaine De Randaime subiu de divisão e enfrentou a americana Holly Holm. Ainda no octógono quando perguntada sobre quem gostaria de enfrentar Randaime disse que estaria disposta a lutar com novamente com Holm, mas quando foi indagada sobre Cyborg ela recuou imediatamente, e acusou um machucado na mão, e afirmando que ficaria 6 meses de molho sem lutar.

Mais uma vez Cris viu seu cinturão se distanciar, Randaime segurou o título, sem ver possibilidade de disputar o cinto, em maio deste ano a brasileira foi as redes sociais comemorar a aproximação do fim de seu contrato com o Ultimate. Só em junho a organização resolveu tirar o título da holandesa e dar a tão sonhada chance de Cyborg lutar por aquilo que já deveria ser seu.

Quando o pôster do evento foi divulgado, outro banho de água fria, só existia Jon Jones e Daniel Cormier ali, as outras disputas foram totalmente esquecidas. Novamente Cyborg foi as redes sociais expressar seu descontentamento com o UFC, decepcionada a lutadora disse que o Ultimate mais uma vez estava tentando escondê-la. Aparentemente para a organização 12 anos de invencibilidade não merece destaque.

Inicialmente a brasileira iria enfrentar Megan Anderson, porém a adversária acabou sendo substituída por Tonya Evinger, campeã da divisão dos galos do Invicta FC, evento do qual Cyborg pertencia.

Até que finalmente a novela se desenrolou, pude ver Cris entrando no octógono do UFC com um propósito definido, não era mais uma luta em peso casado, a expressão no rosto da brasileira era outra, dava para perceber o que aquele momento representava para ela. Depois de muitos anos de espera, a sua hora chegou, o Brasil iria conhecer aquilo que o público americano está cansado de saber.

Diferente de suas apresentações habituais Cris estava mais técnica, lembrou a última luta de Vitor Belfort, na qual ele evitou usar a explosão. Cyborg não quis partir para o tudo ou nada, afinal era seu sonho que estava em jogo.

Durante 3 rounds Cris foi paciente, deu sequências efetivas, usou todo seu arsenal: chute, socos, joelhadas, cotoveladas e mostrou sua defesa de queda, que diga-se de passagem está sempre em dia. Evinger mostrou resistência, e muita coragem, muitas não duraram um round com Cyborg, a americana fez o que pôde, merece respeito, porém mesmo com uma Cris menos Belfort, a americana sucumbiu.

Quando vi a cena de Dana White colocando o cinturão em Cyborg lembrei de todas as vezes que li comentários negativos a respeito da aparência da brasileira vindos de dentro do próprio UFC.

Dana White certa vez teve a infelicidade de dizer que a atleta parecia com o lutador Wanderlei Silva de vestido. Também lembrei da vez que Joe Rogan, na presença de White, disse em um podcast sobre MMA, o MMA Hour, que seria mais fácil a curitibana bater o peso para lutar na divisão dos galos se ela não tivesse um pênis. Recentemente a também lutadora do UFC, Angela Magaña, resolveu dar voz a esses comentários, e gratuitamente começou a insultar Cyborg nas redes sociais, nesse caso, os insultos foram cessados com um soco na boca, e um dente a menos em Magaña.

Agora Cris promete ter vida longa como campeã, e finalmente ter seu trabalho reconhecido por sua nação. Um país que tem uma Amanda Nunes e uma Cris Cyborg não precisa de uma Ronda Rousey.


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